Neste Dia dos Pais eu celebro minha mãe

Dona Lia foi abandonada grávida e eu cresci sem pai. Mas esta não é uma história triste

10.08.2018  |  Por: Daniela Matos

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Neste Dia dos Pais eu celebro minha mãe

– Alô.

– Boa tarde, eu estou tentando localizar Xavier Fulano de Tal.

– Sou eu!

– Ah… Tudo bem? Olha, você não me conhece. E antes de mais nada eu só queria dizer que esse telefonema não tem nenhuma intenção de atrapalhar a sua vida ou a da sua família… Faz tempo que eu queria ligar e… Desculpa, você pode falar agora? Tá ocupado? Eu consegui esse número…

– Calma. Eu sei quem você é. Você é a filha da Lia, né?

– Sim. Como você sabe?

– É que faz muito tempo que eu venho esperando por esse telefonema… Ou uma visita sua.

Começou assim a primeira conversa que tive com meu pai. Eu tinha 22 anos e ele morava no Sul.

Quando minha mãe se descobriu grávida, aos 24 anos, de um cara com quem estava “ficando”, ela fugiu. Se mudou pra um convento no Espírito Santo, disposta a passar a gravidez e parir lá.

Não demorou muito para a família descobrir e pedir pra ela voltar. Já a família dele decidiu que o melhor era o rapaz “não assumir a criança” e, assim, ele nunca mais deu as caras. Sei que esse é um roteiro de vida comum no Brasil. Mas quando se trata da sua vida, toma contornos pessoais que só cada um de nós, filhos de mãe solo, podemos explicar. Eu vim aqui pra contar a minha história. E ela não é triste.

Em 1977 não havia internet, celular nem teste de DNA. Então tínhamos uma mulher grávida de um cara que não queria assumir. Algumas audiências e advogados depois, minha mãe descobriu que a maneira de cobrar a paternidade de alguém, na falta de tecnologia melhor, era esperar que eu nascesse e colocar os três – pai, mãe e bebê – frente a um juiz pra que ele olhasse bem pra cara de todos e batesse o martelo se sim ou não. Naquele momento ela mesma tomou a decisão. Não, ele não seria meu pai. “Imagina se o juiz decide que não e eu fico como mentirosa? Pode deixar que cuido eu!” Ela vendeu sua moto 50 cilindradas e seguiu dando aula, comigo crescendo na barriga.

O imbróglio seguramente foi mais complexo que isso, mas depois de 40 anos tudo parece simples. Só sei que despacharam o progenitor pra bem longe, no interior do Paraná, onde ele vive até hoje, casado e com três filhos.

Tadinha?

“Não conheço meu pai” foi uma frase que me acompanhou durante toda a vida. As reações são quase sempre de pena ou de busca por uma consequência – invariavelmente negativa – que isso possa ter gerado em mim. “Que difícil deve ter sido! Você deve ter sentido muita falta.” Sem querer decepcionar os mais sensíveis ou desestabilizar estatísticas, mas é impossível sentir falta de algo que você não conhece. Entendo que a tendência das pessoas é espelhar a minha experiência na delas e, claro, suprimir a presença do próprio pai da sua vida para tentar entender como me sinto. Assim fica dolorido mesmo.

Além disso, essa expectativa de que a “família-modelo” é a única capaz de suprir as necessidades de afeto, segurança e acolhimento de uma criança é uma construção social muito cruel. Crianças precisam de bons exemplos e diversidade, não de figura paterna masculina disciplinadora. Sim, sou uma pessoa que cresceu sem o pai e vai muito bem, obrigada. Minha mãe e eu vivemos essa experiência de um lugar bastante privilegiado e confortável. Somos de uma família branca de classe média e nunca faltou comida na mesa, uma cama quente pra dormir, trabalho e dinheiro pra pagar a escola particular.

O que me pega é saber que existem centenas de crianças que são abandonadas por seus pais já mais velhos, o que gera uma total consciência dessa ausência e do buraco que ela deixa. Também é muito triste pensar nas mulheres com menos oportunidade que minha mãe, que passam a depender da boa vontade do estado pra conseguir assistência financeira, vaga em escola pública e carga horária flexível no trabalho.

Dia dos Pais

Fazer porta-retrato de palito de sorvete pro Dia dos Pais na escola nunca foi um problema pra mim. Dava pro meu tio e ficava satisfeita, enquanto crianças de pais separados choravam no colo da professora.

Mas não é porque a situação era simples pra mim que era simples pra minha mãe. Pra começar, ela demorou quatro meses pra conseguir me registrar. Eu nasci em fevereiro e minha certidão de nascimento tem data de julho. Foram várias visitas ao Registro Civil até que aceitassem fazer um registro sem nome ou aval de um progenitor masculino.

Ela também teve que lidar com o fato de quem um de seus irmãos deixou de falar com ela porque achava absurdo uma pessoa engravidar fora do casamento. Ele nunca ganhou um presente feito de palitos, morreu sem que eles fizessem as pazes e perdeu uma ótima oportunidade de redimir a categoria masculina.

Quando eu tinha 5 anos, minha mãe me colocou embaixo do braço e nos mudamos da casa da minha avó pra um apartamento em Perdizes. Ela se juntou com um cara legal depois disso, por 11 anos. Essa pessoa tentou ocupar o lugar de pai e até hoje minhas amigas o têm como minha figura paterna. Pra mim não foi bem assim. O lugar de pai nunca havia existido e portanto não estava vago. Obviamente não deu certo.

E como essa é a minha história, vamos aos fatos. Hoje, lamento muito mais minha mãe ter morrido sem conhecer os netos do que não ter tido um pai.

Por isso, quando chegar o Dia dos Pais e vocês sentirem uma certa dó daquela criança sem pai, desviem seu pensamento e energia para a mulher guerreira que segura as pontas do outro lado. Faça parte da sua rede, da sua trajetória, dê a mão com firmeza. E lembre que pena é um dos piores sentimentos do mundo.

Hoje que sou mãe e compartilho a criação dos meus filhos, consigo ter uma dimensão melhor do que deve ter sido, lá em 1977, assumir essa gravidez sozinha. Me orgulho muito do caminho que minha mãe escolheu, tanto por romper o paradigma da maternidade como pela coragem que ela teve de bancar tudo isso – e também o puerpério, a infância, a criação, a grana, a roupa, a comida e os valores que carrego comigo.

Tá, Daniela, mas e o Xavier Fulano de Tal? Fez o quê quando você o procurou? (Me pergunta a editora da Hysteria…)

Conversamos por meia hora. Ele perguntou meu nome e me contou dos filhos. Não me pediu desculpas e disse que “eram muito jovens” e as “coisas eram complicadas”. No fim, me disse que eu poderia ligar quantas vezes quisesse e também pegou meu telefone. Liguei uma vez mais e a mulher dele desligou na minha cara, mas não sem antes dizer que não queria que eu ligasse mais. Ele nunca me procurou.

Um dia mandei uma carta, que voltou recusada meses depois. Ainda bem. Acho que eram palavras que eu precisava escrever, mas não necessariamente ele precisava ler. Afinal, quem é ele mesmo?

Minha mãe, não, ela era foda!

É por isso que, neste Dia dos Pais, deixo aqui minha homenagem a todas as mães que como a Dona Lia fizeram florescer por entre as rachaduras do asfalto. Mulheres vítimas de uma sociedade patriarcal machista que cobra, abandona, proíbe e ainda vira as costas no final. Beijas!

Daniela Mattos é paulistana, tem dois filhxs e vive em Buenos Aires há quatro anos. Largou a publicidade e o marketing para se aventurar nos empreendimentos de gastronomia não-gourmetizados

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