Por que 2020 é o ano em que nós, mulheres, sentimos ainda mais

Pesquisa realizada com 1.390 pessoas de todas as regiões do Brasil revela como a pandemia afeta o nosso estado emocional

26.08.2020  |  Por: Carla Mayumi

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Por que 2020 é o ano em que nós, mulheres, sentimos ainda mais

A vida em 2020, que tem mantido o fio da cautela e do cuidado tensionado há tantos meses, faz com que nós, mulheres, nos preocupemos em um nível muito maior do que os homens. Se durante essa pandemia você teve falta de sono, sensação de vazio e solidão ou crises de ansiedade, saiba que metade das mulheres sentiram estes sintomas. E não sou eu que estou falando. Somos todas nós.

Explico. Lidero um estúdio de pesquisa de comportamento chamado Talk Inc e acabamos de lançar o estudo Zeitgeist da Pandemia, que busca entender o que os brasileiros e brasileiras estão sentindo depois de mais de 150 dias de isolamento. A pesquisa foi realizada com 1.390 pessoas de todas as regiões do Brasil, de todas as classes sociais e com idades que vão de 18 a mais de 65 anos.

Se você não concorda com a flexibilização do isolamento social, você pensa como dois terços das mulheres. E se você não se sente preparada para sair de casa e fazer as atividades que fazia antes da pandemia, saiba que faz parte de um grupo de 75% das mulheres. Não está tudo bem mesmo. Uma de nossas entrevistadas até desmaiou no supermercado.

Somos mães, filhas, esposas, avós. Cuidamos dos outros, independente da nossa cor, crença ou classe social. E por mais que, há tempos, busquemos ressignificar esse estereótipo, perseguindo a ideia de que também queremos ser cuidadas (sendo auto-suficientes, claro), esse comportamento está aqui, no nosso jeito de lidar com as pessoas, principalmente aquelas próximas da gente.

É tão natural e são pessoas queridas… como não cuidar? Esta aqui também o peso enorme que carregamos. Está na dor nos ombros, nas respostas que damos (“deixa que eu resolvo”) e no pensamento diário (“faço isso melhor que ele”) que sobrecarrega o corpo e a mente. O que há de se dizer desse peso em 2020.

Alguns analistas comparam o que estamos vivendo a uma guerra. Talvez isso se deva ao fato de que, até agora, apenas as grandes guerras afetaram tantos aspectos da vida de todos ao mesmo tempo. A lista de fatores que leva a um stress generalizado passa pela incerteza com relação ao futuro, ao trabalho, à saúde e à política – a base do que está na nossa pirâmide de necessidades (sim, a famosa de pirâmide de Maslow).

Quando perguntamos às pessoas quanto alguns fatores estavam influenciando o estado emocional delas descobrimos: 

 

Os dados mostram como a situação da mulher é frágil neste momento. Nós somos as primeiras a ficar sem emprego. Durante uma pandemia é importante lembrar que as profissionais do cuidado são, na maior parte, mulheres. No setor da saúde, por exemplo, a participação das mulheres chega a quase 70%. Isso sem falar na jornada dupla, tripla e a tristeza da intensificação da violência doméstica. Cada um desses assuntos são causas e pautas a serem investigadas com lupa e debatidas incansavelmente até deixarem de ser um problema da mulher para se tornarem um problema da sociedade.

Conversando com amigas, percebemos juntas que algumas mulheres gostam de ser ver nesse papel da cuidadora, outras tantas não. Sem entrar na profundidade dessa questão, a reflexão final que deixo aqui é: como cuidamos das cuidadoras? Sei que muitas estão usando esse tempo para o autoconhecimento. Faço pesquisa há mais de 15 anos e nunca deixei de fazer campo, o que significa entrevistar e moderar grupos de discussão. Posso afirmar, sem medo, no acúmulo das centenas de entrevistados e mais de uma centena de projetos, que, nos últimos anos, a consciência sobre a importância do autoconhecimento só cresceu e continua crescendo. As novas práticas e hábitos estão mudando. E a pandemia só intensificou essa necessidade. Quanto mais tempo temos para refletir sobre nossa condição, mais nos damos conta de que o futuro somos nós que desenhamos.

Carla Mayumi trabalha com pesquisa de comportamento e cria projetos de inovação para grandes empresas. Sócia da Talk Inc, ela também é co-autora do livro Volta ao Mundo em 13 Escolas, sobre educação. Gosta de fazer tricô, de ler e tem dois filhos, um gamer e uma TikToker

 

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