Pirei na Copa | Mata-mata

Sobre pés frios, pés quentes e o trauma de ter o apartamento marcado pela derrota da Seleção no mundial

10.07.2018  |  Por: Luisa Mascarenhas

image
Pirei na Copa | Mata-mata

— Eu falei, não falei? Eu disse. Não era pra fazer o jogo aqui. Esse jogo era tenso, não dava pra arriscar.

— Tinha que ser em algum lugar, ué.

— Em algum lugar, Felipe. Não aqui. Você viu o que aconteceu com o Paulinho. Desde o 7X1 que ninguém mais vai pra casa dele. Observa. Antes ele era o anfitrião oficial do grupo, mas acabou marcado pela derrota. Ele e o apartamento.

— Que exagero, amor.

— Pergunta pra qualquer um do grupo. Pergunta se estão a fim de fazer um esquenta lá, uma festinha, um jantar, qualquer coisa. Jogo então, ninguém vai nem pra amistoso.

— Jogo eu concordo. Ficou mesmo esquisito assistir lá. Mas o resto é coincidência. Ele que não deve andar com vontade de marcar nada.

— Claro! Tá traumatizado. Você tem noção do que é ficar de pé frio do grupo?

— Ele não foi pé frio. O apartamento talvez.

— Contamina tudo, Felipe. E agora é isso que vai acontecer com a gente!

— Peralá! Dessa vez não foi 7X1. É bem diferente.

— Veremos… Lembrando que o 7X1 foi na semifinal. Dessa vez a gente perdeu nas quartas. Puxado, hein.

— É, mas mesmo assim, acho diferente.

— Você não quer é admitir que eu estava certa, isso sim. Eu avisei, falei mil vezes… “Mata-mata é muito arriscado, não dá para ser aqui em casa.” E você com esse seu otimismo descabido cismando que o jogo era barbada. “3X0 Brasil, fato.” Aham. Eu sempre achei essa sua positividade fora de lugar. Toda vez que você diz que vai dar tudo certo, dá problema. Esse jogo confirmou o que eu já sabia.

— Se sabia então não precisava confirmar…

— Não me irrita, Felipe! Por hoje já deu, tá? Como se não bastasse ter marcado o jogo aqui, você ainda contribuiu fortemente pra essa derrota quando me impediu de segurar o Breno na sala.

— Ele estava apertado, quase molhando as calças, Samantha! Eu ia proibir de ir ao banheiro?

— Claro! Ele é o pé quente do grupo, caramba! Você viu que foi ele levantar pra gente tomar gol. Tudo isso porque você é teimoso que nem uma mula. Podia ter insistido para ele ficar, trazido uma garrafinha plástica para ele. A galera virava de lado, em um minuto estava todo resolvido. Mas não, você preferiu arriscar a Copa, a nossa casa, a nossa reputação!

— Eu vou dar um jeito nisso, amor. Fica tranquila.

— Eu tô tranquila, Felipe. Sabe por quê?

— Porque daqui a uns dias ninguém mais vai se lembrar disso.

— Não. Tô tranquila porque esse apartamento é seu e eu vou embora amanhã mesmo! Só não saio hoje porque bebi demais, não tenho condições de ir pra lugar algum. Mas de amanhã não passa.

— Como assim, vai embora? Você vai sair de casa, se separar de mim, só porque a gente perdeu a Copa?!

— Pra começar, não é pouca coisa… Mas eu não vou me separar de você porque a gente perdeu a Copa. Eu vou me separar porque VOCÊ fez a gente perder a Copa. E fez a gente perder a Copa assistindo com a galera toda aqui! Tudo por causa dessa mania de achar que tudo vai dar certo. Nem sempre as coisas dão certo, Felipe. Nem sempre dá para deixar seu amigo ir ao banheiro durante o jogo. A vida é feita de escolhas e de sacrifícios.

— Que drama, Samantha! Só pode ser a bebida… Em sã consciência você jamais iria querer largar tudo e sair de casa, sem rumo, por uma bobagem dessas.

— E quem disse que tô sem rumo?

— Você vai pra onde? Me conta. Nem família aqui você tem.

— Eu vou pra casa do Maurício. Aquele meu ex-namorado das antigas. Já te disse que ele nunca me esqueceu completamente. Que volta e meia ele me manda um “oi sumida”. Hoje fui eu que mandei e pedi pra ficar lá. Ele adorou, claro.

— Tá doida? Vai me largar pra ficar com aquele mala, sem graça?  Você tá cansada de dizer que tem eca só de ler as mensagens dele.

— E daí? Ainda não sei se vou voltar com ele ou não, mas vou pra casa dele ver no que dá. Ele é chato e insosso, sim, mas tem qualidades que eu acho que não dei o devido valor.

— Quais, Samantha? Me diz. Porque pelo que você falou você deu um pé na bunda dele porque não aturava o sujeito nem mais um minuto.

— É. Mas ele estava comigo em 94 e em 2002. Ganhei duas Copas com o Maurício. Duas! Enquanto que, com você, foi o inesquecível 7X1 e esse Brasil e Bélgica nas quartas de final. Acho que ele me dava sorte.

— Ele te deu tanta sorte que você me encontrou…

— Você se acha, né? Não vem me agarrar não, sai pra lá. E tira esse pé gelado daqui.

— Tá bom. Vamos dormir. Amanhã você vai acordar sóbria e rir das besteiras que disse hoje. Vai ficar tudo ótimo, quer apostar?

— Se você continuar com esse otimismo irritante sou capaz de ir embora agora mesmo, Felipe! Não tô podendo com tanta positividade! A gente perdeu a Copa hoje, esqueceu? Dá para ficar menos confiante na vida só um pouquinho?

— Não é otimismo, amor. Eu sei o que tô falando. Vai dar tudo certo, confia em mim.

— Sei… É barbada, então?

0 Comentários

Comentar

Deixe uma resposta