Não tem orgasmo que pague uma noite de sono quando o corpo quer descansar

Também não tem gozada que pague a satisfação de aprender a dizer não. Se tem uma coisa que a maturidade faz pelas mulheres é libertá-las do papel de provedora do prazer

31.07.2019  |  Por: Gaia Passarelli

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Não tem orgasmo que pague uma noite de sono quando o corpo quer descansar

Explico.

A vida sexual da mulher começa debaixo de muita expectativa (do homem também, mas não estamos tratando deles agora, tá?). Essa expectativa é sempre sobre agradar o outro. Quando a gente agrada a sensação é de missão cumprida. Satisfiz, fiz bonito. E é muito fácil confundir esse agrado pro outro com nossa própria satisfação, que não raro fica em segundo lugar. Não é por acaso que tanta mulher ainda finge gozar.

Estamos progredindo? Claro que sim! Há poucas décadas o prazer sexual não era sequer permitido para as mulheres e ainda nos dias atuais, em muitas situações e lugares, continua não sendo. Hoje, a gente recebe até um, digamos, apoio na forma de manchetes empoderadas de revistas femininas. Mas sei que é coisa de mulher privilegiada, às vezes pela situação financeira e às vezes apenas por estar em uma situação em que é permitido explorar a própria sexualidade sem amarras, com um parceiro ou uma parceira. Porque mesmo hoje ainda esbarramos no tal “dossiê para agradar seu homem”, só que em versão pra Youtube e Instagram.

Essa coisa de poder explorar a sexualidade sem amarras, sem se preocupar com expectativas externas e sem tabus se torna mais comum conforme a mulher envelhece. Você já não ouviu por aí que melhor parte de envelhecer é aprender a não se importar tanto? Isso vale pra várias coisas, mas pro sexo vale mais ainda. Mesmo sendo mais um dos muitos clichês sobre maturidade com os quais a gente tem que lidar.

Existe uma pressão para mulher cumprir o papel de provedora de prazer

Aliás, um deles diz que a mulher mais velha goza melhor porque se conhece melhor. É bonita essa fala, e é verdade que a gente tem tempo de aprender como funciona o próprio corpo e que não somos tão afetadas pela diminuição de potência física quanto os homens. Mas tem uma outra coisa bem importante, que é aprender quando a gente quer gozar e respeitar quando a gente não quer ir atrás da sensação por qualquer motivo físico ou emocional.

Existe a pressão pra mulher se manter jovem, magra, bem sucedida, acessível, interessante, etc etc etc e existe a pressão pra mulher estar a fim e cumprir o papel de provedora de prazer. Interromper o processo de cumprir esse papel, algo que pode acontecer em qualquer idade mas que a maturidade torna mais fácil, é libertador.

Como bem me escreveu num email nossa editora Lia Bock: não tem orgasmo que pague uma boa noite de sono quando o corpo quer descansar. Até porque pra isso temos o vibrador, o dildo e nossas próprias mãos que nos permitem descansar AND dormir sem ter que passar pela situação de dating toda.

Não sei se depois dos 40 toda mulher goza mais ou melhor. Mas acho que ela aprende a gozar quando quer — e espero que isso pague todo o perrengue do envelhecimento.

 

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

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