O que acontece quando uma mulher resolve ser careca

Na nossa sociedade cabelo é sinônimo de feminilidade e não raro ele se torna uma prisão para mulheres. Por isso, se libertar dele pode ser transformador

08.10.2019  |  Por: Mariana Brandão

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O que acontece quando uma mulher resolve ser careca

O cabelo, pra mim, sempre foi uma prisão. Tenho a impressão de que o fato de ter que fazer coque tão perfeito e esticado para o balé tenha sido um impeditivo de ser uma bailarina hoje, quem sabe. Um coque de bailarina, estilo a do Chico Buarque, dói demais, muita pressão para uma criança de 4 anos.

Uma situação literal, mas também pode ser lida como uma metáfora de uma vida inteira. Até o dia em que raspei meu cabelo.

Meu cabelo estava grande, uns 40 centímetros de leves ondas de loiro escuro-acinzentado, cultivado por anos na base de cortes para tirar volume, hidratação, progressiva, rabo de cavalo ou qualquer outra solução que pudesse de forma rápida facilitar minha vida no dia a dia. “Ser bonita dói mesmo, né?” “Mulher sofre. É tão mais fácil ser homem que raspa a cabeça e pronto.” Ouvi muito esse tipo de coisa quando reclamei do meu cabelo em salões.

A beleza da mulher ancorada no sofrimento é tão instituída que já virou piada.

A gente aceita e finge que tudo bem. E vamos da dor literal à dor metafórica de abdicar de um banho de cabeça no chuveiro, de um banho de mar, de suar sem medo, de sair na chuva. Tudo pra não estragar o cabelo.

Aceita a dor, aceita a privação, aceita o gasto e acredita no seu próprio discurso de que cabelo é o que te faz feminina e sensual.

Não consigo deixar de culpar quem instituiu que o bonequinho de palito que desenhávamos com cabelo longo era sempre a mulher. Mas temos culpa nós também de acreditar nisso e repassar até hoje.

Como pode uma mulher careca linda?

“Tomei um susto! Mas você é linda até careca.” Como pode uma mulher careca linda, não é mesmo? O elogio que recebi vem carregado de um peso. Nele estão a exigência de ser linda e a estranheza que alguém que faz diferente causa. E nos atentemos para o “até” que joga o careca num lugar do anti-feminino.

Depois de um ano, tudo é reflexão. Desde o elogio torto até o olhar de outra mulher careca na rua. A parceria de quem se conecta pela coragem de se despir para o mundo. Porque ser careca é um pouco como estar nua.

No dia em que raspei meu cabelo, me perguntaram se eu estava doente, doida ou qualquer outra coisa que a cara de espanto pudesse dizer em linguagem corporal. O que parecia uma falha na sanidade era talvez meu primeiro momento verdadeiramente sã, em que fiz minhas escolhas me baseando apenas no que eu queria. Naquele momento nasceu alguém que sempre esteve aqui dentro, mas andava coberta por uma camada de fios pesados que escondiam a força e a coragem que sempre tive e são bem resumidas na frase “Você ficou um mulherão!”. De um dia pro outro virei o que sempre fui.

Mariana Brandão é publicitária e gosta do pensamento utópico de que iniciativas privadas podem mudar o mundo, por isso ama elaborar projetos com propósito entre uma e outra estratégia de comunicação. No paralelo exercita um lado futurista estudando tecnologias e suas transformações sociais

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