Ouçam as mulheres

Terceira mina mais influente do mundo da música, atrás apenas de Beyoncé e Taylor Swift, a inglesa Vanessa Reed fala sobre seu trabalho para ampliar a presença feminina no meio

21.11.2018  |  Por: Gaia Passarelli

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Ouçam as mulheres

“A música é uma das mais poderosas formas de comunicar e unir pessoas, usem para protestar, se façam ouvir, apresentem uma visão alternativa para o país.” A frase é um conselho da inglesa Vanessa Reed para as mulheres do mercado musical no Brasil.

Vanessa foi apontada pela Women’s Powerlist 2018 da BBC como uma das mulheres que têm mais impacto na música que ouvimos hoje, atrás apenas de (respira!) Beyoncé e Taylor Swift. “Fiquei muito surpresa e feliz de estar ao lado de mulheres que estão no controle de suas carreiras, mas o mais importante é que o interesse pela powerlist ajuda a conscientizar pessoas sobre o que estamos fazendo”, conta.

A nomeação se deve principalmente ao seu trabalho à frente da iniciativa Keychange, campanha internacional que encoraja alguns dos principais festivais de música do mundo a assinar o compromisso de, até 2022, garantir a paridade de 50:50 entre artistas homens e mulheres em suas escalações — alguns festivais brasileiros já fazem parte da campanha. Mas o envolvimento de Vanessa com o mundo da música não é de hoje: ela também é responsável pelo Women Make Music, da PRS Foundation, que desde 2011 direciona fundos para que mulheres do meio musical possam investir em desenvolvimento de carreira.
Essas frentes de trabalho pelo aumento da presença feminina na música são o motivo de Vanessa vir ao Brasil para participar da SIM, a Semana Internacional de Música de São Paulo, evento que há três anos adota o princípio da equidade de gêneros proposto pela Keychange. A SIM acontece no Centro Cultural São Paulo e outras 30 casas de shows entre os dias 5 e 9 de dezembro.

Na entrevista abaixo, concedida por e-mail, Vanessa explica sobre o trabalho da Women Make Music e fala das vitórias da iniciativa Keychange.

 

Como a PRS escolhe com que artistas, promotores e organizações vai trabalhar?

Todos os projetos são selecionados com a ajuda de profissionais da indústria musical independente. O foco é na qualidade musical, mas pensamos até onde as criadoras envolvidas vão se desenvolver artisticamente com o projeto e também consideramos a audiência que vão alcançar. Há outras iniciativas similares, como a canadense SOCAN e a espanhola SGAE, mas cada uma tem suas particularidades. O que faz da PRS Foundation algo único é que estamos trabalhando nisso há dez anos com mais de 50 parcerias que vão de braços governamentais a conselhos artísticos e o Spotify e outras empresas que compartilham nossa paixão por apoiar a diversidade na arte.

A iniciativa Women Make Music é uma resposta ao baixo percentual de mulheres escolhendo a música como carreira profissional. Como vocês medem os resultados alcançados?

Nós fundamos a Women Make Music em 2011 em resposta ao baixo percentual de compositoras registradas (cerca de 13% na época) e de aplicações de mulheres que recebíamos na PRS (16%). O fundo dá até £ 5.000 para compositoras e artistas musicais que precisem de ajuda para fazer shows, gravar, escrever, compor — qualquer coisa que vá ajudá-las a avançar em suas carreiras e a fazer música.

Nós encomendamos uma avaliação independente cerca de cinco anos após o lançamento que confirmou a importância que o fundo teve em atrair novas aplicações e o impacto positivo nas artistas beneficiadas. Além disso, indicou que 86% das mulheres buscando o fundo o tinham feito pela primeira vez, o que mostra o quanto mulheres tendem a se colocar atrás dos homens em competições. Também descobrimos que o fundo aumentou a confiança das mulheres apoiadas e as ajudaram a se desenvolver financeiramente e criativamente. Essa avaliação aconteceu alguns anos antes do #MeToo, mas também apontou que 79% das mulheres acreditavam que havia sexismo na indústria musical.

A iniciativa Keychange quer “dar poder para mulheres transformarem o futuro da música e encorajar festivais a alcançarem uma paridade de gênero de 50:50”. O que vocês alcançaram até agora e quais são os próximos passos?

Uma rede de 60 mulheres de seis países da Europa se encontraram duas vezes e tiveram a oportunidade de começar novas conexões e colaborações. As artistas têm se apresentado fora de seus países e muitas das profissionais da indústria têm falado em painéis sobre o tema. Ao mesmo tempo, a movimentação em torno da presença feminina em festivais aumentou dramaticamente, indo de sete festivais comprometidos com o 50:50 para mais de 130 assinando uma promessa nesse sentido. [Nota da repórter: no Brasil, além do SIM São Paulo, os festivais No Ar Coquetel Molotov, Rio Music Market e o Subtropikal aderiram à iniciativa]

Nós agora precisamos deixar passar algum tempo antes de começar a medir o impacto. Os festivais estão pensando em 2022 e nós estaremos monitorando o equilíbrio de gênero até lá. Espero que as artistas e profissionais da indústria que se beneficiaram possam trabalhar juntas, desenvolver novos projetos e usar essa experiência para ajudar a traçar os próximos passos de suas carreiras, mas isso é o futuro.

Por que a música é importante dentro do feminismo?

Porque música cria conexão. A música nos conta histórias, atravessa barreiras e nos conecta com um mundo além de nós. É por isso que é crucial que a música que nós escutamos venha de mais de uma perspectiva, venha de pessoas com todo tipo de história. E é crucial que as mulheres tenham espaço no palco dos festivais tanto quanto os homens: não faz sentido empurrar metade da população para o canto. Todos nós temos coisas importantes a dizer e um espaço diverso vai resultar em uma programação musical mais rica e interessante.

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

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