Nem morta, nem presa

Apesar de o aborto ainda ser um dos tabus mais profundos do Brasil, é também um dos procedimentos mais populares do país. Trata-se de uma questão de saúde pública urgente e deve ser tratada como tal, como temos visto nos nossos vizinhos Uruguai, Argentina e Colômbia

09.03.2022  |  Por: Mariana Caldas

image
Nem morta, nem presa

Todo mundo conhece uma mulher que já abortou. Elas estão em todos os lugares, em todas as classes sociais, em todas as famílias, em todas as religiões, em todos os bairros, em todas as cidades e em todos os estados do país. Segundo a Pesquisa Nacional do Aborto, dirigida pela antropóloga Débora Diniz entre 2010 e 2016, uma em cada cinco brasileiras até 40 anos já interrompeu uma gravidez ilegalmente pelo menos uma vez na vida. Enquanto a onda de liberação toma conta da América Latina, com os ótimos exemplos do Uruguai, Argentina e Colômbia que recentemente criaram as suas leis de Interrupção Voluntária da Gravidez, o Brasil segue com uma das legislações mais proibitivas do mundo.

“No Brasil, o aborto é considerado um crime contra a vida e isso pode te levar ao tribunal do júri, um crime que só prescreve depois de oito anos do ato, segundo o código penal. Uma mulher que aborta em uma clínica ou em casa pode ser julgada da mesma maneira que um Pimenta Neves ou um goleiro Bruno, que cometeram feminicídios bárbaros contra suas ex-companheiras. E isso diz muito sobre a sociedade em que vivemos”, comenta a escritora, roteirista e dramaturga Renata Corrêa no ensaio “Clandestinas”, que faz parte do seu recém-lançado livro “Monumento para a mulher desconhecida”.

Renata também é autora do documentário homônimo, “Clandestinas”, que está disponível no YouTube e vale cada minuto: ”O aborto é um fenômeno persistente em mulheres de todas as classes sociais, grupos sociais, recortes raciais e religiões. Sim, católicas e evangélicas abortam clandestinamente. São suas amigas, chefes, colegas de trabalho, tias, sua mãe, sua filha, sua namorada. Em 2014, o Brasil elegeu o congresso mais conservador da história do Brasil até então, desde a ditadura militar. Os poucos direitos reprodutivos das mulheres estavam em risco, e foi nesse período que o deputado Eduardo Cunha começou a trabalhar pela aprovação do Estatuto do Nascituro, uma aberração legislativa que iria restringir ainda mais os direitos sexuais e reprodutivos das mulheres.”

Isso quer dizer que apesar de o aborto ainda ser um dos tabus mais profundos do Brasil, ele também é um dos procedimentos mais populares do país. Por ano, são mais de 500 mil. E a realidade é que qualquer argumento a favor da criminalização do que deveria ser um direito de saúde básico, e garantido por lei de forma gratuita para todas as mulheres, simplesmente não se sustenta dentro de um estado democrático laico. Isso faz pensar que quem está cometendo um crime contra vida é o estado, já que a cada dois dias uma mulher morre vítima de um aborto inseguro por aqui.

Como bem resumiu o presidente argentino, Alberto Fernández: “A legalização do aborto salva a vida de mulheres, não aumenta o número de abortos nem os promove. Só resolve um problema que afeta a saúde pública.” Já a OMS afirma que “quase todas as mortes e incapacidades por aborto poderiam ser evitadas por meio de educação sexual, uso de anticoncepcionais eficazes, fornecimento de aborto induzido seguro e legal e atendimento oportuno a complicações”.

Os dados são claros: o número de abortos tende a diminuir com o tempo depois da legalização

Um ponto muito importante dessa discussão é: nenhuma mulher quer fazer um aborto. Interromper uma gravidez não é só uma trauma para o corpo, mas também pode ser muito doloroso emocionalmente, e acredite, ninguém quer passar por isso. Abortar é uma decisão que se toma por necessidade e só. Pode ser física, emocional, financeira. A não ser, é claro, quando as mulheres são obrigadas a abortar pelos homens, seus companheiros e maridos, o que por mais desesperador que pareça é uma verdade verdadeira, e um crime de abuso e violência contra a mulher.

A realidade das mulheres no Brasil é muito delicada, para não dizer criminosa e apavorante, e os números comprovam: a cada 10 minutos uma mulher é estuprada, a cada sete horas uma mulher é morta por um crime de feminicídio, mais de 100 mil denúncias de violência doméstica são feitas todos os anos, mais de 20 milhões de brasileiros não têm o nome do pai na certidão de nascimento, e só em 2010 três mil meninas entre 10 e 14 anos foram internadas no SUS para fazer um aborto permitido ou para se recuperar de um aborto espontâneo.

Escrevo esse texto com vontade de chorar, porque no fim do dia as mulheres brancas que podem gastar R$ 5 mil para fazer o procedimento em uma clínica chique, com um médico que vai ser muito gentil e respeitoso, voltam para casa vivas, com uma prescrição de antibióticos e anti-inflamatórios, enquanto mulheres negras, pardas ou que não têm os meios necessários para fazer um aborto ilegal seguro morrem, ficam com sequelas permanentes, são maltratadas nos hospitais públicos quando alguma coisa dá errado, ou caem em golpes tentando comprar Misoprostol – um remédio que provoca aborto – no mercado paralelo e no fim não conseguem abortar.

Até literalmente ontem, dia 8 de março de 2022, as brasileiras ainda precisavam da autorização de seus maridos para fazer uma laqueadura. Que mundo paralelo é esse que a gente vive que as mulheres não têm o direito de escolherem o destino de suas próprias vidas? Ter um filho é um caminho sem volta. Fazer um aborto também. E os dados são claros: o número de abortos tende a diminuir com o tempo depois da legalização, simplesmente porque as mulheres se sentem seguras e amparadas pelo estado para tomar a decisão que vai ser verdadeiramente melhor para elas naquele momento.

Enquanto as mulheres não tiverem o direito aos seus próprios corpos e não forem verdadeiramente amparadas pela lei e pelo estado, enquanto o patriarcado e a velha política dos homens brancos seguirem entranhados na alma desse país, essa realidade brutal não vai mudar. Aborto é uma questão de saúde pública urgente e deve ser tratado como tal.

 

 

Mariana Caldas, produtora de conteúdo da Hysteria, é diretora, fotógrafa e jornalista. Seu trabalho autoral investiga e revela a natureza selvagem que vem de dentro

0 Comentários

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *