Ninguém quer transar

A escritora Julia Wähmann faz um manifesto contra os nudes, segundo ela grandes atrapalhadores do sexo de carne e osso

22.11.2018  |  Por: Julia Wähmann

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Ninguém quer transar

Fernanda Vallois | Piscina

Era 2011 e as redes sociais se comportavam de outra forma. Ou melhor: as pessoas das redes sociais tinham prioridades e posturas diferentes das que entraram em vigência de uns anos pra cá. Grande parte do meu círculo de amigos ainda tinha celulares de botão, sem internet, e ainda levávamos vidas mais ou menos analógicas, pontuadas por conversas presenciais, telefonemas e torpedos limitados por um pacote de telefonia que nos obrigava a ter critérios mais rígidos de comunicação. Era preciso pensar bem antes de escrever e disparar mensagens. Foi nesse cenário que topei com uma postagem no Facebook em que certo André dizia, sem nenhum pudor: “Preciso transar.” Naquela mesma noite, fiz o que nós, os socialmente equivocados, fazemos: continuei em frente ao computador e escrevi um texto divertido sobre o caso. No dia seguinte postei a crônica num blog, garanti algumas curtidas, e a vida seguiu seu curso.

Alguns anos depois, André Quer Transar virou um zine bacaninha, publicado pela Pipoca Press. Àquela altura, o mundo havia mudado consideravelmente. Grupos de WhatsaApp já eram uma realidade, embora ainda não tivessem atingido todo seu potencial, os aplicativos de encontros e relacionamentos tinham mais fiéis que as mães e pais de santos dos postes da cidade, e alguns relatos de leitores do zine atestavam que o André, afinal, dava um empurrãozinho em transas amarradas. Esse feedback tornou-se frequente – à medida que é frequente ter feedbacks de leitores de zines independentes – e comecei a questionar por que diabos, afinal, eu mesma não me beneficiava do meu texto.

Ocorre que, de lá pra cá, presentear a pessoa desejada com o zine já não é suficiente. Você precisa mandar nudes. E, francamente, os nudes atrapalham qualquer possibilidade de transa. É claro que não falo em nome de ninguém além do meu próprio. Não realizei pesquisa para comparar dados, nem mesmo assuntei muito com amigos, com receio de parecer ainda mais, digamos, à margem do padrão da pós-juventude. Logo, assumo as consequências da afirmação, e apresento meus argumentos.

As resistências iniciais eram da ordem da timidez e do medo de ter o celular roubado. Minhas primeiras tentativas de nudes se provaram um fracasso retumbante: depois de iniciada uma conversa por um dos muitos meios possíveis, flerte aqui, flerte ali, piadas inteligentes, frases de efeito, todo um senso de humor desconcertante, chegou o momento de tirar a roupa. Se já era constrangedor fazer selfie, imagine fazer selfie sexy, meio pelada. Calcular a pose, o ângulo, a luz. Escolher a calcinha certa. Fazer a direção de arte do cenário. Esconder a bagunça da sala que vai aparecer no fundo da foto. Disfarçar uma ou outra imperfeição do corpo – que ficaria escancarada algumas horas depois, quando a trepada finalmente acontecesse. Depender do enquadramento, conciliar um bom cabelo com lingerie e peitos maneiros, e o mantra do #sexysemservulgar. Encontrar o equilíbrio entre sugestão e evidência. Não é para iniciantes. Do outro lado da tela, o sujeito, impaciente, dorme.

Para vencer essas etapas, consultei uma amiga que tinha me enviado alguns retratos lindíssimos de si mesma. Ela precisava escolher um para a orelha de seu livro novo. Seus votos confirmaram minha desconfiança: as melhores fotos eram recortes de nudes que ela fez para o namorado durante uma viagem em que ficaram dois meses separados. Nesses retratos ela fazia um carão e parecia pronta a abocanhar todos os prêmios literários futuros (bem, não exatamente prêmios literários). Ela obviamente tinha um talento, e além de me incentivar a descobrir o meu, explicou que eu precisava ter um acervo pronto para apresentar quando as oportunidades surgissem, mas tendo em mente que nudes improvisados, espontâneos, também têm valor. Ela ainda me fez baixar um aplicativo a fim de resguardar a privacidade das fotos, o que relativizou um pouco meu medo de assalto.

Foi mais fácil concluir que, com tantos nudes no caminho, todo mundo acaba se resolvendo sozinho

Em tempos de desemprego, o ócio pode mesmo se tornar criativo, daí que pude me autoconstranger sem moderação, e fiz um arquivo de nudes que julguei mais ou menos digno. Todavia, quando houve demanda, os envolvidos deram no-show. Isso se repetiu algumas vezes, sempre com o mesmo elenco. Um deles, com quem tenho alguma intimidade e um passado de trepadas reais, chegou a se lamentar, tempos depois, de não ter ido à minha casa numa dessas trocas de arquivos.

Entendo que a imaginação é superior à realidade, e para provar estão aí as adaptações cinematográficas de livros, jogando baldes de água fria nas nossas expectativas. Também entendo que a equação pragmática da vida nem sempre joga a favor do tesão: Rio de Janeiro, gente de humanas desempregada, ônibus é sempre mais arriscado que táxi e Uber, que não estão baratinhos… Sair de casa, especialmente à noite, tem que valer muito a pena, como os torpedos de antigamente. E mais: no passado fui membro da “Heterossexuais não praticantes”, comunidade do Orkut cuja descrição, em resumo, dizia que sexo dá muito trabalho. Mas, pombas, é claro que no final das contas comecei a questionar tudo a meu respeito. Foi mais fácil concluir que, com tantos nudes no caminho, todo mundo acaba se resolvendo sozinho.

É provável que muitos dos meus amigos me desmoralizem ao ler tudo isso, que me contem dezenas de eventos em que seus nudes resultaram numa campainha tocando, numa cama rangendo, quiçá numa cistite chatinha dois dias depois. Em minha defesa, e para embasar minha tese, contaria a eles que tenho trepado, justamente, esporadicamente, na verdade quase nunca, e bem menos do que eu gostaria, com um sujeito com quem só converso sobre literatura.

As minhas poucas experiências com nudes me convenceram a lutar contra eles. Minha militância está cada vez mais forte. Não há André que transe assim, entregando todo o ouro nas mãos do bandido. “Esse lance de mandar nudes é uma merda. Ninguém transa”, escrevi pra um daqueles caras de dois parágrafos acima, na última vez em que ele se insinuou. E me respondeu com um emoji chorando de rir, acrescentou que Netflix e chocolates também não têm feito muito pela libido da Humanidade. Combinamos, então, de assistirmos a uma série juntos. Já que é pra não transar, que seja por uma boa causa.

 

Julia Wähmann nasceu em 1982, no Rio de Janeiro. É escritora e publicou os romances Manual da Demissão (Record, 2018) e Cravos (Record, 2016), além dos zines André Quer Transar (Pipoca Press, 2015) e Diário de Moscou (Megamíni/ 7 Letras, 2015). Mantém alguns blogs e um perfil de Instagram sobre piscinas

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