Quando a rainha da bateria não sabe sambar

Entenda o que é Samba Abstrato e por que a invasão cultural ameaça a tradição carnavalesca

08.02.2018  |  Por: Linda Marxs

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Quando a rainha da bateria não sabe sambar

É chamado Samba Abstrato aquele samba fruto da apropriação estrutural e pessoal do espetáculo de carnaval. Mas por que abstrato? Isso vem da ideia de que é tão feio, ilegítimo e fora da tradição que é preciso abstrair para entender aqueles movimentos. O termo pode ser estendido também para outras situações de usurpação cultural através de expressões como Rap Abstrato, Pagode Abstrato e Capoeira Abstrata, por exemplo.

Essa é uma crítica importante, porque mostra que uma pessoa com algum poder social (ser branca, artista, modelo) pode ser contemplada com um privilégio e ter o maior reconhecimento que uma passista do espetáculo carnavalesco pode ter: representar a bateria da escola.

É a rainha da bateria que não sabe sambar, ou o ritmista artista da novela que não sabe tocar, mas quer viver aquela experiência de forma fetichizada como se fosse sua. Mas também vale para pessoas e empresas que usam o carnaval única e exclusivamente para ter lucro.

Mas como é possível que pessoas que não têm a menor ligação com a escola de samba, seus caminhos e tradições consigam lugares de destaque na festa? Por que isso é aceitável?

Isso se deve ao destaque cultural e midiático do carnaval. Desde os ensaios nas comunidades, passando pelo desfile em si e os escândalos da cobertura dos bastidores, tudo é usado para obter visibilidade. Seguindo os ensinamentos de Jessé Souza, em A Ralé Brasileira, é possível apreender que o conflito racial e a ofensiva da supremacia branca se intensifica quando a classe excluída de todas as oportunidades materiais e simbólicas na sociedade alcança o reconhecimento social. Nessa hora, rapidamente o sistema se apropria desses espaços de expressões artísticas, de forma que seja mantida sua hegemonia e barrada a organização dos menos favorecidos. Além de, é claro, contemplar seu ego sedento por um reconhecimento que não lhe pertence.

Vamos fazer um comparativo com o funk – mas poderia ser qualquer tradição preta que fora apropriada pela indústria. O funk não é odiado por alguns, aqueles de sempre, apenas por ser música de favela, de preto, mas sim por quebrar a lógica do etnocentrismo e trazer outras pessoas para os holofotes. Esse é o caráter subjetivo que formata as relações interpessoais e que valida o caráter estrutural e econômico da dominação cultural, é o animus subjetivo que faz com que as pessoas representem qualquer papel para estarem no centro das atenções em detrimento dos verdadeiros artistas. 

E pensemos: o que é a rainha da bateria? Ela é o símbolo da mulher mais bonita do carnaval, a bailarina principal entre os componentes da escola, e que com sua graça e domínio do samba, do ritmo e da comunicação corporal motiva o coração da escola formado pelos ritmistas. Não é à toa que seja justamente este o posto mais desejado por modelos, atrizes e celebridades que não têm nada a ver com o carnaval mas o almejam para ter seus 15 minutos de fama. Até aí, nada de novo, mas o que acontece com o espetáculo carnavalesco quando tamanha concessão é cedida? Pensem: o que seria de uma apresentação de balé se a bailarina principal fosse uma modelo que ganhou o título porque ajuda financeiramente o grupo ou porque traz visibilidade para a companhia de dança? Pois bem.

Não saber sambar num espetáculo de dança é como não saber tocar numa banda ou não saber cozinhar e ser um chef. Tamanha abstração só é possível quando vivemos em um sistema que esvazia de conteúdo tudo o que é preto. A mensagem que fica é que qualquer uma pode ser uma rainha da bateria, não é preciso sequer saber sambar. Mas, sim, estar disposta a pagar, seja com tempo ou com exposição, e fazer a dualidade do “eu te uso e você me usa”: a escola recebe os bônus da presença midiática da rainha, que usa o posto de para aumentar seu capital social.

Mas falemos do ônus: isso compromete a integridade estética do enredo e rompe com sua cultura. Na lógica antidialógica na situação da conquista, a opressão (apropriação) não é apenas econômica mas cultural, rouba do oprimido-conquistado sua presença, sua expressividade e toma de assalto sua cultura. E viva o carnaval.

Outra forma de dominação gradual que vale ser lembrada aqui é a criação da oposição entre o moderno e o tradicional. “Venceu a escola moderna“, dizem as manchetes do jornais exaltando uma escola de maioria branca em sua administração e que toca o grupo como um negócio de eventos e espetáculos de samba. Uma escola que não lembra em nada a vocação natural e social da agremiação carnavalesca. Obviamente que isso não tira o mérito ou o brilho da escola vencedora, mas uma vez criada a oposição vemos uma ofensiva direta a tudo o que é tradicional, de raiz, original (preto). Vemos avançar esse “moderno”, que é na realidade capitalista, branco e um claro movimento de neoliberalização (desculpem o termo chulo) que se apropria dos bens culturais do carnaval em nome da lógica do mercado.

Unindo a isso a exclusão social naturalizada, em que indivíduos vivem em situação de vulnerabilidade constante, qualquer iniciativa de empoderamento e libertação econômica é rapidamente absorvida pelo sistema. A apropriação cultural só existe porque o poder não pertence aos donos da cultura, aos participantes originais.

O carnaval é em sua essência plural. Antes das frases midiáticas modernas sobre inclusão e diversidade, uma escola de samba já era formada por pretos, brancos, portadores de capacidades especiais, idosos, crianças, jovens, pobres. Todos estavam presentes e incluídos no carnaval. Mas daí a televisão comercial chegou (e com ela as marcas) e a invasão cultural que se deu desde então vem servindo à conquista deste espaço de expressão ancestral. E nesse sentido essa invasão é essencialmente alienante – mesmo que festiva, carnavalesca, simpática e feliz. Porque não deixa de ser uma violência que retira a originalidade e impõe novos critérios através de ideias sobre superioridade, profissionalismo, mercantilização e adequação aos novos tempos. 

É, na verdade, uma invasão cultural que impõe sua visão de mundo, enquanto freia a existência e inibe a expansão dos verdadeiros donos da festa.

Linda Marxs é editora da página Samba Abstrato e do blog Efigenias

(Este texto faz parte do Manifesto do Samba Abstrato. Leia a versão completa no Blog Efigenias)

 

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