Precisamos falar sobre C* peludo

Durante a pandemia algumas pessoas aproveitaram para ressignificar os pelos. Outras não. E cá entre nós, tudo dá pra fazer: menos o c*.

05.07.2021  |  Por: Lia Bock

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Precisamos falar sobre C* peludo

A pandemia afastou todo mundo da depilação, tanto das clínicas especializadas como da velha e boa cera caseira. Ninguém ia sair de casa mesmo, as praias estavam fechadas, home office e/ou homeschooling bombando, crianças dando o triplo do trabalho e, claro, coisas mais importantes com o que se preocupar permitiram que os pelos fossem voltando, ocupando lugares que há anos viviam lisinhos. Buço, axila, virilha e pernas passaram meses sendo analisados na intimidade. Muita gente não lembrava nem como era ter pelos em profusão em algumas partes. 

Foi bacana observar nosso corpo mais natural e algumas pessoas aproveitaram a deixa para ressignificar os pelos. Outras não: arregalaram os olhos e correram para arrancá-los da maneira mais prática possível. E tudo dá pra fazer, menos o cu. Gente, vamos combinar: depilar o fiofó sozinha é uma mistura de ginástica olímpica com a brincadeira de colocar a rabo no burro, já que não dá pra ver o que você ta fazendo. 

E daí vem a pergunta: precisa mesmo depilar o cu? Em qual ponto da história ficou sacramentado que este ofício originalmente peludo deveria viver lissinho? Deve ter sido no mesmo ano em que os pornôs machistas que tratam a mulher como um objeto invadiram a internet. 

Vai ter gente que vai dizer, mas é muito mais gostoso lamber um cu lisinho. Verdade verdadeiríssima, mas quantas vezes vocês lambem cu ou têm o cu lambido? Será que ele precisa estar sempre depilado? Podemos optar por aquele tipo de depilação recreativa, pra fazer uma graça de vez em quando, e segue o baile. 

Pra quem não sabe, depilar o cu não doi (buço e virilha é que matam), então, não é essa questão. Mas abrir a bunda pra uma pessoa estranha tacar cera é uma coisa muito esquisita, um excesso de intimidade, eu diria. Fora o preço, sim, porque tem que ser caro mesmo mergulhar no cu dos outros, né? E pra aquelxs que fizeram depilação anal a laser, parabéns, vocês devem ganhar bem pra caramba! 

Mas Lia, vai depilar a virilha e deixar o cu peludo? Uai, porque não? Aliás, que tal experimentar deixar a virilha peludinha também por um meses pra ver no que dá? Essa ditadura da depilação é um mal brasileiro a ser combatido. Nojinho de pelo, aflição de pelo, sensação de estar suja, tudo isso é construção social. Teve uma época (e ainda há lugares do mundo onde é assim) em que pelos saindo pra fora do biquíni era normal. 

A gente se acostumou com a devastação corporal num tanto que esqueceu que os pelos são da nossa natureza e tem funções no corpo. Não vou entrar na parte média, mas trago um exemplo empírico: sabe quando as possuidoras de xoxota começaram a molhar a tampa da privada na balada? Quando passaram a fazer depilação completa! Os pelos sempre ajudaram a direcionar o jato pra baixo no famoso xixi-sem-sentar – sem eles, o mijo sai trôpego molhando tudo que está num raio de 50 centímetros, incluindo a tampa do vaso, a roupa e as coxas. Isso sim é nojento.

Então meditem aí sobre este hábito criado no seio da sociedade brasileira e antes de abrir seu fiofó pra depiladora ou fazer a ginástica caseira se pergunte: por que mesmo estou fazendo isso?

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

1 Comentários

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Uma resposta para “Precisamos falar sobre C* peludo”

  1. Karla Sousa disse:

    Reflexões que concerteza tem feito parte do “nada normal” q estamos vivendo… tenho ficado no meio do caminho, pq percebi q o excesso de pelos, tbm ñ é legal. Tipo, já cheguei a puxar sem querer, pêlos das pernas e virilha, e a região ficar dolorida por dias, então acho legal aparar…

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