Não quero transar. E daí?

Ficar um tempo sem sexo ou mesmo não priorizar isso na sua vida é problema de quem?

12.08.2019  |  Por: Karoline Correa

image
Não quero transar. E daí?

A iniciação sexual de Martha* aconteceu aos 21 anos, com um casinho da faculdade. “Bem depois de todas as minhas amigas próximas terem transado”, conta ela hoje, aos 32, depois de se abrir para um grupo de amigas em um bar onde eu também estava. O assunto ali eram os “seis longos meses” de abstinência sexual de Martha, hiato que ela própria tentava justificar com o “atraso” em que se deu sua primeira transa. “Alguma coisa em mim está errada agora. Deve ser a mesma coisa que me fez começar a transar tão tarde. Simplesmente não tenho vontade nenhuma de fazer sexo”, continua. O alarme interno tocou quando ela se viu interrompendo o anticoncepcional como se nada fosse. “Era eu dizendo pra mim mesma: já que não vai transar, pra que encher o corpo de hormônio?”

Na mesa de bar, uma Martha angustiada buscava nas amigas respostas – quem sabe até receitas mágicas? – para uma libido congelada. Não foi bem o que encontrou. Das outras quatro mulheres presentes, todas já haviam vivido experiências de nenhuma atividade sexual – “e tudo bem”, disse Bianca*, uma delas. “Superestimamos o sexo. Qual é o problema de ficar um tempo sem ele?”, emendou.

O problema, respondeu Martha, “é que a gente se apaga, vai morrendo por dentro e quando percebe os contatinhos vão parando de te procurar”. “E o que é uma mulher sem seus contatinhos? Aliás, o que é uma mulher depois dos 30 sem seus contatinhos e zerada no sexo?! E se começo a namorar por um milagre e me acontece mais um período desses de nenhum tesão?”, disse, pesarosa.

Bianca não gostou nada do que ouviu da amiga: “Então a gente não tem direito de parar de transar? Ou apenas de ficar períodos sem sexo, fazendo tantas outras coisas e gozando de tantas outras formas? Para ser mulher agora também preciso ter alta frequência no meu sexo?”

O silêncio tomou a mesa.

Medir a própria frequência sexual – esteja você uma pessoa solteira ou não – é parte das neuroses humanas. Se um apetite sexual excessivo é patologia (ninfomania, lembra?), um apetite sexual ausente seria também? Sim e não.

Claro, é importante checar se algo fugiu da normalidade e se existem fatores – no seu corpo, na sua alimentação, na sua rotina e na sua cabeça – que explicam o “celibato”. Por outro lado, se eles não existem, é ok aceitar a fase como fase. Quem sabe até como um momento de exercício de autoconhecimento?

Libido representa pulsão de vida, nosso desejo e nossa excitação diante do cotidiano

Para Mariana Stock, psicanalista e fundadora da Prazerela, espaço de sexualidade positiva e bem-estar da mulher em São Paulo, nosso olhar em relação à libido precisa ser atualizado. “Costumamos pensar que a libido só se apresenta através da sexualidade, mas não. Ela pode ser endereçada a tudo e qualquer coisa que nos instigue paixão. Libido representa pulsão de vida, nosso desejo e nossa excitação diante do cotidiano; pode ser destinada a diversas atividades”, diz. É que represar no sexo toda nossa energia sexual não é a melhor das saídas. Como apontou Bianca, o problema de um cenário desses está justamente em superestimamos o sexo em uma sociedade que já tem isso como regra.

Não que seja simples passar por uma fase sem sexo sem questionar a si mesmo. Diante da situação, tanto Martha como suas amigas sentiram culpa, medo e uma obrigação pesada de devolver a normalidade às coisas. “Ficar sem transar é ameaçador para uma mulher solteira, ameaçador para uma mulher comprometida. Ficar sem transar por muito tempo é pedir por invisibilidade ou por um chifre na cabeça”, disse Amanda, interrompendo o silêncio instalado.

Há dois anos, ela mesma se sentiu “vítima” de uma espécie de obrigação social de comparecer sempre que o então parceiro quisesse. Na época, Amanda amava e desejava o namorado, mas vivia um período de tensão no trabalho, que minava suas energias diariamente. Para piorar, estava insatisfeita com o próprio corpo, quase dez quilos mais gordo desde que havia começado o namoro. “Me sentia desconfortável com o sobrepeso e terminava os dias sempre chorosa por causa do estresse do trabalho. Foi uma fase que não quero nunca mais repetir”, contou.

O então parceiro compreendeu a situação no início mas, com o decorrer dos meses, passou a se queixar com frequência da falta de sexo. “E falta de sexo para ele era qualquer coisa que ultrapasse uma semana”, recordou ela. O relacionamento não aguentou o sexo minguado. Tudo em volta começou a desmoronar, até que o próprio namoro foi por terra. Sobrou apenas para Amanda e mais ninguém a responsabilidade da falência da relação. “Ninguém nunca me disse que era normal passar tempos sem vontade de transar. Ninguém nunca me disse que, inclusive, a vontade ia voltar sim – como aconteceu. Ninguém me disse que a suspensão do sexo era só a breve suspensão do sexo. O que me falavam – e isso eu ouvia especialmente de mulheres – é que homem algum aguentaria ficar num relacionamento sem sexo e que cabia a mim seduzi-lo, reconquistá-lo. Afinal, a vontade tinha morrido em mim, então o problema era todo meu”, desabafou.

Amanda levou meses para desconstruir tudo o que disseram e deixaram de dizer a ela. Precisou investigar o corpo e a mente em busca da resposta que estava na altura do seus olhos: “Quando o corpo não responde, a gente precisa prestar atenção na cabeça. Eu estava triste. Como poderia querer transar se eu estava triste?!”.

“Estamos acostumados a enxergar as coisas dentro de métricas, dentro de uma expectativa de produtividade. E encaixar a sexualidade dentro de métricas é colocar por água abaixo a possibilidade de viver uma plenitude dos nossos sentimentos. Ficar sem transar não é necessariamente um problema. Transar uma vez por semana não é um problema. Transar uma vez por mês ou uma vez a cada seis meses também não precisa ser um problema. A forma como você vive sua sexualidade precisa ser boa para você, e em uma frequência que é boa e confortável para você e mais ninguém. Quem responde se está tudo bem é você”, pontua Mariana Stock.

Aquela conversa no bar seguiu noite adentro e terminou em uma discussão acalorada sobre liberdade sexual. “Talvez a tão estimada liberdade sexual também passe por nos importarmos menos com o sexo”, opinou Bianca.

Mariana, da Prazerela, acrescenta: “Temos mesmo essa tendência de pensar que ser livre sexualmente é simplesmente abrir as pernas para quem quisermos. E, muitas vezes, pensando assim caímos na armadilha de performar para o prazer do outro, não necessariamente para o próprio prazer”. Ou melhor: transando muito ou transando pouco, “liberdade sexual tem muito mais a ver com conhecermos o nosso corpo, sabermos o que nos dá prazer. Quando vivemos de fato isso, dizer não para o sexo quando a gente não tem vontade de transar é só parte dessa liberdade”.  

 

Karoline Correa é ilustradora e escritora de caderninhos. Gosta de problematizar com as amigas e odeia minibios

1 Comentários

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Uma resposta para “Não quero transar. E daí?”

  1. Guilherme Rodrigues disse:

    Sei que o espaço é destinado ao público feminino, mas queria parabenizar pelo texto e pela história. Sou homem e passo por esses momentos desde mto novo… Hj com quase 40 ainda enfrento isso (com um pouco mais de tranquilidade). Mas demorei muito pra ter essa clareza, ainda mais porque para nós, homens, ter um apetite sexual insaciável é sinônimo de masculinidade.
    Obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *