O futuro será imperfeito – e ele já começou

No primeiro texto da série HysteriaTrends, que vai esmiuçar o que vamos querer na próxima década, conheça os imperfeccionistas, que desconstroem regras e modelos de excelência, e entenda por que a tendência foi catalisada pela pandemia de Covid-19

30.04.2020  |  Por: Natália Albertoni

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O futuro será imperfeito – e ele já começou

No auge dos seus 7 anos Eva decidiu: quando eu for grande quero ser filmadora. É o que ela contou para o padrasto, o diretor Pedro Furtado. Acompanhando o trabalho dele e assistindo a youtubers, ela entendeu que poderia transformar suas fantasias em histórias, emprestar suas várias vozes para dublar personagens e, então, fazer filmes. A ideia começou a ser colocada em prática há duas semanas, enquanto os adultos da casa davam cambalhotas figurativas para distraí-la em meio ao tédio. Enquanto Pedro explicava o processo de criação de um roteiro ela se empolgou tanto que eles pegaram bonecas e a câmera na mesma hora e começaram a filmar. À tarde gravaram as vozes. Depois, Pedro assumiu a edição. Tudo ligeiro, pra ela não se distrair. Contos da Eva: Terror na Mata ficou pronto no mesmo dia e pode ser visto aqui . Foram tantos os comentários pedindo mais, que, nesta semana, eles lançam a terceira história. Com fundo infinito feito com tecido verde iluminado por abajur e as mãozinhas de Eva direcionando os brinquedos.

Ser perfeito está ficando brega. Numa sociedade ansiosa e esgotada mentalmente, é imperativo questionar padrões. Um relatório da consultoria de tendências WGSN  antecipou essa premissa em 2019 – só que em palavras mais bonitas. Você até deve ter notado. Porque esse caminho já vinha sendo assimilado em narrativas, seja no humor autocrítico, nos papos sincerões que povoam cada vez mais as redes sociais ou nos novos anti-heróis e anti-heroínas das telas, desengonçados e cheios de defeitos. Os modernos, como eu, os chamam de imperfeccionistas porque eles desconstroem as regras e os modelos de excelência. Fazem com medo mesmo ou vontade feroz. Arianos, pra quem simplifica a língua da astrologia. Esse novo perfil de consumidor já vinha estudando formatos. É possível que até dentro da sua casa. Ou pelo menos para mim foi uma surpresa quando a minha sobrinha deixou escapar que ela e seus amigos entre 16 e 17 anos tinham perfis escondidos dos pais com apelidos desconhecidos. Pra quê? Pra colocar só fotos feias de nós, ela respondeu. Claro que eu não pude ver. 

Com a pandemia, esse comportamento que pautaria a nova década, até por conta da geração que se encarrega dela, ganhou reforço. Muito porque soluções são necessárias para hoje, mesmo que não sejam ideais. Por isso você acha fofo quando a Sandy ou o Junior erram a letra no meio da live. Eles estão fazendo tudo de casa, só com os pais. Bem queridos. Você também reclama que a novela das 21h foi suspensa pela primeira vez na história deste país, mas entende e se acostuma ao noticiário. E também aos especialistas que dão entrevistas das respectivas casas com um espelho torto ao fundo ou uma roupa nada a ver. Assiste ao programa gravado, que era ao vivo e não pode mais ser. 

Você ainda será um deles, é inevitável. Seja por empatia, afinal, você se vê no lugar de todos os errantes. Ou pela oportunidade de realizar coisas que você nunca teve coragem. Seu vizinho pode estar fazendo ensaios remotos por webcam. Uma amiga pode ter inventado uma aula de pintura por zoom ou de leitura dramática, porque acha bonito ler como atores. Uma das principais revistas de moda do país, que vinha tentando fazer produções em vídeo chiquérrimas ($$$) à altura da sua reputação, lançou recentemente uma série muda no IGTV. É protagonizada por uma fashionista engraçada e maravilhosa exatamente por ser quem ela é de verdade. No último episódio a que eu assisti, a versão real da personagem anda pela casa enquanto se depara com a versão da expectativa dela mesma ao enfrentar as mesmas situações. No fim (spoiler), a versão real expulsa a expectativa e vence o dia de pijama. Ser perfeita não cabe mais no atual cenário. Nunca foi possível na verdade. Então, a gente tá entendendo que é melhor rir disso. Quem sabe até juntos. Aproveita.

 

Natalia Albertoni é jornalista, meio camaleão. Cria, desenvolve e executa estratégias de relacionamento com a imprensa e de PR pra marcas, produtos e serviços

 

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