No meio do caminho tinha uma palavra

Conheça mulheres que ocupam as ruas de diversas cidades brasileiras com versos e dizeres. Tem ativismo, amor e sobretudo uma pitada feminina no concreto

18.07.2018  |  Por: Taina Nogueira

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No meio do caminho tinha uma palavra

Nem sempre a rua é um lugar acolhedor para o corpo feminino. Mas para a poesia não há assobios ou olhares intimidadores. É por isso que vemos cada vez mais mulheres ocupando o muros e postes com palavras e versos. Na forma de lambe-lambe, stencil ou mesmo ladrilhos, suas intervenções urbanas trazem às ruas um sentimento de pertencimento e preenchem o concreto cinza com versos de amor, frases de reflexão e muita sororidade. Conversamos com algumas das minas que se dedicam a espalhar suas palavras por diferentes cidades do país.

Amardrugada


Vivendo numa cidade de pouco mais de 200 mil habitantes, Raphaella encontrou no lambe uma forma de se expressar e amplificar a sua voz. Por meio do Amardrugada, a mineira de Divinópolis se articulou com outras mulheres, via rede social, para espalhar ainda mais poesias. “Criei um Instagram onde tive contato com lambes e artes de rua. Inclusive conversei com outras mulheres que faziam o mesmo trabalho em outros estados e juntamos forças mesmo de longe”, conta. Por viver numa cidade pequena, Raphaella tem maior proximidade da recepção dos seus lambes. “As pessoas reagem de muitas maneiras, às vezes rasgam ou, quando não conseguem arrancar, deixam eles sujos. Mas percebo também um impacto positivo em sorrisos e conversas.” Além de seus lambes, Raphaella espalhas pela cidade origamis que trazem suas poesias.

Ladrilha

O Ladrilha surgiu em fevereiro de 2017, quando a jornalista Fernanda Moreira, 29 anos, andava por Santa Teresa, no Rio, com seu namorado. Ele conta que uma vez colou um azulejo no bairro e isso despertou em Fernanda a vontade de intervir em espaços públicos com poesias escritas em ladrilhos. “A poesia tem um despertar da boniteza, da beleza da simplicidade, dos tamanhos. O ladrilho traz essa poesia visual”, diz. Para Fernanda, o objetivo do projeto vai além de levar poesia paras as vias: “É também levar a resistência e o feminino para a rua, que é machista e hostil por si só”, avalia. Quem caminha pelo bairro turístico da cidade do Rio de Janeiro esbarra com frases como “Toda mulher deve amar outra mulher” escritas em cerâmicas – e a escolha do material não foi aleatória. “Sempre amei ladrilhos, e com a vontade de criar um projeto de circulação urbana eu queria algo que fizesse parte da cultura estética da cidade.”

Manifesto das Mina

Depois de participar de uma oficina de lambes sobre feminismo, a designer paulistana Bianca Maciel, 24 anos, se inspirou nas histórias que ouviu no encontro para criar o Manifesto das Mina, que espalha frases de força e empoderamento pela cidade de São Paulo. “O objetivo do projeto é dar voz às mulheres, fazer com que elas se sintam acolhidas – seja em seus corpos, em suas mentes ou em seus sentimentos –, não só virtualmente, mas também quando passam pelas ruas”, diz Bia. Para ela, as intervenções femininas são, sobretudo, um ato de resistência para mostrar que as mulheres têm seu espaço nas ruas. “Os movimentos de arte urbana voltados ao feminismo são muito necessários, não são exatamente a solução de tudo isso, mas é um abraço na gente, sabe?”, avalia Bia.

Deixo Poesia

A escritora e redatora Camila Rodrigues, 29 anos, deixa poesia pelos lugares por onde passa em São Paulo. O seu projeto consiste em criar intervenções artísticas nos espaços urbanos com pequenos poemas em uma caligrafia graciosa. “Deixo sempre uma poesia e uma flor em locais diferentes da cidade”, diz. A belenense radicalizada na capital paulista vê na sua arte uma forma de tornar a rua um espaço de comunicação, e também uma maneira de dar voz e espaço ao trabalho de artistas mulheres não tão populares. “O que mais me encanta nessa relação entre rua e poesia é poder construir diálogos reais com pessoas com quem eu nunca cruzei na vida”, conta Camila.

Lambe da Sereia

Pequenas poesias em letras grandes e uma silhueta de sereia: é assim que a artista visual e poetisa Cybelle Young, 47 anos, espalha seus versos pela cidade de São Paulo. O Lambe da Sereia tem pouco mais de um ano e nasceu depois que Cybelle participou de uma oficina de stencil. “Todos os lambe-lambes são autorais e diagramados em editor de texto. As máscaras de stencil, desenhadas e recortadas artesanalmente. A sereia-ícone também é desenhada a mão”, conta. Para Cybelle, os lambes colados em postes e muros espalham um pouco de amor em meio ao concreto e correria do dia a dia: “Vejo pessoas muito solitárias, desempoderadas de si mesmas. E penso nelas enquanto escrevo. Como se cada lambe fosse um abraço, um colo, um ‘vai ficar tudo bem’, ‘acredite em você’”, ela diz.

1 Comentários

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Uma resposta para “No meio do caminho tinha uma palavra”

  1. Mariane Lamana disse:

    Maravilhosas! Colocaria na lista @yonipensante que tbm fazem um trabalho incrível por sp e salvador <3

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