O poder da empatia

A favela é um território de riquezas não vistas e essa compreensão pode ser a principal arma para interações mais humanas e a real transformação de conflitos

08.01.2019  |  Por: Diana Bonar

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O poder da empatia

Quando eu conto sobre o meu trabalho em locais afetados pelo crime e pela violência, é normal as pessoas reagirem me chamando de louca, de corajosa ou me olharem com admiração. Isso acontece porque muitas delas nunca entraram em uma favela, e o que habita o imaginário é apenas a violência e o sofrimento.

Desde 2010 trabalho no Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, com diferentes iniciativas. Também tive a oportunidade de viajar bastante pelo Brasil e conhecer várias comunidades com altos índices de violência. Essa exposição faz parte do meu cotidiano. Em uma caminhada para almoçar atravesso grupos armados com fuzis e pistolas. Não, não sinto medo deles! Meus medos são das balas perdidas e dos confrontos armados. E, principalmente, do helicóptero da polícia, que rasga os céus da favela com suas miras apontando para baixo.

Lembro bem que, durante a ocupação do exército na comunidade, o que eu via eram meninos de lados opostos, cada um com o seu fuzil em mãos e suas estratégias de guerra. Alguns usavam como uniforme roupas camufladas e capacetes; outros usavam chinelo de dedo, bermuda e boné. Oponentes de um conflito armado injusto, cujas raízes são ignoradas pelo poder público.

Não os chamo de bandidos, mas de “meninos”. É uma busca pela humanização dos aspectos mais difíceis de se imaginar. É justamente isso que permite trilhar o caminho de transformação na vida desses “meninos” e também de outros.

A favela é um território de riquezas não vistas. Aqui tem muito amor, talento, resiliência, luta, persistência e solidariedade. O contato com essa realidade me atravessa a alma, me ensina e me faz evoluir. O aprendizado não é teórico, é prático, sentido, real e desafiador. Todos os dias vejo crianças e jovens com tanta potência e criatividade.

Sempre gostei da ideia de ser ponte, de investigar realidades diferentes da minha, de ver o mundo por outras lentes. Por esse motivo, a vida me levou por recantos bem diferentes, como Trinidad e Tobago, Japão e Tailândia. Precisei treinar um olhar de não julgamento, guiar meus pensamentos por perguntas exploratórias e ficar atenta para não cair na armadilha dos estereótipos.

A única forma de impedir esse processo é trazer luz sobre esse assunto, conscientizar as pessoas sobre seus pensamentos e ações, e ensinar novas formas de interações mais humanas e empáticas

Todo dia preciso jogar luz sobre minhas ignorâncias e preconceitos para trazer legitimidade à minha fala. Já passei vergonha por falar sobre o que não sabia bem, já pedi desculpas por não ter enxergado a dor de outros, já fui mal interpretada e julgada. Também já me puseram em várias “caixas de estereótipos” da qual tive que me empenhar em sair. Já me envolvi em conflitos por falta de clareza referente aos hábitos culturais diferentes dos meus, e já sofri preconceito e assédio por ser mulher. Todas essas crises me ensinaram muito, vai ver é por isso que sou apaixonada pelo tema de transformação de conflitos.

Em 2017, passei uma temporada de cinco meses na Tailândia fazendo especialização em Resolução de Conflitos e Estudos da Paz. Durante as viagens de estudos de campo, vi as mais lindas paisagens que se possa imaginar: rochas emergindo de um mar verde translúcido, cachoeiras de água turquesa. Experimentei comidas coloridas, saborosas e apimentadas, meditei com os monges, visitei um vilarejo de pescadores muçulmanos que protestavam contra o governo. Tive também experiências difíceis. Parte do estudo foi baseado no genocídio do Kmer Vermelho, no Camboja. Visitamos o campo de extermínio onde mais de 1 milhão de pessoas foram mortas de formas absolutamente cruéis.

Durante uma aula de não-violência, a primeira pergunta que o professor especialista no tema fez foi: “Como se treina assassinos?” Tivemos que fazer um exercício para pensar em como construir um processo de desumanização. Isso me permitiu enxergar aquela atrocidade por um novo ângulo. Não menos sofrido, mas um novo ângulo.

Foi um aprendizado tão potente que resolvi incluir esse exercício em minhas aulas nas universidades e organizações em que atuo. É incômodo, mexe com um lugar da nossa sombra que não queremos ver.

O fato é que esse processo de desumanização aconteceu no Camboja, no Holocausto Nazista, na guerra civil de Ruanda… e continua acontecendo em muitos lugares, inclusive no Brasil. Quando ouvimos que as “sementinhas do mal” (retrato das crianças da favela) devem ser exterminadas, estamos sendo manipulados pelos primeiros passos que permitem um holocausto acontecer: a desumanização do outro e a construção da “figura do inimigo”.

Ao meu ver, a única forma de impedir esse processo é trazer luz sobre esse assunto, conscientizar as pessoas sobre seus pensamentos e ações, e ensinar novas formas de interações mais humanas e empáticas.

 

Diana Bonar é mediadora e especialista em Transformação de Conflitos, Comunicação Não Violenta e Estudos da Paz. Coordena a área de treinamento e conteúdo de uma organização internacional de prevenção de violência no Complexo da Maré e é fundadora da PeaceFlow

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