O dia em que eu odiei ser mãe

Tudo aquilo que a gente almejou, estudou e corria atrás para colocar em prática vira pó em situações extremas como a criada pela pandemia

16.09.2020  |  Por: Lia Bock

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O dia em que eu odiei ser mãe

Ter muitos filhos durante a pandemia é flertar com limites. Limite da sanidade mental, limite financeiro, limite de computadores para a escola em casa, limite da paciência e também limite do amor. Sim, porque não foram poucos os dias em que tive a certeza de que o amor materno era como a tal terra plana – uma hora ou outra, eu iria cair pra fora e não conseguir voltar nunca mais. Claro que a ideia é tão estapafúrdia quanto a do fim no mapa múndi, o amor sobrevive cíclico, apenas (se é que podemos dizer assim) entrecortado por momentos de ódio.

No dia em que eu odiei ser mãe havia talheres espalhados pela casa toda – as gêmeas de 2 anos aprenderam a abrir a chavinha que fecha o gaveteiro da cozinha. Os dois do meio tinham pegado todos os lençóis (limpos) da casa para fazer uma cabana onde, obviamente, comeram bolacha de chocolate. O mais velho estava num jogo infinito de Fortnite berrando loucamente coisas como “Eu vou morrer”, “Mata ele!”, “Vai: atira! atira!”, como se estivéssemos numa praça de guerra. E talvez estivéssemos.

Veio uma sensação de impotência, depois um desânimo seguido de uma vontade de chorar e quando nada de extraordinário ou divino aconteceu, veio o ódio. Primeiro foi uma raiva direta dessas criancinhas específicas, depois uma raiva do “novo normal”, em que pessoas com muitos filhos, e que dependem da rede de apoio, se ferram. E daí, claro, veio a culpa, porque, afinal, quem escolheu essa vida fui eu, não é mesmo? Daí para o ódio foi um pulo.

É verdade que foi com total consciência que cheguei até aqui. Nós chegamos. Já tínhamos três crianças, reunindo os meus dois e a do meu companheiro, quando resolvemos ter mais uma, aquela que amarraria nossa família num mar de amor e sobrenomes diferentes. Mas, ops, vieram duas. E tudo bem, a natureza é sábia, “vai ser melhor assim”, quando os maiores estiverem fora com seu pai ou mãe, as pequenas não estariam sozinhas.

Nesta pandemia todos nós, pais, mães e cuidadores, percebemos bem a diferença entre criar e educar

O que não estava no script era trazer a escola, o clube, a praça, o final de semana dos avós, tudo aqui pra casa. Definitivamente, não estávamos preparados para esse Big Brother familiar que, além de não ter prêmio no final, inclui perda de parte da renda. E, nesses meses de massacre da vida privada, um pedaço do meu coração aprendeu a odiar a maternidade. Meu estoque de “nãos” foi saturado. E o misto da vontade de desistir com a necessidade de continuar estabeleceu um padrão de resignação em que detestar a rotina, os afazeres e a maternidade em si começaram a fazer parte da vida.

Nesta pandemia todos nós, pais, mães e cuidadores, percebemos bem a diferença entre criar e educar. Criar é fácil: basta alimentar, ligar a televisão, dar banho e baixar o Zoom. Já educar é bem mais complexo e envolve uma malha de sentimentos, regras, paciência, embates e perguntas simples com respostas elaboradas. E mesmo quando me desesperei e fiz a opção mais simples, escolhendo de forma consciente apenas criar as crianças, o mundo bateu na minha porta me lembrando que, durante a pandemia, não é dada esta opção. Um teve ataques de pânico achando que ia morrer de coronavírus, o outro desencanou da escola num suplício por intervenção e as bebês passaram a chorar agarradas no portão, num pedido desesperado para dar uma voltinha.

Meu deus, me deixem ser uma péssima mãe, por favor! Não, na pandemia não temos status para isso.

E é aí que quem tem muitos filhos dança. O isolamento criou demandas bem específicas que se somaram às demandas convencionais da família, e nesse excesso de necessidades pontuais se encontram, inclusive, coisas conflitantes. Um precisa entender que estamos numa pandemia e que a vida não segue como era antes, mas na margem oposta; o outro precisa de leveza porque está absolutamente apavorado com o coronavírus. Um precisa se mexer e agitar pra ver se a serotonina se reproduz; outro precisa de silêncio e meditação. Um precisa maneirar na comida; o outro precisa de um empurrãozinho pra comer. E claro, todos precisam de acompanhamento da escola, o que para quem tem muitas crianças em casa é absolutamente desesperador.

E foi assim, sob a batuta enlouquecida da vida monótona, sob o medo da morte e também da vida como está posta, que vi o lado sombrio da maternidade – privilegiada que sou, isso não tinha me acontecido até então. Senti o ódio correr pelas minhas veias. Ele tinha perfume de esgotamento e notas de fracasso. O ódio materno é rancoroso e absurdamente esclarecedor. Sim, porque odiar a maternidade não tem nada a ver com odiar os filhos. Está mais para um ódio do mundo e das circunstâncias da vida. Tem a ver com o limite do que podemos dar e falta de perspectiva para a chegada de dias melhores.

Tá, mas e o que fazer com tudo isso? Dizem que resignação é a palavra. Então mentalizemos e aproveitemos para aprender umas coisinhas. O ódio à maternidade veio para mostrar que tudo aquilo que a gente almejou, estudou e corria atrás para colocar em prática vira pó em situações extremas. O ódio à maternidade veio para humilhar a boa mãe, com sua alimentação equilibrada e jogos educativos. Veio para sambar na cara da parentalidade positiva e dos argumentos sensatos dos avós educadores. O ódio à maternidade veio para mostrar o quanto a boa mãe e o bom pai (porque, claro, esse texto vale para todes) está ligada à criação coletiva, à escola, aos avós, aos amigos, aos tios, à viagem para a chácara, aos encontros descompromissados e tudo o que forma nossa malha social. Porque é muito melhor ser mãe (e/ou pai) quando há diversidade na vida e outras coisas para odiar.

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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