Pra moda ser consciente é preciso envolver a indústria

Falar de sustentabilidade dentro de um setor sabidamente nocivo ao meio ambiente é espinhoso, mas necessário. Hoje sabemos que construir pontes é essencial para disseminar conceitos

16.12.2019  |  Por: Camilla Marinho

image
Pra moda ser consciente é preciso envolver a indústria

Muita gente ainda pensa na moda como aquela coisa fútil a que recorremos quando queremos nos alienar. Por isso, trabalhar com consciência dentro desse mercado é tão desafiador. E se de um lado existe esse olhar com viés desimportante, do outro há um certo preconceito com a dita incompatibilidade de falar de sustentabilidade dentro de um setor sabidamente nocivo ao meio ambiente. Digo isso pra mostrar que o trabalho com moda sustentável não é uma tarefa simples.

Gosto muito de falar sobre a parceria com grandes corporações. Entendo que num primeiro momento pode parecer contraditório, mas hoje sabemos que construir pontes é essencial para disseminar conceitos. Só vamos conseguir mudar de verdade se as grandes responsáveis pelo desequilíbrio do setor entenderem que precisam estar do nosso lado.

É por isso que, hoje, falar de sustentabilidade na moda implica trabalhar em diversas frentes. Desde promover o reuso de peças, incentivar a compra de roupas de segunda mão e o aluguel, até estimular o uso de tecidos que estão parados em estoque. Cada parte do ecossistema da moda tem a sua parte e suas possibilidades de mudanças.

O D.A.M.N. Project iniciou sua trajetória como um bazar/brechó itinerante, onde o objetivo era dar um novo ciclo de vida a peças que estavam em desuso no armário de amigas, fashionistas, modelos e atrizes. Era uma brincadeira despretensiosa, mas logo ganhou corpo e passamos a trabalhar de forma muito comprometida, movimentando uma nova forma de consumo. Nossa proposta é que os diferentes grupos sociais, o meio ambiente e o setor têxtil – que movimenta bilhões na economia – possam coexistir.

Tem sido um desafio e tanto.

A moda é o segundo setor que mais explora pessoas no mundo e uma das maiores responsáveis pelos impactos ambientais do planeta. Estar dentro dela remando na outra direção muitas vezes é ingrato. Mas a clareza sobre a importância de agir em várias frentes dá a energia para seguir no barco.

Muito se fala em direcionar o nosso dinheiro para marcas que estão comprometidas com a eco-eficiência, e isso de fato é importante. É a parte que cabe ao consumidor. Mas está longe de ser a solução de todos os problemas do setor. Além disso, vivemos em um país onde a maioria não dispõem de recursos financeiros para consumir este cenário. Neste sentido, ter grandes marcas aderindo ao movimento é muito positivo.

É importante nos atentarmos ao reuso da matéria-prima

Parte da minha luta é para derrubar essas barreiras e descentralizar a sustentabilidade. No nosso trabalho, acreditamos que o desafio tem de ser encarado não pelo monopólio estatal, nem pela abolição dos mercados, mas, sim, por uma nova economia descentralizada na qual pequenas iniciativas desempenham um papel de democratização.

Explico: o mundo precisa urgentemente de uma estrutura econômica que leve em conta a finitude de nossos recursos e, ao mesmo tempo, estimule a criatividade no sentido de obter bens e serviços apoiados no uso cada vez mais inteligente e parcimonioso de matéria. No caso da moda especificamente é importante nos atentarmos ao reuso da matéria-prima. Essa é a transição pela qual o setor precisa passar.

Uma peça chave para que tudo isso funcione é uma gestão de resíduos que funcione bem. Veja, a palavra não é descartar e sim encaminhar. Porque descartar é colocar um fim e a ideia é que o fim só chegue quando não sobrar mais nada. Por isso, encaminhar os resíduos de forma correta e planejar qual o melhor uso para cada um deles aumenta a possibilidades da reutilização.

Na gringa vemos algumas iniciativas bacanas e inspiradoras. Uma dela destaco com muitas exclamações: as ruas abarrotadas de brechós para todo tipo de bolso, corpo e gosto. Isso diz muito sobre “acesso”, tanto no sentido de ser fácil de encontrar, até ser viável de comprar e, claro, ser diverso, para que atenda a maior gama de pessoas possíveis. Essas ruas enchem nossos olhos e nos sopra no ouvido que estamos indo no caminho certo.

Mas esse é apenas um exemplo prático. A ruptura do sistema atual é necessária e para que algo novo nasça é preciso encarar o processo, que nem sempre é simples. E se o processo em si não tiver cauda longa e usar as ferramentas da maneira correta, vamos perceber que o desenvolvimento sustentável não é (vejam só) sustentável – no sentido de se alimentar e se manter. É por isso que é tão importante trabalhar todas as etapas dessa cadeia, de peito aberto, com consciência, sem preconceito e com muitos argumentos e estratégias de baixo do braço.

 

Camilla Marinho é empreendedora, consultora de moda sustentável e idealizadora do D.A.M.N Project, que movimenta uma nova forma de consumo

 

0 Comentários

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *