Mulher no Cinema | ‘Quis fazer um filme sobre pessoas reais’, diz diretora de longa sobre trans

No documentário 'Meu Corpo é Político', a diretora Alice Riff retrata quatro militantes LGBT de São Paulo em suas rotinas e sem entrevistas formais, com a proposta de aproximar o espectador de cada um deles

12.12.2017  |  Por: Mulher no Cinema Luísa Pécora

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Mulher no Cinema | ‘Quis fazer um filme sobre pessoas reais’, diz diretora de longa sobre trans

Paula toma café da manhã com a mãe antes de sair para trabalhar. Linn usa transporte público para ir até um estúdio. Fernando assiste às aulas da faculdade. Giu sai com os amigos para dançar. Ações cotidianas como estas são retratadas por Meu Corpo É Político, documentário de Alice Riff sobre quatro militantes LGBT que vivem na periferia da capital paulista.

Em cartaz nos cinemas (e também na plataforma Videocamp), o filme deixa de lado as entrevistas para convidar o espectador a conhecer o dia a dia de pessoas trans: a diretora de escola pública Paula Beatriz, a artista e professora de teatro Linn da Quebrada; o estudante e operador de telemarketing Fernando Ribeiro e a fotógrafa Giu Nonato. Embora dê espaço às dificuldades e aos questionamentos das quatro personagens, o filme passa longe das trágicas narrativas mais comumente associadas à comunidade trans no cinema e na mídia.

“Sabemos de muitas histórias de morte, violência, agressão. Elas são importantes, mas queria fazer um filme sobre pessoas vivas, que têm planos, estão trabalhando e têm outras trajetórias, porque elas também existem”, contou a diretora, em entrevista por telefone ao Mulher no Cinema. “As pessoas trans foram excluídas dos espaços sociais, convivemos pouco com elas. A ideia era proporcionar a experiência de passar um tempo juntos, ir ao bar, dançar, dar risada, parar para refletir.”

O projeto começou em 2015, quando Riff acompanhou a primeira edição do festival Periferia Trans, realizado no bairro do Grajaú. Diretora de curtas ligados a questões de direitos humanos e juventude, ela se interessou pela luta da comunidade trans para ocupar espaços de trabalho, arte e educação e notou o aspecto territorial do movimento. “Entendi que era uma militância trans na periferia para a periferia, que não quer ir ao centro. É como se dissessem: ‘Nossas questões são outras, e se não fizermos as discussões aqui, não estaremos discutindo o que realmente importa para nós.’”

Seguindo o conceito do festival, Riff e sua equipe pensaram o projeto do documentário, que foi contemplado por um edital voltado à televisão pública. Exibido na TV Brasil em uma versão de 52 minutos, Meu Corpo É Político ganhou novo corte para o cinema, exibido em festivais nacionais, como o de Brasília, e internacionais, como o Vision du Réel, na Suíça.

Na entrevista a seguir, Alice Riff fala sobre como se deu a escolha de personagens, os desafios do primeiro longa-metragem e o momento do lançamento: “Acho ótimo que o filme esteja em cartaz agora.” 

Foto: Filipe Redondo


Como foi feita a escolha das personagens retratadas no documentário?

Quando falamos de pessoas trans, seja em filmes ou reportagens, sabemos de muitos casos de morte, violência, agressão. Temos contato com este tipo de histórias, e elas são importantes. Mas queria muito fazer um filme sobre pessoas vivas, que têm planos, estão trabalhando e têm outras trajetórias, porque elas também existem. A Paula era uma referência: uma mulher mais velha, diretora de escola, que ocupa uma posição importante e tem um cargo público. A Linn, conheci pelo coletivo de teatro da Fazenda da Juta, que discutia gênero com os jovens. Desde o primeiro dia tive grande admiração pelo coletivo, e a Linn tem todo um trabalho de pensar o corpo e o discurso dela, então achei que deveria ser uma das personagens. No caso do Fernando, conversei com muitos homens trans, um grupo pouco retratado, e achei que ele tinha carisma, era legal, batalhador. Ele namorava a Giu, e uma das coisas que comecei a entender é que, quando se fala sobre pessoas trans, fala-se muito sobre sexualidade. Mas há uma diferença entre sexualidade e identidade de gênero, e eu queria fazer um filme sobre identidade de gênero. Achei interessante [mostrar] um casal hétero, de uma mulher trans com um homem trans, sem ter que explicar muito, deixando no ar que isso não importa. A sexualidade está lá, como está na vida de todas as pessoas, mas o filme não é sobre isso. São duas pessoas que se gostam, se encontraram e está tudo certo.

O que motivou a decisão quanto ao formato do documentário, ou seja, a escolha de não ter entrevistas e depoimentos, preferindo acompanhar o cotidiano das personagens?

Vivemos em uma sociedade transfóbica: as pessoas trans foram excluídas dos espaços sociais – da escola, do mercado de trabalho, da universidade. Convivemos muito pouco com elas e não temos referências delas trabalhando, constituindo família. Quando comecei a pesquisa para o documentário, me dei conta disso. Comecei a questionar: se a Giu é tão parecida comigo, por que estamos tão distantes? Por que é tão difícil de a gente se encontrar? O filme propõe que o espectador passe um tempo na vida de cada uma daquelas pessoas. Uma coisa é a Paula falar que é diretora da escola, outra coisa é produzir a imagem da Paula sentando na mesa da diretora, trabalhando. Com entrevistas e depoimentos a narrativa seria distante, e a ideia era proporcionar a experiência de passar um tempo juntos, ir ao bar juntos, dançar juntos, dar risada, parar para refletir. Mais importante do que ouvir a história era ocupar esse espaço no cinema e na tela.

Como vê o momento do lançamento do filme?

Quando começamos o projeto, o momento era outro. Os movimentos e coletivos já estavam aí, mas o Periferia Trans, por exemplo, estava na primeira edição. Agora temos vários artistas trans, [a visibilidade] está crescendo muito. No que diz respeito ao número de assassinatos, ele continua mais ou menos igual [de 2015 para cá]. Mas no ano passado, quando filmamos, existia mais esperança, as pessoas tinham outras perspectivas, o clima era melhor. Estamos vivendo essa onda de ataques a exposições, e nas sessões com debate vejo pessoas que se sentem profundamente ofendidas, que se colocam de um jeito que não acontecia antes. Sinto que reagem negativamente a um filme que tem o desejo de construir uma aproximação e uma conversa. Acho uma tristeza que estejamos passando por isso, por esse momento de censura, mas também acho ótimo que o filme esteja em cartaz agora. Não é um longa agressivo, que está gritando ou sendo violento – pelo contrário: sempre pensei em um público amplo, em um documentário não só para o público LGBT ou trans, mas para qualquer pessoa ver, para uma criança ver. É um filme que busca construir pontes de diálogo, e espero que ele contribua.


Nas cidades em que o filme não está em cartaz, o próprio público poderá organizar sessões por meio de uma plataforma online de distribuição. Como funciona esse sistema?

A plataforma Videocamp permite que qualquer pessoa organize uma sessão pública e gratuita. [A partir de 30 de novembro] o filme vai estar disponível nesta plataforma nos lugares em que não entrou em cartaz nos cinemas. É uma distruibuição alternativa, para além do circuito comercial, para que tenhamos mais uma maneira de chegar às pessoas. Após a exibição a pessoa manda um relatório simples, então faremos uma contagem de público que não é só a da sala de cinema.

Qual foi o maior desafio na transição do curta para o longa-metragem?

[Pausa] Às vezes não vejo muita diferença entre fazer longa e curta porque cada projeto tem uma dificuldade. Uma particularidade deste filme foi que me propus a falar sobre um grupo muito organizado, que tem discutido e pensado muito, que quer construir seu próprio movimento. Como sou de fora, cisgênera e branca, e o filme tem um recorte de raça, de território e de ser trans, tive uma atenção muito grande no sentido de entender de que lugar eu falava e de como faria um filme sobre isso sem ser isso. Foi um desafio: a construção desse filme se deu a partir de um problema. Eu e os quatro personagens passamos muito tempo conversando, pensando nessa relação.

Que conselho você daria às mulheres que querem ser diretoras?

Acho que tem que ser diretora! [risos] Tem de ir e fazer. Todo mundo é inseguro e os homens também devem ser. Eles também não sabem se vai dar certo, mas estes postos são tão feitos para eles que vão transformando as inseguranças em outra coisa. Toda vez que vamos dirigir um filme, somos muito testadas: “Será que ela sabe mesmo o que quer?” E acho que é preciso apenas ir até o final. Tenho aprendido muito com as cineastas mais novas, que têm outro tipo de formação e já chegam muito mais seguras. É preciso ir fundo, planejar e ir fazer. Vamos estabelecendo relações, construindo equipes mais legais, que de fato estão ali para somar e pensar junto. Acho que [as diretoras mulheres] têm de fazer e acreditar. 

Luísa Pécora é jornalista, criadora e editora do site Mulher no Cinema.
O texto original pode ser lido aqui.   

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