O evento do futuro: testamos uma experiência íntima num festival online

Se a participação mais ativa do público em eventos virtuais é uma tendência, saiba como foi encontrar pessoas que poderiam estar em qualquer lugar do mundo para momentos de verdadeira troca durante o Unfinished, realizado na Romênia

06.10.2020  |  Por: Natália Albertoni

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O evento do futuro: testamos uma experiência íntima num festival online

No fim do mês passado, por volta das 9h da manhã de uma quarta-feira qualquer, eu recebi a ligação de um gringo que eu nunca vi na vida – e, sinceramente, aqui entre nós, há pouco tempo, não tinha nem ouvido falar. Ele precisava falar comigo sobre a experiência que havia criado para um festival na Romênia e para a qual eu tinha me inscrito. O gringo era o Perry Chen, fundador do Kickstarter, a plataforma de financiamento online que inspirou quase todos os crowdfundings que você conhece (apenas). Já o festival era o Unfinished, que rola há cinco anos no Museu Nacional de Bucareste. E, pela primeira vez, pelos mesmos motivos que já estamos cansadas de saber, foi realizado online. Um dos destaques da programação, que ia de 27 de setembro a 4 de outubro, era Marina Abramović. Sentiu a vibe, né?

Voltando à ligação inesperada, Perry me contou que o projeto dele, Significant Exchange, seria vivido em duas etapas, em dois dias diferentes, com duas pessoas também diferentes. Em uma ocasião eu seria uma doadora. E na outra uma receptora. Do quê? De algo muito significativo pra quem estivesse doando. Podia ser um cobertor herdado da avó ou até mesmo o seu próprio tempo – que é precioso e anda escasso. O meu par poderia estar em qualquer lugar do mundo, então naturalmente era interessante levar isso em consideração. Ainda que eu pudesse enviar objetos pelo correio, claro. 

A participação mais ativa do público em eventos virtuais já estava prevista no relatório The Future of Pandemics, da Faith Popcorn. Entre as previsões, estavam contempladas aulas personalizadas com ferramentas facilitadoras para colaboração virtual mútua. Ou eventos esportivos em estádios-estúdios – onde a ação seria filmada de todos os ângulos, sem a presença de público ao vivo, já que o mesmo estará online, na partida com os jogadores. A experiência do Unfinished não exigiu o uso de óculos especiais, mas se desenrolou dentro de uma plataforma proprietária do evento criada especialmente pra garantir a interação do público. 

Tive alguns dias para pensar: o que eu poderia dar para alguém que eu nunca conheci? Idealizei um jogo de cartas inventadas. Mas faltava material. Considerei também atualizar uma obra de instrução que criei há alguns anos. Até que, numa conversa breve com outro desconhecido, entendi que eu ia contar uma história. É o que eu faço pra pagar minhas contas. É o que eu desejo fazer nas horas vagas. É algo difícil pra mim, que exige esforço, dedicação, entrega. E precisa sair de mim. Significativo. A história seria sobre o meu futuro par. Poderia ser a melhor gafe da adolescência. A vida que não aconteceu, mas está nos planos. Ou até uma mentira. 

No dia marcado, recebi as instruções para o meeting por e-mail, com direito a senha (Apollo) e marcação na agenda. Em outra quarta-feira, pontualmente às 11h, estava eu a postos para iniciar as etapas de doação do meu presente. A minha parceira era brasileira e mora nos arredores da Rua Teodoro Sampaio, que quem mora em São Paulo sabe ser barulhento. Eu estava na praia, porque graças à deusa o home office permite. A primeira parte era a vista pro mar, com o som das ondas. O mar mexe muito comigo. Depois, anunciei as regras da troca, recebidas com ânimo. Segui, então, com as perguntas para ela, que vamos chamar de Eva.

Eva não precisou pensar muito. E não teve cerimônias pra chorar um pouco. Ela queria que a filha pudesse encontrar a avó, a mãe da própria Eva, que morreu há cerca de dois anos, depois de algumas cirurgias e a vitória de uma doença cardíaca super rara. Eva descobriu que estava grávida um mês após a morte da mãe. Ela, a mãe, não sabia cantar, mas, achando que sabia, ou talvez fingindo que sabia, entoava “encosta sua cabecinha no meu ombro e chora”. Algo que Eva faz com a própria filha agora, em semelhante desafino. O prato favorito da mãe de Eva era pepino em conserva com batata chips. E ela gostava muito de boiar em mares calmos. Eva achou enigmático que o meu encontro com ela, ainda que virtual, fosse justamente na praia. Se a mãe a reencontrasse, nem que por dez minutos, só poderia ser na praia. 

Receber foi muito mais fácil. Na mesma hora, no dia seguinte, novamente com senha (Eros), adentrei a plataforma para conhecer mais uma mulher incrível. Vamos chamá-la de Lana. Lana era romena! E ficou desapontada porque não nos encontraríamos ao vivo. Ela jurava que eu estaria na Romênia. Ela era tão adorável, não tenho outra palavra possível, que eu desejei estar na Romênia também. Ela havia comprado um cupom na sua coffee shop favorita para que eu pudesse experimentar cafés. Era o princípio do presente que nada tinha especificamente a ver com a bebida (que eu amo, aliás). Ela queria, na verdade, me dar tempo para ficar comigo mesma – muito significativo para ela. Lana tinha também um dos seus livros favoritos em mãos, About Presence (Carlos Labate), que também pretendia me entregar. Além de um poema impresso, que me mandou por e-mail. Masks, de Shel Silverstein, diz algo como “Ela tinha pele azul. E ele também. Ele a manteve escondida. E ela também. Eles procuraram por azul por toda a vida. Então, passaram um pelo outro, sem se notar, sem nunca saber.”

E você? O que daria para um desconhecido?

 

Natalia Albertoni é jornalista, meio camaleão. Cria, desenvolve e executa estratégias de relacionamento com a imprensa e de PR pra marcas, produtos e serviços

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