#porramaridos: empatia ou rancor?

Especialista em Comunicação Não Violenta escreve sobre a hashtag do momento: 'Os privilégios são invisíveis a quem é privilegiado, enxergá-los é um desafio e exige, claro, que sejam expostos'

02.08.2018  |  Por: Carolina Nalon

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#porramaridos: empatia ou rancor?

Beatriz perroni | Piscina

Esses dias uma mulher me perguntou em um post no Facebook qual a minha opinião sobre a #porramaridos sob o olhar da Comunicação Não Violenta – conhecida como CNV. E vejam, a premissa básica desse tipo de abordagem é a empatia para se ter melhores relações. Ou seja, é pertinente no caso da comunicação conjugal.

Pra quem desembarcou agora na hashtag, a #porramaridos, é uma manifestação das mulheres em relação à divisão das tarefas domésticas e da pouca (ou nenhuma) participação dos pais na gravidez, no parto e na criação dos filhos. Não faltaram relatos. Selecionei alguns deles:

E é claro, os homens começaram a responder:

Virou a guerra dos sexos na internet – e o que não vira guerra no mundo virtual, não é mesmo? Aquele eterno confronto entre supostos culpados e inocentes: “Eu só sou assim porque você é assado”, “Homens são isso, mulheres são aquilo”. Até que alguém reclama da falta de empatia. Mas fica a pergunta: quem é que deveria ter empatia por quem? Aqui entra a CNV.

O propósito da Comunicação Não Violenta é justamente conseguir gerar uma conexão humana de qualidade. Um jeito de interagir em que a gente consiga sair do jogo dos culpados e inocentes para entender que homens e mulheres podem estar juntos nessa jornada. A base da CNV é responder com empatia a aproximações violentas. Ou seja, ela é uma interferência empática num jogo que está ou já começou fora do tom. Sabe aquele “A pessoa gritou e me tirou do sério”? A CNV entra na parte do “me tirou do sério”, já que o “gritou” é a premissa dada.

Mas, no caso da hashtag e das queixas femininas, para que essa conversa seja justa, e para que não caiamos em um discurso raso de que “as mulheres estão agressivas demais” ou que estão “declarando guerra aos homens” e para que, de fato, seja possível o surgimento de empatia de ambos os lados, precisamos de algumas compreensões básicas sobre a dinâmica social envolvida. Os homens precisam, por exemplo, entender que estão em uma posição de privilégio em relação às mulheres. Homens e mulheres devem ter claro o quanto o machismo afeta ambos. E é necessário que o feminismo seja compreendido como uma luta contra o machismo e não contra os homens.

Eu não disse que seria uma tarefa simples. Mas a busca por esclarecer esses pontos é essencial. Boa parte da desconstrução do machismo passa pela compreensão profunda de cada um desses tópicos.

E é interessante ver que quando conversamos com homens que têm o entendimento desses fatores, vemos que a reação deles ao ler os relatos da #porramaridos é de espanto e também de alerta: “Não posso ser mole desse jeito.” Ou seja, existe a possibilidade de uma compreensão de fato.

Por outro lado, a notícia ruim é que enquanto a maioria dos homens não se dispuser a entender a construção histórica e cultural dos papéis sociais de gênero e de como o machismo influencia esses papéis, vamos continuar brigando. E comentários do tipo “Não faço porque você reclama quando é do meu jeito” só vão reforçar a guerra dos sexos.

A empatia só pode ser justa e verdadeira quando existe um conhecimento profundo de como os privilégios operam na nossa sociedade

O que precisamos ver é a mulher ser empática quando o homem faz do jeito dele – sim, pode ser diferente, e nem por isso será ruim. E o homem ser empático quando a mulher se queixar desse jeito diferente – são séculos de construção histórica que nos colocaram nesse papel. Sair dele também exige esforço.

Mas verdade seja dita, muitas mulheres estão cansadas de explicar e re-explicar esses pontos aos homens sem que eles os compreendam. Por isso digo que consigo compreender a falta de paciência. Usar a CNV não significa estar imune a agressões e nunca perder a cabeça com elas.

Por outro lado, cada vez que um homem diz que as mulheres “nunca relaxam” e as acusa de serem “controladoras” da rotina da casa, precisamos aprofundar a questão. Será que elas gostam de assumir essas responsabilidades? Será que escolheram isso ou apenas seguem o que lhes foi imposto e ensinado?

E, hoje, não podemos subestimar a estafa de ser a única pessoa a gerenciar todos os afazeres domésticos (e muitas vezes também as tarefas de um trabalho que se tem fora de casa). Chamamos isso de “carga mental”. Se você nunca ouviu falar sobre esse termo, a quadrinista francesa Emma desenhou ele pra nós. Publicado originalmente em francês e traduzido para o português pela equipe do Bandeira Negra, o Era Só Pedir mostra alguns momentos em uma casa que poderia ser de qualquer um de nós. Fala de um modo de agir comum e que foi passado de geração para geração.

Por isso digo: a empatia só pode ser justa e verdadeira quando existe um conhecimento profundo de como os privilégios operam na nossa sociedade. E isso vale para classe, cor, gênero ou qualquer outro divisor social. E daí vem o ponto central: os privilégios são invisíveis a quem é privilegiado, enxergá-los é um desafio e exige, claro, que sejam expostos. Nesse sentido, a #porramaridos pode ser um belíssimo caminho, mas jamais será o fim da jornada. Já que quem usufrui desses privilégios precisa estar aberto para vê-los.

 

Carolina Nalon é coach especialista em Comunicação Não Violenta e oferece um minicurso gratuito de CNV no site Caminho da Comunicação

5 Comentários

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5 respostas para “#porramaridos: empatia ou rancor?”

  1. Marcia Cristina Sisi disse:

    Perfeito!

  2. Prem Agni disse:

    Muito bom!Estamos no tempo de uerras e achar que tudo é mimimi, devemos ir além disso e fazer mudanças para que tenhamos de fato avanço enquanto seres Humanos.
    Parabéns as mulheres por encabeçar esta (r)evolução. Mesmo com muita raiva, o que é compreensível, estão fazedo acontecer. E cabe a nós homens assim como em casa não estar lá para ajudar, se precisar, mas sim fazer a nossa parte.

  3. Márcia Wolff Pauluk disse:

    Excelente reflexão! Adorei

  4. Eliane Santana disse:

    Muito bom, Carol. Já acompanho a CNV há um tempo e, a ideia de transformar comunicação de ruídos em compreensão humana é sensacional. Um pouco disso e, certamente, nossos relacionamentos já serão contemplados com mais harmonia e beleza. Já sobre a questão sócio-histórica, creio eu que ainda será um caminhada longa, pedregosa, mas necessária para toda a sociedade.

  5. Paula Sancier disse:

    Eu achei que usar a palavra “rancor” no título reforça (mesmo antecedida de “ou”) esse estereótipo da mulher rancorosa que só reclama. O título não deveria colocar em dúvida, já que, como a matéria explica, não é o caso, não se trata de rancor.

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