O que está em jogo quando repensamos o feminino?

Ana Paula Xongani comenta estudo sobre a noções do que é 'ser mulher' hoje e como isso tem base na história que nos precede

04.10.2019  |  Por: Ana Paula Xongani

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O que está em jogo quando repensamos o feminino?

Estes dias fui convidada a participar de um podcast sobre “repensar o feminino”. Apresentado pela Ju Wallauer, do Mamilos, que admiro pacas, o episódio seria pras convidadas baterem um papo honesto sobre o estudo “A Transformação do Feminino”. O encontro foi produzido pelo GNT em parceria com a Plataforma Gente, da Globosat. E o estudo trouxe vários dados e reflexões que colocam em perspectiva as noções cristalizadas na sociedade do que é “ser mulher”.

Algumas coisas me chamaram a atenção imediatamente:

Recorte de raça
O estudo trouxe, logo em seus textos iniciais, apontamentos raciais e de classe importantes, que deixam evidente que mesmo a noção de “feminino” responde a privilégios de raça e classe. Quero dizer com isso que ele parte da compreensão de que padrões de feminilidade e mesmo o “ser mulher” são privilégios de mulheres não-racializadas (brancas) e de classes abastadas. Ponto de partida muito correto (e raro) que onde se questiona, por exemplo, se as mulheres negras e indígenas, têm direito às caixinhas de “sensibilidade”, “delicadeza”, “cuidado dos próprios filhos”, entre outras coisas. Outro exemplo é a consciência em relação a luta pelos direitos de trabalhar. Onde é preciso lembrar que mulheres negras e indígenas sempre estiveram trabalhando e que a partir do processo de colonização europeia, inclusive, de forma forçada, escravizada. Situação que até hoje mantém estas mulheres em lugares subalternos de trabalho e lhes reservando um questionamento de outros atributos, como a produção intelectual e criativa, por exemplo. Fiquei feliz em ver que o estudo partiu desse lugar.

É tudo muito recente
Gostei da demarcação de tempo. Acho muito importante a gente frisar que faz menos de 60 anos a mulher pôde trabalhar de forma remunerada sem a autorização do marido. Que foi há apenas 54 anos que o voto foi considerado uma obrigatoriedade para mulheres e homens. Antes, apenas eles participavam do jogo eleitoral. Estava lá também que foi só há cerca de 40 anos que nós mulheres adquirimos o direito de desfazer casamentos que não nos fossem mais saudáveis. Se você pensar na idade da maioria das pessoas que provavelmente estão lendo este texto, isso tudo aconteceu em uma geração anterior à nossa! Tipo, ontem.

A rede amplifica
Me chamou a atenção também o quanto a internet e a vida em rede, acelerou alguns processos de questionamento em relação às questões de gênero. Criou-se aí, a oportunidade de vozes de diferentes mulheres serem ouvidas, lidas e consideradas do debate político e social.

Dito isso, o estudo culmina numa conclusão que, para a concretude da minha vivência preta nesta sociedade, é um desafio interessante e gostoso de acessar: a noção de que “feminino” e “masculino” são energias que reverberam de forma co-existente nos corpos que habitamos. Tem toda essa energia em mim, em você, em todos nós – inclusive nos homens. E, para além dos corpos que habitamos, estas energias estão também presentes em elementos como terra, ar, noite, dia, água, fogo, lua e sol.

Isso acaba deixando tudo mais fluido, permitindo a gente – e aqui me coloco como mulher cisgênera – refletir e compreender outras expressões de gênero não normativas, como por exemplo a travesti ou as pessoas não-binárias. E como é bom viver num momento histórico em que tudo isso rega as reflexões, ainda que tenhamos um caminho gigante a percorrer no que diz respeito a garantir a humanidade e respeito ao que não é visto como natural pela sociedade.

Qualquer coisa que eu disser aqui pode acabar dando muito spoiler. E eu acho que seria importante que você, que está me lendo, conhecesse o estudo. Se quiser, pode também já ouvir sua versão comentada no podcast que mencionei. Ele vai linkado aqui embaixo pra facilitar, mas está no Spotify, B9 ou na própria Plataforma. Ju Wallauer, do Mamilos, Joa Clandestina, criadora de conteúdo de arte-educação, a socióloga Heloisa Pait e eu. Foi uma conversa importante, gostosinha e afetiva entre mulheres tão incríveis quanto diferentes.

Ana Paula Xongani é empresária de moda, apresentadora de TV e criadora de conteúdo.

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