‘No bra, no problem’: por que é que não descobrimos isso antes?

Primeiro, o incluímos no nosso guarda-roupa para nos liberar dos espartilhos. Depois, resolvemos queimá-lo. Agora, parece que decidimos que ficamos muito bem sem o sutiã. Muito bem, não: ótimas. Livres, leves e soltas

28.10.2020  |  Por: Pureza Fleming

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‘No bra, no problem’: por que é que não descobrimos isso antes?

 

 

 

 

Ter um peito avultado ou não ter? Eis uma questão que se coloca, em algum momento, na vida de todas (senão quase todas) as mulheres. A opinião não é unânime, sendo que a grande maioria prefere ser avantajada — contra uma minoria que considera que ser-se “lisa”, é mesmo a cena. Eu faço parte do segundo grupo: primeiro, porque não nasci abonada de seios; segundo, e principalmente, porque cresci ao compasso da Kate Moss e, enquanto fanática por moda que era, na época, e tendo Miss Moss como ídolo máximo (quem nunca?), ter uma tábua de surf no lugar de um Silicon Valey nunca me maçou. É claro que, de repente, o mundo apresenta-nos uma Eva Herzigova, loírrissima e modelíssima, com o seu Wonderbra que deixava o seu peito enormérrimo e perfeitíssimo, capaz de deixar qualquer mulher pobre de seios a pensar se, efetivamente, seria assim tão fixe não ter um par de exímios melões.

Apesar de tudo, estamos, para já, aqui a falar de seios, e não de sutiãs. Porque, com mais volume ou menos volume, a verdade é que o sutiã há muito que está presente na vida das mulheres, independentemente do tamanho das suas boobs (tamanho 32 aqui!). Então, o sutiã foi marcando a sua posição ao longo do passado-presente da mulher. O surgimento do primeiro sutiã — pelo menos, o primeiro a ser oficializado como sutiã — remonta ao ano de 1914. Nasceu, tal como todas as boas ideias, fruto de um acaso — ou diríamos antes, de uma necessidade. Mary Phelps Jacob, uma americana farta de sentir o incómodo dos espartilhos, resolveu unir dois lenços de seda com fitas cor-de-rosa e um cordão. Ela, então, patenteou a ideia e ficou para sempre conhecida como sendo a grande criadora do sutiã.

Foi aí que despontou a produção em massa deste acessório feminino, com Jacob a vender a patente do seu sutiã à empresa norte-americana Warner Brothers Corset Company. Este foi considerado o primeiro sutiã da era moderna. Contudo, em 2012, Beatrix Nutz — investigadora do Departamento de Arqueologia da Universidade de Innsbruck, na Áustria — veio provar que os sutiãs se usam há cerca de 600 anos. Na investigação arqueológica, que começou em 2008 no Castelo Lengberg, na Áustria, foram descobertos dentro de um cofre quatro sutiãs
do ano 1400 (século XV).

Uma das coisas boas de se ficar em casa foi a libertação do sutiã

Corta para finais da década de 60, quando cerca de 400 mulheres ativistas do Women’s Liberation Movement se juntam em protesto contra a realização do concurso Miss América, em Atlantic City, nos EUA. A eleição da mulher americana mais bonita era tida como uma visão arbitrária e opressiva da beleza das mulheres devido à sua exploração comercial. Um episódio que ficou conhecido, para sempre, por Bra Burning — ou queima dos sutiãs.

Responsável por transformar o sutiã num símbolo de manifestação feminina, ainda não era desta que as mulheres entendiam o quão libertador é não usar sutiã — mas libertador bem no sentido literal da palavra. Lembro-de de quando não era freelancer, ou seja, quando passava o dia todo num escritório, a coisa que mais gozo me dava era chegar a casa e tirar o sutiã. Isso e um copo de vinho (e tudo o resto depois). Mas, de facto, soltar o corpo das amarras, tantas vezes incómodas, do sutiã, era, naquelas alturas, o mais elevado símbolo de bem-estar. Daí até que começasse a, simplesmente, não o usar foi um passo. Afinal, para que ter small boobies quando não se aproveita o facto de estas serem… mínimas? E, como tal, de não precisarem de nenhum sustento? Foi uma das melhores ideias que tive em toda a minha vida (em termos de fashion, claro). Um verdadeiro alívio.

Lembro-me de chegar às minhas aulas de ioga, e de uma amiga cinquentona, estupendaça, e de seios grandes e perfeitos, me alertar, sempre, relativamente à minha escolha: “Olha que isso de não usares sutiã vai acabar por te deixar as mamas descaídas…”. “Quais mamas?”, respondia eu, contemplando as minhas não-mamas. Entretanto, descobri o seguinte: em abril de 2013, Jean-Denis Rouillon, professor da Universidade Francesa de Besançon, concluiu que a ação do sutiã poderia ser, na verdade, inversa. Segundo o estudo, que conduziu ao longo de 16 anos, ao passarem a maior parte do tempo sustidos, os seios acabariam por ficar mais flácidos devido ao enfraquecimento muscular. Uma degradação do sistema de suspensão dos seios, tal como referiu o próprio professor, numa entrevista dada à Reuters.

Portanto, se restava um receio na minha escolha de não usar sutiã, essa mesmo foi pelo cano abaixo. Puf. Sumiu. Fast-forward para o ano 2020 e para o recolher obrigatório. Para as quarentenas, os tele-trabalhos, os dias passados em casa, de pijama, de cabelos brancos, de no make up e de… no bra, no problem. Sim, parece que no meio do caos desta pandemia, ela veio trazer algumas boas ideias (please, qualquer coisa positiva neste 2020). E, de acordo com as redes sociais — bem como com as conversas com as amigas, e com as amigas das amigas, e por aí vai — uma das coisas boas de se ficar em casa foi a libertação do sutiã. Sim, aquela peça de lingerie que pode ser tão sexy, mas tão incómoda ao mesmo tempo. Façamos aqui uma ressalva: não queremos assassinar, assim, o sutiã, muitos menos queimá-lo. Mas queremos reservá-lo — aquele modelo lindo, único, especial e caro (um investimento, quase) — para aqueles momentos lindos, únicos, especiais e que, de caros, só têm mesmo o preço do prazer que nos vai dar usar aquela peça.

 

Pureza Fleming nasceu em Lisboa, Portugal, há 39 anos. Uma obcecada por palavras, como boa geminiana que é, tem dedicado a sua vida às mesmas. Trabalhou como copywriter em agências de publicidade tais como BBDO Portugal e McCann Erickson. É, no entanto, pelo mundo das revistas que, ao longo da última década, tem espalhado as suas palavras. Já foi editora de moda e hoje escreve essencialmente sobre questões de comportamento e de sociedade — um world que a fascina. Atualmente divide a sua vida entre Búzios, Rio de Janeiro, e Lisboa

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