Quando as viagens curam

Para Isis Ramos, a vontade de conhecer o mundo é tão grande que dribla a falta de grana e a síndrome do pânico

16.04.2018  |  Por: Isis Ramos

image
Quando as viagens curam

Desde que me entendo por gente, sempre tive comigo a necessidade de viajar, de mudar, de sair do meu espaço, e conhecer o novo, como se algo dentro de mim clamasse por liberdade. Em 2010, com 21 anos, me dei uma meta ambiciosa: todos os anos, fazer uma viagem para fora do país. Mesmo que eu não soubesse se de fato seria possível realizá-la ou como o dinheiro viria, resolvi me testar.

Foi um esforço para juntar economias, fazer mil caderninhos de despesas, contar os centavos e procurar as passagens aéreas mais em conta. Ano após ano, pinguei pelo mundo: Chile, Colômbia, Bolívia, Peru, Portugal, Espanha, Itália, Praga, Alemanha, Letônia, Estônia, Finlândia, Eslováquia, Holanda, Hungria, Turquia, Taiwan, Coréia do Sul e Malásia, entre outros.

Por isso (e para isso), me tornei expert em viagens de baixo custo. Fiz um mochilão, Bolívia, Peru e Chile, de 40 dias em 2011 gastando R$ 800 (sem contar a passagem). Na Ásia, passei alguns meses trocando apenas uma nota de US$ 100. Procurar formas de trabalhar enquanto viaja muda tudo. Quando estava na Europa, por exemplo, fiz revisão de trabalho acadêmico. E, em uma das passagens pelo Chile, fui representando um grupo de estudos de bicicleta, gênero e mobilidade urbana. Também trabalhei num resort e num hostel na Malásia. E em Taiwan trabalhei com um artista que faz estruturas de bambu, e participei da produção do ano novo chinês. São trabalhos bem diversos, que não só ajudam a pagar os custos da viagem como me fazem participar de forma mais intensa da vida local, saindo daquele lugar da turista.

Minha maior surpresa foi, caderninho após caderninho, descobrir que o meu custo de vida viajando era menor do que morando em São Paulo. E olha que sempre levei uma vida simples.

Mas, no início de 2017, vi meus sonhos e minha busca por liberdade baterem de frente com o obstáculo mais difícil até então. O colapso da minha ansiedade e uma séria síndrome do pânico me tirou o chão e colocou à prova minhas andanças. Nada mais sofrido para quem curte viajar e se sentir livre do que estar presa a seus próprios medos e monstros.

Lugares muito cheios e os muito vazios me aterrorizavam. Na verdade, sentia que nenhum lugar era seguro o suficiente. Metrôs, restaurantes ou até mesmo meus pensamentos eram capazes de desencadear uma forte crise, e aquela sensação assustadora de desconexão com a realidade voltava a aparecer.

Psiquiatra, terapia, esportes, abracei tudo o que podia para melhorar mas, no fundo, sabia que deveria ser mais radical, pois é assim que funciona pra mim. Resgatei aquela criança que amava viajar com a melhor amiga, que mudava a disposição dos móveis do quarto todo mês, que gostava de trocar de colégio, que tinha verdadeiro amor e curiosidade pela vida e suas infinitas possibilidades e olhei novamente para o mapa do mundo me perguntando: pra onde eu vou? Sabia que era de uma mudança drástica que eu precisava. Respirar ares longínquos, olhar a vida com distanciamento. O destino teria de ser o mais longe possível e a ideia era passar no mínimo um ano.

Meses depois do desencadeamento do pânico, e eu já estava  com tudo acertado para a ida à Ásia. Trinta dias antes do embarque, depois de conversar com a minha psiquiatra e a minha terapeuta, comecei a parar de tomar os remédios, já que não era garantido que os conseguiria, na exata formulação, fora do Brasil. Embarquei com a Marjorie, minha namorada e companheira nessa busca por liberdade e paz.

O primeiro teste de controle da minha saúde mental foi o aeroporto. Medo de perder o avião, de ter comprado a passagem errada, de ser barrada na imigração… Mas encarei cada etapa como um ritual de passagem. Quando cheguei em Singapura, nosso primeiro destino, alguns sintomas físicos tomaram conta de mim: vista embaçada, fotofobia, o barulho dos batimentos cardíacos e lentidão. Isso me mostrava que a passagem havia sido feita e o que me esperava era o completo novo e desconhecido. Sem a minha língua-mãe, sem meus remédios. E, ali, nasci mais uma vez. Os meses foram passando, a minha confiança foi aumentando e percebi que aquela energia pesada de São Paulo, da minha antiga vida, estava começando a se dissipar.

E aqui estou em Gwangju, interior da Coréia do Sul, trabalhando com uma família local na sua pequena produção de alimentos orgânicos, tranquila e preenchida da paz que tanto busquei. 

Isis Ramos é geógrafa formada pela USP, trabalhou quatro anos com geoprocessamento até que transcendeu os mapas e compartilha suas experiências de viagem pelo Beyond The Travel List

0 Comentários

Comentar

Deixe uma resposta