Mulheres sobem degraus em Cannes

'Disque-denúncia' para registrar crimes sexuais ocorridos durante o evento, marcha no tapete vermelho, termo garantindo a presença de mais filmes de diretoras nos próximos anos: a produtora Deborah Osborn conta como a igualdade de gênero tomou a pauta do festival de cinema mais importante do mundo

14.05.2018  |  Por: Deborah Osborn

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Mulheres sobem degraus em Cannes

Dominique Charriau / Contributor / Getty images

Não dá para negar: a 71ª edição do Festival de Cannes está fazendo história. De fato, a igualdade de gênero no cinema nunca esteve tão presente na agenda do festival como neste ano.

A começar pelo júri, que é majoritariamente feminino e, além de ser presidido pela australiana Cate Blanchett, também conta com as atrizes Kristen Stewart e Léa Seydoux, a diretora Ava DuVernay e a cantora Khadja Nin.

Há também pela primeira vez uma hotline, uma espécie de disque-denúncia, para registrar casos e acolher vítimas de crimes sexuais ocorridos durante o evento. A ideia foi da ministra de Igualdade de Gênero francesa, Marlène Schiappa. Até porque uma das acusações de estupro atribuída ao produtor de Hollywood Harvey Weinstein aconteceu numa das edições passadas de Cannes.

No ultimo sábado foi emocionante presenciar uma marcha inédita pelo tapete vermelho que dá acesso ao Teatro Debussy: foram 82 mulheres, entre atrizes, produtoras, diretoras e profissionais do audiovisual caminhando de braços dados antes da exibição do longa-metragem Les Filles du Soleil, dirigido pela Eva Husson, uma das três mulheres que concorrem à Palma de Ouro este ano.

O número, 82, representa a quantidade de filmes dirigidos por mulheres selecionados para a competição oficial do festival desde a sua criação, em 1946. Se compararmos aos 1.688 realizadores homens que já competiram pela Palma de Ouro, a diferença é brutal.

Entre as mulheres que participaram da marcha estavam Agnès Varda (que foi uma das duas cineastas a levar a Palma de Ouro do festival), Marion Cotillard, Jane Fonda, Claudia Cardinale, Salma Hayek e também a diretora e roteirista brasileira Beatriz Seigner, que estrou seu longa-metragem Los Silencios, selecionado para a competição da Quinzena dos Realizadores desta edição. “Dava para sentir as placas tectônicas se movendo enquanto caminhávamos juntas. Agnès Varda gritava ‘hip-hip’ e nós respondíamos ‘urray’”, comenta Beatriz.“É muito bom fazer parte de um movimento mundial tão importante quanto este.”

A iniciativa, que pede salários equivalentes e abraça a luta contra assédio da indústria, foi organizada pelo grupo francês 50/50 para 2020, que tem parceria com o Sindicato dos Diretores da França e busca paridade racial e entre os gêneros no cinema por meio de uma série de ações pelo mundo, e da Fundação Time’s Up, que conta com Blanchett como uma das fundadoras, ao lado de atrizes poderosas como Natalie Portman e Meryl Streep.

Blanchett, ao alcançar o topo da escadaria que leva ao Palácio dos Festivais ao lado das outras 81 profissionais do cinema, foi clara em seu recado: “Somos roteiristas, produtoras, diretoras, atrizes, diretoras de fotografia, agentes, montadoras, distribuidoras, agentes de vendas e todas as [outras profissões] envolvidas nas artes cinematográficas. Estamos em solidariedade com mulheres de todas as indústrias. Nossa expectativa é a de que nossas instituições ofereçam ativamente paridade e transparência em seus corpos executivos e ambientes seguros de trabalho.” Vale a pena conferir o discurso na íntegra.

Além da marcha das mulheres, houve também um importante debate como parte da programação de igualdade de gênero, que contou com representantes de movimentos como o Time’s Up do Reino Unido e coletivos feministas, como o grupo italiano Dissenso Comune e o grego Greek Women’s Wave. Na pauta, um debate sobre representatividade das mulheres no mercado de cada país. Os dilemas são parecidos, assim como as estatísticas que indicam ainda a reduzida participação das mulheres na indústria e no protagonismo dos filmes. “A gente não quer ver atrizes apenas em papéis de heroínas e super-mulheres, precisamos contar a história de mulheres comuns”, falou a diretora grega Memi Koupa, integrante do grupo Greek Women’s Wave.

Na sequência desse bate-papo com representantes de movimentos engajados na luta pela igualdade de gênero, o diretor artístico do festival, Thierry Fremaux, assinou um termo se comprometendo a selecionar mais filmes de diretoras mulheres nas próximas edições do evento.

Há também debates acerca do tema acontecendo em outros pavilhões. Pude participar de um encontro mais focado na produção da América Latina para discutir a nossa realidade enquanto mulheres produtoras. Estive no estande do Instituto Nacional de Cine y Artes Audiovisuales (INCAA), da Argentina, num bate papo com outras produtoras, diretoras e profissionais da América Latina para discutir sobre os desafios de produção locais, troca de informações e análise dos dados de cada país e seu respectivo mercado. O resultado foi um primeiro encontro frutífero, que inclusive já tem data agendada para uma segunda reunião. Nós, produtoras latinas, vamos nos encontrar na próxima edição do festival Ventana-Sur, evento organizado em Buenos Aires no final do ano, com o objetivo de pensar em mais ações conjuntas colaborativas entre os países.

Como Cate Blanchett disse em seu discurso, as escadas da indústria audiovisual precisam ser acessíveis a todos. Um passo por vez, mas vamos subir.

Deborah Osborn, sócia-fundadora da bigBonsai, é responsável pela produção criativa dos projetos de entretenimento da produtora. Atua como júri e/ou palestrante em diversos festivais, como SXSW e o Festival de Gramado.

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