O casamento em tempos de ‘Black Mirror’

Como será o futuro dos relacionamentos quando perdermos de vez a privacidade? Não chora, pode ser bom

24.10.2018  |  Por: Mayumi Sato

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O casamento em tempos de ‘Black Mirror’

Vivemos em 2018 e a quantidade de empresas que possuem os nossos dados só cresce. Não estou falando apenas de endereço, CPF e número de cartão de crédito, mas de hábitos, lugares que visitamos, pessoas com quem conversamos e até nudes que trocamos.

Todos esses dados correm por redes do Google, Facebook, Amazon e outras gigantes. Se tudo o que fazemos pode gerar um registro, um rastro, como lidar com aquilo que queremos manter em segredo? E como fica o futuro dos relacionamentos nesse contexto? Arregala-se os olhos e impera o silêncio.

Uma pesquisa feita pela Kaspersky em janeiro – com 18 mil pessoas de 18 países (o Brasil está incluso) – aponta que para 70% dos entrevistados um relacionamento é mais importante do que privacidade. Lindo. Além disso, 72% dizem que não têm nada a esconder do parceiro/parceira. Todavia, 61% admitem que não querem que o parceiro/parceira saiba de algumas coisas que faz, incluindo atividades online e o conteúdos de mensagens que enviam para outras pessoas. Curioso, né? E mesmo tendo a si e a seus segredos como referência, 38% acreditam que a atividade do parceiro/parceira deve ser mantida às claras dentro do relacionamento. Para completar essa miscelânea, 31% admitem que invadem a privacidade do outro e dá aquela espiadinha (nada básica) no celular ou nas atividades online. Pah!

Privacidade violada

Estamos diante, portanto, do fato de que a tecnologia permite a violação da privacidade de uma das partes do casal, ou de ambas. E isso não só acaba com namoros, casamentos e parcerias longevas, como influencia todo o futuro dos relacionamentos. Nossas relações são mediadas, marcadas e pautadas pela tecnologia, e isso vai cada vez mais influenciar nosso modo de operar nessa área. É muito Black Mirror, não é?

Falando em Black Mirror, o episódio Hang The DJ traz uma boa reflexão. Vemos um sistema inteligente que seleciona pessoas para um match, não só vigiando a vida do casal, mas estabelecendo quanto tempo cada pessoa passará uma com a outra num looping infinito até que encontrem suas almas gêmeas. Zero livre-arbítrio, zero possibilidade de sair da fórmula monogâmica e romântica estabelecida. Futurozinho mais antiquado esse, não é mesmo?

E o futuro, cadê?

A pesquisa lá do início mostra um pouco do cenário atual, mas pensando um pouco mais distante, como será que vamos nos lidar com a privacidade nos relacionamentos? Como vamos encarar o que chamamos de traição? Afinal, é bem provável que o futuro nos coloque câmeras por todos os lados e que com elas fique ainda mais acessível controlar as pessoas e suas ações. Alô, Minority Report! Como você trai o seu parceiro/parceira quando tudo é exposto, gravado ou deixa rastro? Talvez você não traia, pois é bem possível que vejamos uma revisão do conceito de “segredo”?

O lado bom

Apesar da visão apocalíptica que muitas vezes damos ao futuro, pode existir uma luz brilhante no horizonte. É possível que a diminuição da privacidade abra caminho para um cenário em que as pessoas estejam mais dispostas a novas configurações de relacionamentos, ou seja, mais abertas não somente em relação ao sexo, mas também ao amor e ao que o outro faz fora do eixo “casal”. E isso já é aplicado por alguns. Parece uma ideia maluca? Vem que eu explico.

Relacionamentos abertos possuem em sua base a premissa de que o outro é um ser humano único e com necessidades que não serão totalmente satisfeitas dentro de um relacionamento tradicional/monogâmico. Afinal, se somos todos diferentes, porque os relacionamentos precisam ser iguais? O ficar com outras pessoas não significa falta de amor ou falta de interesse no parceiro, mas um desejo de estar aberto a novas experiências e compartilhar isso com alguém que você ama. Não torce nariz, não. É tudo uma questão de costume. Já nos acostumamos com coisas tão mais bizarras.

Mas mesmo que você tenha uma certa dificuldade com esse cenário, vale lembrar que é pra ele que caminhamos. E não porque seremos mais liberais, mas sim porque o monitoramento de nossas atividades não vai nos deixar outra opção. Transparência será um pilar importante e como é bem difícil que as pessoas parem de trair quando a privacidade acabar, é bem provável que fiquemos com uma sinceridade crua que nos colocará outro eixo de visão sobre o que é casamento, namoro e relacionamento de forma geral.

 

Mayumi Sato é idealizadora do cinicas.com.br, blogueira do UOL e diretora de comunicação do sexlog.com. Sabe mais da vida sexual de seis milhões de pessoas que participam da rede social do que da própria. É feminista, sex-positive e colaboradora do Futuro do Sexo, onde este texto foi publicado originalmente

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