Odeia mensagem de áudio? Então senta aqui

Uma ode à escuta: o frisson em torno do Clubhouse, uma rede social todinha pra ouvir, mostra que está mais do que na hora de se abrir para os novos tempos!

19.02.2021  |  Por: Lia Bock

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Odeia mensagem de áudio? Então senta aqui

Lá nos idos de 2019 era comum escutar as pessoas dizendo que detestavam mensagens de voz. Algumas até colocavam, fixada junto ao nome, a frase “não mande áudio“. Pois no mundo pós-Covid (pós no sentido de depois da chegada) esse tipo de comportamento datou. E isso é bom!

Para os que ainda resistem, venho dar um abraço e contar que quando os celulares se popularizaram no Brasil, eu mesma demorei demais para desapegar do meu pager. Aquele bip simpático que recebia mensagens de texto ditadas para a telefonista tinha sido meu parceiro por anos, e resisti em evoluir. Mas esse dia sempre chega.

Pra acolher quem torce o nariz, vale lembrar também que em 1998 o famoso jornalista David Letterman tinha a maior má vontade com a internet. Juro. Ele achava que era “uma coisa besta” e passageira. Nesta entrevista ele chega a dizer que a coisa mais interessante da web era a moça que fazia camgirl. Pois é.

Pois assim como o celular e a internet, as mensagens de áudio vieram pra ficar e quem ainda tá pensando se vai aderir, vale o aviso: a mais nova rede social queridinha do Vale do Silício e dos conectados afins é todinha por áudio! Sim, a Clubhouse já conquistou o mundo com suas “salas” de conversa ao vivo e por voz. Para resumir, a rede faz uma mistura dos famosos talks (mesas e palestras) com as lives. Com a diferença de que nada fica gravado e não há imagem, é tudo por voz. No feed você vê o que está rolando naquele momento e também o que está agendado para hoje. Clicou e já começa a escutar a palestrinha, conversa ou bate-boca dos participantes. Só consegue ser ouvido quem o anfitrião autoriza (por isso tem uma pegada de live de Instagram).

Isso mostra que não é só preguiça de digitar ou vontade de participar de uma live vestindo pijama: há reais vantagens na troca por voz. E é claro que eu não to falando de mensagem de oito minutos de cliente às onze da noite e nem mensagem do chefe no domingo.

Vamos começar pela parte boa?

No áudio a gente tem o tom de voz, a risada camuflada na frase, pausas dramáticas, o embargo da voz emocionada e todos os recursos que só a fala tem. E vejam, gente, eu sou jornalista e escritora, e meus colegas bem sabem que levamos vantagem no quesito texto, seja ele no zap, no Tinder ou no bilhetinho. Mas a voz é insubstituível quando estamos batendo papo com os amigos.

As mensagens de áudio são uma espécie de volta às raízes, só que com um pezinho no futuro

E se tem uma coisa boa que 2020 trouxe foi esse ensinamento de que a tecnologia pode, sim, trabalhar a nosso favor. As mensagens de voz entram nessa categoria. Quando percebemos que a pandemia não duraria 15 dias (e nem seis meses) muita gente se refastelou nas chamadas de vídeo. Depois de um tempo, percebemos que nem tudo precisava de imagem e que, às vezes, a boa e velha chamada telefônica dava conta. Pois as mensagens de voz são as primas mais próximas das ligações! Um jeito de se aproximar do outro na troca, e não só saber o que ele tem a dizer, mas também como ele vai dizer. E “como” é tudo nessa vida.

As mensagens de áudio são uma espécie de volta às raízes, só que com um pezinho no futuro. E é aí que entra a principal vantagem em relação à prima mais velha. Numa chamada você precisa que as duas pessoas estejam disponíveis ao mesmo tempo, enquanto no zap cada um escuta quando pode e responde quando estiver no clima.

Sei que Alexander Graham Bell acharia esse timing muito antiquado, mas, pra nós, que vivemos no mundo da instantaneidade, a liberdade de escutar quando puder e responder quando bem entender não tem preço!

Nos áudios a gente pode também soltar a criatividade e (pra usar um termo da moda) fazer de uma simples troca de mensagem uma verdadeira “experiência”. Eu adoro quando as pessoas cantam pra mim. Ou quando gravam uma música que eu amo e está tocando no rádio, entrecortando com lembranças de uma festa em que nos aglomeramos suados sob este som.

Para fofoquinha com história rocambolesca o áudio também é bem mais eficaz. Outro dia chorei de tanto rir com uma amiga descrevendo o processo de auto-depilação da virilha (coisa para poucas!). Fazia muito tempo que lágrimas de gargalhada não vertiam dos meus olhos. Isso jamais seria possível por mensagem de texto, e como temos um fuso horário de seis horas e seis filhos entre nós, achar brecha para uma chamada de vídeo ou telefone não é tarefa simples.

O áudio está conosco na alegria e na tristeza. Para separação, traição e confissões secretas ele também vai muito bem. Mas veja, isso não quer dizer (claro!) que tudo deve ser mensagem de áudio. E sempre vale o toque pra aquele amigo que manda “ok” em mensagem de voz. Não, querido, “ok” é sempre por extenso, assim como o começo de uma comunicação. Mandar áudio logo de cara para alguém que você acabou de conhecer não é bacana justamente porque nem todo mundo gosta e é preciso respeitar os limites alheios. O áudio tem uma pegada de intimidade, e é por isso que é tão especial.

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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