O girl gaze é o novo mundo

Você já parou para pensar que grande parte das nossas imagens internas são símbolos criados a partir de um olhar masculino?

10.08.2021  |  Por: Mariana Caldas

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O girl gaze é o novo mundo

O “female gaze” é um termo que nasceu dentro da teoria do cinema, mas que vale para todos os aspectos imagéticos e simbólicos do mundo. O que acontece quando uma mulher conta uma história, cria uma imagem, desenha uma roupa, escreve um livro, dirige um filme? Para o time de críticos de cinema da BBC, “coisas diversas e maravilhosas”. 

Nos últimos anos o mercado conseguiu transformar as narrativas femininas em um tipo de produto, o olhar de uma mulher, de repente, se transformou no branded perfeito. “A gente quer contar essa história de um jeito sensível” é um clássico. Não tenho nada contra, afinal, a sensibilidade é sim um super poder. Mas um olhar feminino é só, sempre, e necessariamente um olhar sensível? 

Um olhar feminino, na verdade, é antes de tudo, uma possibilidade de representação da experiência feminina no mundo. Ele nasce da profundidade do ser mulher, que vem junto com muitos séculos de repressão e silenciamento. E inclui tudo o que pode existir dentro de uma pessoa. Suas dores, seus medos, seus amores, suas músicas, suas memórias, suas manias, sua história. São suas emoções em movimento.

Uma mulher quando descobre a sua voz muda o futuro porque todos os detalhes do mundo que a gente conhece foi imaginado por um homem. Em pleno 2021 a maior parte dos filmes ainda é dirigido pelos homens, a maior parte das capas de revistas femininas e feministas ainda é fotografada por um cara. A maior parte dos livros que a gente lê e das roupas que a gente veste também. 

Isso quer dizer que o padrão de beleza, o estereótipo, a cultura, e os símbolos, do que entendemos coletivamente sobre ser uma mulher, é uma construção social criada a partir de um olhar masculino, cisgênero e heteronormativo. A problemática do male gaze fica ainda mais complexa quando pensamos que na verdade não só as representações femininas, mas todas as representações do mundo foram de alguma forma criadas a partir de uma dinâmica totalmente patriarcal. 

E isso é muito profundo, porque nascer, crescer e viver em uma realidade onde tudo nos diz que ser mulher é um grande emaranhado de projeções e desejos masculinos, é uma receita perfeita para tirar o nosso poder. 

A contribuição das mulheres ganha ainda mais importância quando realizamos que ela representa a possibilidade de construção de uma nova perspectiva sobre a cultura, sobre os símbolos, sobre o corpo e sobre as relações. Quando uma mulher conta a sua história, as mulheres podem, enfim, ser vistas como elas realmente são. Inteiras. 

Mariana Caldas é diretora, fotógrafa e jornalista, seu trabalho autoral investiga e revela a natureza selvagem que vem de dentro.

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