‘Nin’ | A era da espiritualidade fluida

Se fé não costuma falhar, então tenhamos, mas que ela seja tão diversa quanto plena

06.04.2018  |  Por: Letícia Gicovate

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‘Nin’ | A era da espiritualidade fluida

Ilustração Julia Debasse

Uma vela pra Deus e outra pro Orixá, um santinho na carteira, uma deusa no altar. Para uma geração que quer tudo, menos se comprometer, a “espiritualidade fluida” é um belo caminho sem volta. Mas também pode ser uma chave para um mundo mais tolerante, livre da subserviência dos dogmas, e também da culpa judaico-cristã – ou, pelo menos, livre da caretice, amém!

Há alguns anos, passei oito horas confinada num saguão de hotel cinco estrelas em São Conrado. Eu estava esperando numa fila pra dar um abraço numa guru indiana que me diria o sentido da vida num sopro. Mas a onda nunca bateu. Me senti muito melhor quando me baixou um santo em um terreiro na Bahia. Ou uma entidade dançante numa gira aleatória na Praia do Leblon. Essa nunca mais saiu, graças a Deus.

Em Berlim, eu rezei o Kiddush numa sinagoga destruída durante a Kristallnacht – quando os nazistas programaram um ataque maciço contra os judeus. Tudo em mim tremeu quando estive embaixo de um céu imenso no deserto israelense de Neguev. Antes disso, na escola de freiras, cheguei a ser cooptada pelo carisma de JC – mas nunca fui convencida pela virgindade de Maria! Eu prefiro me ajoelhar no altar que ergui para Sara de Kali – uma cigana negra pagã. Canto uns pontos, rodo minha saia, dou meus giros. E nas sextas acendo a vela do Shabat.

Li um livro de poesia sufi e entrei numas total com Zoroastrismo. Mas, como boa geminiana, me distraí.

Tenho encontrado alívio na meditação budista. Mas, quando penso nos karmas acumulados, bicho, mal consigo dormir. Apelo pra São Bob Marley, sopro pro ar e canto pra subir. Minha analista diz que deus não existe e a salvação é somente em Lacan. Respiro fundo, tomo meus florais, e sigo com fé infinita no meu Citalopram.

É a vida, diz meu marido ateu. Mas alguém ainda precisa me convencer.

O que arrepia a pele é essa experiência pessoal e intransferível. Essa experiência reveladora pode estar te esperando no banco de uma igreja vazia, na fala transformadora de um rabino, num centro espírita, ou num banho de cachoeira

Num mundo que se estende entre tantas possibilidades, por onde transitaram entre solo e mentes férteis tantos homens e mulheres santos, deusas e divindades, seria quase uma tolice criar essa relação monogâmica com Deus. Há de se avaliar se o “cara lá de cima” esperava mesmo que nos dividíssemos entre os que se amam e se odeiam em nome dele. Ou dela, ou deles. Vai saber.

O certo é que enquanto livros, mitos e ritos permanecem, nós estamos por aqui só de passagem, e assim como queremos explorar cantos novos, culturas, corpos e temperos, me parece tolice se atracar a uma só religião, a um ideal moral e ético incutido por histórias que trafegam invariavelmente por polêmicas, violência, preconceito, sentimentos de superioridade, transgressão e opressão.

Mas veja bem, não estamos aqui falando da fé. Essa sim que siga cega, surda e amolada, seja no Deus de Abraão ou na Chama Sagrada da Ordem dos Sacis Violeta. É a fé que move as montanhas, e não repetir em uníssono 40 vezes uma oração que a gente sequer sabe o que significa. O que nos move é o desejo, é a potência de acreditar em algo para além da razão, algo superior ao que é visível e tangível. O que arrepia a pele é essa experiência pessoal e intransferível. Essa experiência reveladora pode estar te esperando no banco de uma igreja vazia, na fala transformadora de um rabino, num centro espírita, ou num banho de cachoeira.

Não digo para que viremos todos mochileiros da fé.  Tudo exige certa dose de esforço e resignação – que, vamos combinar, é divina. Mas tenhamos flexibilidade e, principalmente, olhar atento e generoso com a fé do vizinho. Seja qual for nossa religião, que ela contemple o esforço de enxergar o Deus – deuses, deusas, “pera lá, nem acredito em Deus” – do coleguinha, para além daquele senhor rancoroso e vingativo com o qual tivemos contato naquele livro de páginas fininhas.

E se a gente quiser experimentar de outras religiões sem tragar, que o façamos de coração aberto, a onda pode bater ou não. E se pra isso você precisar ressignificar tudo em que acredita, vá em paz. Que delícia que é se ressignificar! 

Só não duvide da fé.

 

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