Por mais mulheres na política

Websérie documental expõe em cinco episódios a importância e os desafios de uma maior representatividade feminina na administração do país

28.09.2018  |  Por: Maria de la Gala

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Por mais mulheres na política

Em março deste ano, a Cinelândia, localizada no Centro do Rio de Janeiro, era ocupada por milhares de pessoas que protestavam contra a morte da vereadora Marielle Franco. Seis meses depois, ainda sem respostas e às vésperas do grande ato contra uma ameaça de retrocesso nos avanços das mulheres que ocorre neste sábado em todo o Brasil – e que no Rio ocorreu no mesmo local –, me encontro ali com Barbara Barcia, Claudia Alves e Fernanda Prestes, três jornalistas cariocas que compartilham os mesmos princípios e indignação em relação à nossa atual realidade representativa.

Há quatro meses as três se questionaram o porquê de o Brasil ser um dos países com mais baixa representatividade feminina no âmbito político, e o tema ser insuficientemente abordado na mídia. A partir disso, iniciaram o projeto audiovisual Mulheres e Política, sobre a importância de um debate político mais inclusivo e menos desigual.

Dividida em cinco episódios, a websérie traça um panorama histórico das mulheres no poder; fala sobre as principais pautas do gênero; expõe a realidade de mulheres que já ocupam cargos políticos; exibe a importância dos movimentos que promovem uma maior participação feminina na política; e mostra possíveis caminhos para uma real mudança. “A gente não quer falar sobre campanha ou projeto eleitoral, a gente quer falar sobre mulheres na política. O que essa mulher sofre? Quais são suas dificuldades?”, afirma Bárbara.

A produção começou de maneira totalmente independente, mas conforme foram acontecendo as entrevistas várias oportunidades surgiram, o que fez um projeto embrionário crescer além do esperado. “Todas as personagens viram a importância do projeto e foram abrindo portas, articulando para termos mais material. Eu acho que só a partir disso que conseguimos fazer uma série de cinco episódios”, relata Claudia.

A série explora todo o sistema político atual, intercalando dados e considerações de diferentes personagens – pesquisadoras, candidatas, deputadas, vereadoras e advogadas, entre outras. Entre as entrevistadas estão a economista Hildete Pereira de Melo, a vereadora Veronica Costa (MDB) e Erika Malunguinho (PSOL), mulher trans que está concorrendo a deputada estadual por São Paulo. “Estamos lutando não é pela individualidade. Estamos lutando pelo bem estar de todos”, afirma Erika em um dos episódios.

As jornalistas cariocas Barbara Barcia, Claudia Alves e Fernanda Prestes. Foto: Maria de la Gala

À medida que o projeto foi crescendo, ficou clara a necessidade de se fazer um financiamento coletivo. Graças ao crowdfunding lançado pela plataforma Benfeitoria, o projeto ultrapassou a meta e abriu espaço para parcerias como a da banda Francisco El Hombre, que cedeu a música Triste, Louca ou Má como trilha sonora. A poucos dias do lançamento – o primeiro episódio será publicado na segunda-feira 1 de outubro pela revista online AzMina –, as três desabafam: “Achávamos que não iria dar certo.” Além da pressão emocional e do prazo curto, o maior obstáculo das jornalistas foi mergulhar de cabeça na esfera política do país.

Em todos os episódios fica notável como a administração do país é machista e patriarcal. Muitos partidos políticos, para cumprirem a regra dos 30% de candidaturas femininas,  preferem cometer fraude eleitoral e registrar “candidatas-laranjas” a dar espaço para as mulheres crescerem politicamente, sem contar que apenas em maio deste ano foi possível um significante aumento monetário para campanhas femininas – nestas eleições, cerca de R$ 1,7 bilhão do Fundo Eleitoral foi distribuído aos 35 partidos políticos. Deste valor, por decisão do TSE e do Supremo Tribunal Federal (STF), 30% devem ser destinados à candidatura de mulheres. “Eu sempre tive dificuldade em meu partido, 99,9% do espaço da televisão sempre eles colocam os homens… Você tem que ser uma sobrevivente”, declara a vereadora Verônica Costa, na entrada da Alerj, na série.

Na quinta-feira dia 4, a Biblioteca Parque Marielle Franco, localizada em Manguinhos (Av. Dom Hélder Câmara, 1.184), vai exibir quatro episódios seguidos de um debate. O evento começará às 16h. Já na sexta dia 5 o mesmo programa acontecerá na sede da Perestroika (Rua Martins Ferreira, 12, Botafogo) às 19h. Como o quinto episódio será uma análise das eleições, a data de lançamento está em aberto.

Maria de la Gala é fotógrafa, jornalista, videomaker e artista full time

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