No que você trabalha?

Estou tentando mudar o mundo, mas se quiser pode dizer que trabalho com pornografia mesmo

09.10.2017  |  Por: Mayumi Sato

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No que você trabalha?

Uma hora a pergunta sempre vem: e com o que você trabalha? O que costuma ser uma questão simples para a maior parte das pessoas me exige uma (ou duas ou dez) respiradas profundas. É o tempo de que eu preciso para analisar meu interlocutor e decidir se: a) opto pela resposta curta-finaliza-conversa, ou b) explico o que eu faço e me dedico ao que vem a seguir. Sim, porque em alguns casos minutos não bastam. Há aqueles que nem depois de anos de convivência entendem o que de fato paga as minhas contas. Esses fingem que entendem, e vida que segue.

A resposta curta é que eu trabalho com internet. Para os pouco conectados ela basta. Para os outros, preciso acrescentar: na área de marketing.

Mas o que eu sou mesmo é diretora de comunicação do Sexlog, uma rede social de sexo e swing. Digamos que o Sexlog está para a vida sexual assim como Facebook está para a vida social e o LinkedIn para a vida profissional. Deu pra entender?

Na prática, é um lugar para explorar a sexualidade. Pode ser para marcar um encontro, conhecer casais liberais ou só curtir virtualmente mesmo (através de livecams ou chats, por exemplo), mas o mais importante é que a gente se preocupa em criar um lugar tão seguro quanto livre de julgamento.

Invariavelmente quando explico o que faço desse jeito aí em cima, novas perguntas aparecem. Então você trabalha com pornografia? (Sim e não.) Quem usa esse tipo de coisa? (Seis milhões de brasileiros e alguns milhares de gringos.) Por que alguém usaria isso? (Porque, infelizmente, o mundo é um lugar cheio de tabus e é preciso criar um espaço exclusivo para publicar fotos de mamilos e afins.)

Pois bem. Aí eu paro pra respirar e tento descobrir pelo olhar se a outra pessoa absorveu alguma coisa do que falei. Pode parecer um exagero, mas é comum o raciocínio travar na hora em que solto o primeiro “sexo e swing”. Outros me jogam automaticamente na casinha do: “trabalha com pornografia”.

E tudo bem. É um pouco disso e não faz mal resumir desse jeito.

Mas o mais interessante é que o choque, em geral, não é só por conta do trabalho em si. Existe uma questão relacionada ao fato de eu ser mulher (e feminista, é claro) e ter um papel de decisão num mercado que ainda é majoritariamente masculino. Além disso, existe um preconceito de que serviços de internet relacionados a sexo são feitos de uma maneira pouco profissional, de forma amadora, o que não é o nosso caso (e aviso: não é o caso de muitas outras empresas do segmento).

Gostem ou não, existe profissionalismo no mercado do sexo. Existe dinheiro, existe ética e lanchinho coletivo falando sobre séries à tarde. Nós não trabalhamos pelados, discutimos política e reclamamos dos impostos como o resto dos mortais.

Mas olha, preconceito é um troço presente no nosso dia a dia. Existe uma prática do mercado de publicidade, por exemplo, de fingir que produtos e serviços relacionados a sexo não existem. Pouco importa o fato de estarmos preocupados em transmitir, através dos nossos serviços, mensagens importantes sobre sex-positive, consenso, segurança, feminismo, diversidade sexual etc. Se há sexo envolvido, muitas portas são fechadas sem a menor possibilidade de diálogo. Como se ninguém trepasse ou falasse sobre o assunto. Como se não existissem doenças sexualmente transmissíveis e estupro.

Um exemplo disso é o fato de que eu não consigo usar os meios tradicionais de publicidade. Adwords, Facebook Ads, anúncios em portais ou revistas, por exemplo, estão fora de cogitação. E não estou falando de botar putaria no computador de geral, estou falando de contar para as pessoas que existe uma rede social de sexo onde seus nudes e desejos não vazam. Até a contratação de serviços de terceiros (como um anti-fraude por exemplo) não acontece quando detalhamos o serviço. A nossa privada também entope, nossa rede também cai, mas olha… enfrentamos desafios no dia a dia que outros profissionais não conseguem nem imaginar.

Derramadas essas poucas lágrimas (sim, porque o negócio vai bem, obrigada), sinto que o cenário tem mudado e tenho visto uma evolução. E sabe o que é mais legal? Essas mudanças estão sendo lideradas principalmente por mulheres, muitas interessadas em discutir sexualidade e em apontar novas realidades relacionadas ao meio.

Hoje, temos uma rede de colaboração que possibilita uma nova leitura do que é pornografia e do que as pessoas de fato querem ver (ou fazer) em relação ao sexo. Tem bastante gente interessada em tirar o assunto do submundo. E existem marcas e canais interessados em ouvir a nossa experiência para construir coisas novas. Da onde a gente vem, isso é uma baita evolução.

Quer saber mesmo o que eu faço? Caminho a passos de formiguinha para ressignificar o sexo, a pornografia e as relações. Faço isso em equipe e propondo mudanças em nós mesmas, no mercado e mundo. Mas se quiser dizer que trabalho com pornografia, ok. Já me acostumei.

Mayumi Sato é idealizadora do cinicas.com.br, blogueira do UOL e diretora de comunicação do sexlog.com. Garante que sabe mais da vida sexual de seis milhões de pessoas que participam da rede social do que da própria. É feminista, sex-positive e mãe de três gatos

2 Comentários

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2 respostas para “No que você trabalha?”

  1. Mariana Farias disse:

    Olá, eu estou muito curiosa com a arte… Quem é a artista dessa colagem? Onde encontro?

    Obrigada.

  2. Sabrina Bittencourt disse:

    Mayumi querida, muitas vezes o caminho dos pioneiros – especialmente mulheres – pode parecer solitário. O legal disso é você saber que está proporcionando a uniao de mulheres com os mesmos interesses de mudar uma cultura machista dentro da área e quantas vidas direta ou indiretamente vamos poder servir com nossos “dois centavos” para que sejam mais plenas e igualitárias.
    Me sinto feliz em fazer parte da sua rede e orgulhosa pelo seu trabalho tão necessário!
    Puta texto motivador de início de ano… muito grata. Bjos aqui de Barcelona. Sá 😉

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