Que mulher péssima

A mocinha honesta e batalhadora da ficção ficou para trás e quem entra em cena agora são protagonistas fortes e controversas criadas pelas escritoras contemporâneas

14.03.2022  |  Por: Renata Corrêa

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Que mulher péssima

A mocinha da ficção é nossa velha conhecida – justa, honesta, batalhadora, maternal, ela molda o ideal de feminilidade que acompanha meninas e mulheres desde que começamos a ler e escrever. Mas escritoras contemporâneas estão construindo personagens longe desse modelo e da assepsia de virtude das redes sociais. Suas protagonistas traem, maltratam crianças, rejeitam a maternidade, são amantes, ficam obcecadas por homens medíocres e colocam o desejo na frente das boas maneiras.

Bruna Maia – ‘O Novinho do Sebo’

A quadrinista Bruna Maia faz uma paródia do universo erótico e cínico de Nelson Rodrigues para criar Luiza, uma mulher que ao perceber o envelhecimento do marido, Rique, busca a paixão fora de casa com um jovem hipster funcionário de um sebo. Luiza manda closes da própria vagina para o amante, exige depilação do marido e encarna o maior pesadelo masculino: que as mulheres tratassem os homens como eles as tratam.

Andrea Del Fuego – ‘A Pediatra’

Cecilia é uma pediatra neonatal que ama protocolos violentos, não suporta os próprios pacientes e aproveita o embotamento depressivo do marido para arranjar um amante. Esse é o ponto de partida de “A Pediatra”, romance de Andreia Del Fuego. Você até pode querer odiar Cecília, mas é impossível – além de uma mulher incorrigível ela é engraçada e malvada, tal qual quando falamos mal de uma terceira pessoa com uma amiga de confiança. Irresistível.

Raven Leilani – ‘Luxúria’

Uma narrativa de amadurecimento onde uma jovem aspirante a artista plástica é despedida por se envolver sexualmente com colegas de trabalho e acaba se envolvendo com toda a família do seu amante casado. No seu romance de estreia, Raven Leilani estressa os limites das boas intenções, criando um universo que debate com honestidade radical as intersecções entre gênero, raça e classe.

Paula Gicovate – ‘Notas sobre a Impermanência’

Lia é uma tradutora carioca que se apaixona por um homem casado, Otto. A experiência de amor aparentemente banal de obsessão e desejo de um caso extraconjugal coloca em xeque a própria experiência do amor, afinal é digno desse nome aquilo que não pode ser vivido à luz do dia? Lia atravessa esse caminho comum se colocando não apenas no lugar da amante, mas da devota de uma religião extraconjugal – a Amélia ao contrário, a melhor de todas as traidoras, e finalmente, aquela que não pode ser esquecida.

 

Renata Corrêa é roteirista, escritora e dramaturga com forte presença nas redes sociais. Seus trabalhos têm foco no humor, na emoção e no protagonismo feminino

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