Ninguém é perfeito

Em entrevista, a antropóloga Paula Pinto e Silva, que estuda a mudança do lugar do corpo na sociedade brasileira, fala de cultura e revolução: 'Já entendemos que a mulher pode ser o que quiser. Agora temos uma longa batalha para que ela de fato possa ser o que quiser. E o corpo é parte dessa batalha'

19.10.2018  |  Por: Karla Monteiro

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Ninguém é perfeito

Renata Torres | Piscina

Em 2011, a antropóloga paulistana Paula Pinto e Silva, doutora em antropologia social pela Universidade de São Paulo (USP), foi convidada pela Natura para pesquisar o corpo. “Assim mesmo, desta forma completamente abrangente”, segundo ela. No primeiro ciclo de trabalho, as mulheres entrevistadas se resumiam a agradecer por poder tocar no assunto. O questionamento dos padrões não estava em pauta. Oito anos depois, Paula vislumbra uma nova era: “Hoje o corpo é parte de um posicionamento político. Uma mudança radical em pouquíssimo tempo. Se estou procurando ser livre e responsável, tenho também que ser responsável pelo meu corpo. Lidar com as imperfeições. Não digo aceitar. Digo lidar.”

Paula – que nasceu em 1974, numa família de classe média da Zona Oeste de São Paulo – ressalta que nós aprendemos a nos tornar reféns da ciência, que a cada verão dita uma dieta, uma nova onda na academia, uma nova verdade. Mas, de acordo com a antropóloga, isso está mudando: “De 2011 para cá, vivemos uma revolução.” As mulheres agora estão em busca de suas próprias verdades, do autoconhecimento. Ou como diz o slogan: “Meu corpo, minhas regras.”

Com base num novo estudo capitaneado por Paula, “Corpo Vivo”,  a Natura acaba de lançar uma campanha de verão cujo conceito é “Vista sua pele. Viva seu Corpo.” Ou traduzindo: cada corpo é único. Para materializar o pensamento, a marca resgatou a carta “Querida garota do maiô verde”, escrita pela espanhola Jessica Gómez, que viralizou nas redes sociais, com mais de 100 mil likes e cinco mil comentários em apenas dois dias. Foi compartilhada 125 mil vezes. No texto, uma conversa imaginária com a menina da toalha ao lado, num dia de verão na praia, a autora da carta diz o que Paula vem dizendo desde sempre.

 

Com a nova onda do feminismo, as mulheres gritam “Meu corpo, minhas regras”: wishful thinking ou algo que já podemos começar a comemorar?

Nós estamos começando a falar sobre isso. Fiz o meu primeiro projeto para a Natura em 2011. Fui chamada para pensar o corpo. Assim mesmo, dessa forma completamente abrangente. Os antropólogos estudam o corpo dede o século XIX, entendendo que o corpo é a forma de expressão do ser no mundo. Este era o pensamento do Merleau-Ponty, filósofo francês que impulsionou os estudos antropológicos neste sentido. O corpo é a fronteira entre o que é natural e o que é cultura. Como corpo vivo, temos células, coração, pulmão, fígado, sangue. Mas, a partir do momento em que existimos, somos cultura. Enfim, respondendo a sua pergunta: de 2011 para cá, vivemos uma revolução.

Em que momento da revolução estamos e quais as conquistas que podemos apalpar?

De 2011 para cá, houve uma imensa mudança do lugar do corpo na sociedade brasileira. As mulheres diziam naquela época: “Obrigada por falar sobre isso, obrigada por me fazer pensar sobre isso.” O que já era para nós importante, sabíamos que tínhamos ali um assunto. Hoje o corpo é parte de um posicionamento político. Uma mudança radical em pouquíssimo tempo. Se estou procurando ser livre e responsável, tenho também que ser responsável pelo meu corpo. Lidar com as imperfeições. Não digo aceitar. Digo lidar.

Qual a diferença entre lidar e aceitar?

Não acordamos amando o nosso corpo. Isto não é simples. Amar o corpo é amar a si mesma. E este processo, sabemos, é individual.

Voltando ao slogan “Meu corpo, minhas regras”, em que medida ele é um chamado e em que medida é uma provocação?

A fala coletiva é um convite. E este convite depende do estágio em que a mulher está. Este convite pode ser aceito diretamente e eu pulo direto para a mudança. Ou, dependendo do estágio em que estou, isso bate no sentimento sem gerar ação. Temos que considerar os processos de cada público.

Você acredita que a reação conservadora que vemos no Brasil e no mundo vai frear o movimento feminista?

Tenho duas filhas adultas e me orgulho muito da construção que tiveram com seus corpos, muito mais libertadora do que a minha. Mais liberdade de ação e de ser. Tenho também sobrinhas menores que dão esperança. Tem um debate. E a este debate ninguém vai escapar. O padrão foi ampliado. Por mais que haja uma onda reacionária, uma vez que você entra em contato com isso, você não esquece. Isso por si só, digo, entrar em contato com a diferença, já muda a cultura. Não tem mais volta. Pode ser que agora tenhamos que dar um passo para trás. Mas não tem retorno.

Fale mais sobre as pesquisas de corpo que vem fazendo para a Natura há sete anos.

A Natura quer falar sobre o corpo. Não existe corpo que não seja imperfeito. Cem por cento das mulheres com quem converso, conversei ou li a respeito estão insatisfeitas com o corpo. Não importa se está menos próxima ou mais próxima do padrão. A nova campanha, então, veio no sentido de acolher a mulher que está justamente perto do padrão, dar a ela o lugar de fala. Os extremos são importantes. Mas se entendemos que o corpo é a manifestação do que eu sou qualquer uma pode falar. Qualquer uma tem uma dor. Aliás, quanto mais a gente fala, mais descobrimos que essa dor é coletiva.

Só a mulher tem essa dor?

Certamente o homem também. Mas questões da masculinidade não passam pelo corpo e nem pela beleza. Estas são preocupações secundárias. Já os pilares da feminilidade no universo ocidental, e mais ainda no universo latino, sim, passam pela construção do corpo que carrega essas características do que é ser mulher. Nascemos mulher e imediatamente temos que nos preocupar com coisas porque simplesmente somos do sexo feminino.

Que coisas, por exemplo? Fazer a unha? Depilar?

A construção de padrões corporais no tempo é muito interessante. Às vezes você pega uma personalidade famosa e acompanha a mudança do corpo radicalmente ao longo do tempo, seguindo a moda. Madonna, por exemplo. Ou a própria Annita, que começa rechonchuda, com curvas, um padrão tradicional do corpo da brasileira. O corpo se adapta à moda.

Isso se diferencia entre classes sociais ou pode ser generalizado?

Sim e não. Por um tempo conseguíamos fazer essa divisão. Num projeto que fiz para a Natura, tínhamos as mulheres-frango, cujo pressuposto era a magreza extrema, em comparação com as mulheres tradicionais, que tinham corpo normal. Hoje há os cruzamentos. Por exemplo: tanto no segmento social mais baixo quanto no mais alto, encontramos mulheres fortes, marombadas. Tudo depende de com quem estão estabelecendo diálogo. E o diálogo é natural. Ninguém se liberta de padrão, porque vivemos em cultura. Ser humano é alguém condenado a viver em cultura, porque somos cultura.

Do que estamos em busca?

Essa busca pela perfeição é uma busca humana. Busca pela melhor potência do que eu posso ser. Desde que esta potência possa ser expressada de todas as formas. O corpo tem que estar em consonância com o que sou. Assim ele é potente. Quanto mais eu tenho liberdade para falar sobre isso, mais eu entendo quem sou. Isso é a verdadeira revolução.

Ou seja: podemos ser qualquer coisa, gorda ou magra, malhada ou flácida.

Eu disse que vivemos em cultura e o diálogo é natural. O que estamos fazendo é ampliando possibilidades femininas. Criando mais repertório. Já, pelo menos, entendemos que a mulher pode ser o que quiser. Está bom: entendemos isso. E agora temos uma longa batalha para que a mulher, de fato, possa ser o que quiser. E o corpo é parte dessa batalha.

Você acha que esta discussão ainda está na bolha ou já se expandiu?

Na Natura, a gente fez todo um projeto cuja ideia fundamental é: o corpo é o mecanismo do ser. Dê vida ao seu corpo, entenda quem você é, se ocupe. A partir daí, criou-se a campanha com a carta para a menina do maiô verde, que viralizou nas redes, escrita por uma jornalista espanhola. A forma como a Natura, uma marca grande, vendida de porta em porta, colocou o debate na mesa é muito inédito.

Você tem 42 anos, é filha da geração 60/70. Olhando em perspectiva, quais as mudanças?

Sou família classe média média da Zona Oeste de São Paulo. Para os meus pais e avós, havia um padrão de vida, coisas que tinham valor. Não falávamos de corpo. O corpo não era uma pauta, nem em casa, nem na escola. Mas a coisa da comida era muito importante. Comer bem era um valor. Meus pais são a família tradicional brasileira comendo: muita fartura, sempre com um agradinho, uma farofinha, uma batatinha, um bolinho. Isso era o parâmetro de ser saudável. Comer muito e bem.

Quando começamos a pensar no conceito de saudável?

Esse pensamento do que é ser saudável vai sendo modificado à medida que vamos entrando num processo de medicalização do corpo. Ser saudável para os meus pais era comer de tudo, comer muito, ter amigos, brincar no recreio do colégio. Toda a minha construção de corpo é pautada nessa relação. É isso, aliás, que estamos querendo recuperar hoje em dia.

Como assim? Parece que estamos indo para o lado oposto.

Menos preocupação estética, que reparte o corpo, que pensa em nutriente, caloria, mas alguma coisa que olha a vida de forma mais holística. Uma criança saudável é uma criança que come bem, que brinca, que tem amigos. Hoje a OMS defende saúde exatamente dentro destes parâmetros dos meus pais. A ideia de que a saúde engloba aspectos físicos, psíquicos, culturais. É uma ideia contemporânea, mas que retorna ao que era nos anos 70.

E como pensar em corpo são hoje?

Seu corpo tem que se expressar da melhor forma possível em tudo o que você faz, inclusive no exercício físico. Se a única coisa que você gosta de fazer é nadar, nade. Caminhar, caminhe. O corpo são é o corpo que se move. E para isso o correto é descobrir quem você é e como se expressar de forma física. Quanto menos eu sei quem sou, mais refém estou das descobertas exógenas. Em resumo, tudo passa por se descobrir, se gostar e se colocar no mundo.

 

Vista sua pele. Viva seu Corpo
#vivomeucorpo
www.natura.com.br/viva-seu-corpo

 

Karla Monteiro é jornalista com passagens pelos maiores veículos da imprensa escrita brasileira e tem dois livros publicados: Karmatopia – Uma Viagem à Índia (editora Civilização Brasileira) e Sob Pressão (editora Foz). No momento finaliza uma biografia do jornalista Samuel Wainer para a Companhia das Letras

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