Parir um filho sem parto

Meu filho ou filha virá pelo telefone, e hoje experimento um amor profundo por alguém que ainda não conheço, mas já vive intensamente dentro de mim

18.12.2017  |  Por: Jaqueline Amaral

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Parir um filho sem parto

Ilustração: Kiki T.

Eu estou esperando um filho. Mas ele não está na minha barriga. Ele pode chegar em nove meses ou em três anos, pode ser um bebê ou uma criança desfraldada. Aquele famoso manual sobre “o que esperar quando você está esperando” não menciona nada que me ajude a lidar com a minha “gravidez”. Uma gravidez que não sustenta uma barriga.

Decidi adotar. Eu e meu marido estamos juntos há oito anos e, no meio do nosso namoro, quando ter filhos ainda não era assunto, descobrimos que ele não poderia gerar um. Foi um susto. Doeu nele e em mim. Mas passou. “Um dia a gente vê isso”, pensamos. Eis que esse dia chegou e, sabendo que não dava para aparecer grávida, fomos atrás da papelada e de toda a necessária burocracia para entrar na fila de adoção. Isso levou um ano. Um ano de muita ansiedade e dúvidas. Surtei pensando se deveria tentar uma inseminação artificial ou se deveria congelar meus óvulos, porque vai que um dia bate aquela vontade de ter um barrigão? Mas a ideia de tomar um monte de hormônio e me submeter a procedimentos que poderiam dar em nada me fez parar. Nem chegamos a tentar. Vamos adotar e está decidido.

Só que quando você entra no processo e se depara com questões complicadíssimas como “Você aceita um filho gerado por usuários de drogas? Alcoólatras? Vítimas de violência?” e por aí afora, a ficha começa a cair. Ser mãe ou pai por adoção faz você lidar com questões existenciais e sociais intensas. Uma série de dúvidas e dilemas éticos e morais invade sua cabeça. Dá vontade de marcar apenas um X na alternativa: só quero ter um filho (X). Mas ela não existe. Definir até onde nós iríamos e o que seríamos capazes de encarar foi nosso primeiro grande exercício como pai e mãe. Preencher essas questões é só parte de um processo exaustivo que começa a desconstruir qualquer romantismo. Aqueles papos tão comuns entre amigas que estão grávidas ou que já tiveram um bebê são tão distantes da minha “gravidez” que qualquer tentativa de comparação me irrita profundamente. E acredite, isso nada tem a ver com recalque da barriga. É só uma questão de falta de referências minhas e delas. Falta falar sobre isso. Falta ir além do parto natural ou cesárea, porque há muitas outras formas de parir.

E esse parir lento e ansioso que vem depois da conclusão do processo de habilitação te coloca numa estranha sensação de suspensão. Eu não sei quando meu filho vai chegar. Logo, não faço grandes planos. Não monto enxoval porque não sei qual vai ser a idade dele e se vamos comprar um berço ou uma caminha. Não planejo uma viagem de férias pro outro lado do mundo. E, embora esse total desconhecimento me dê um frio na barriga gigante, ele também me ajuda a não idealizar – algo difícil de fazer. O jeito é respirar fundo e assumir minha total falta de controle.

E quando penso nele, meu filho ou filha que chegará, e isso acontece com frequência, inevitavelmente imagino se vai ter olhos grandes ou pequenos, se vai ser preto ou branco, se vai ter questões emocionais complicadas (quem não tem?) ou traumas dolorosos. Nada disso faz diferença pra mim. Desejo essa criança com todas as minhas forças e experimento um amor profundo por alguém que hoje, agora, neste momento, nem sei se já está ou não neste mundo, mas que já vive intensamente dentro de mim.

 

Jaqueline Amaral tem 35 anos, é bisneta de índia e tem uma numerosa família de primos-irmãos. Trabalhou durante anos como jornalista e agora dá expediente na publicidade. Hoje, espera o primeiro filho na fila de adoção

1 Comentários

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Uma resposta para “Parir um filho sem parto”

  1. Rubia disse:

    Chorei lendo esse maravilhoso texto, é realmente isso que eu sinto nessa espera, fico imaginando como ele ou ela será, rezo para que Deus cuide e o proteja enquanto não nos encontramos!!!

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