Quem ama não compartilha a senha (com os filhos)

Celular é uma mistura do nosso subconsciente com desabafos bêbados no bar, com choro no chuveiro, com nudes e aquelas maldades que a gente diz e pensa em engolir logo em seguida. Nenhuma criança merece ler essas coisas e você não merece tamanha exposição

12.11.2020  |  Por: Lia Bock

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Quem ama não compartilha a senha (com os filhos)

Que senha de celular a gente não compartilha com namorada, marido e afins estamos (quase) todos de acordo. Mas hoje eu vou um pouco a além: acho que não devemos compartilhar os números mágicos que abrem as portas do nosso celular também com os filhos. Sei que muita gente vai arregalar os olhos e dizer: “impossível!” Não, não é. Temos cinco crianças aqui em casa e nenhuma delas sabe a senha dos nossos smartphones.

É bem simples: você troca a senha e não conta pra eles.

E isso não é nenhuma maldade, forma de tortura ou castigo. É simplesmente proteção da sua privacidade e também da qualidade de vida da criança. Maldade é deixar uma criança com passe livre ao aparelho onde você acessa podcasts, séries, sites, fotos e tem conversas recomendáveis apenas para maiores. Onde você fala que bebeu demais e tem discussões ácidas do grupo de pais da escola.

Celular é uma mistura do nosso subconsciente com desabafos bêbados no bar, com choro no chuveiro, com nudes e aquelas maldades que a gente diz e pensa em engolir logo em seguida. Estão ali, naquele aparelhinho, nossas entranhas cabulosas somadas, claro, às entranhas cabulosas das nossas amigas. Ou vão me dizer que vocês não conversam com a irmandade como se estivessem a sós no universo? Nenhuma criança merece ler essas coisas e você não merece tamanha exposição.

Muitas vezes a gente dá a senha para os filhos quando eles ainda não sabem ler. Dois anos depois estão lendo com fluência os xingamentos que você escreve mas não deixa eles falarem

E aí vem uma parte importante: muitas vezes a gente dá a senha para os filhos quando eles ainda não sabem ler. Acha até fofo que eles aprendem a teclar os números e nem pensa que dali a um ano estarão juntando as sílabas. Dois anos depois estão lendo com fluência os xingamentos que você escreve mas não deixa eles falarem. Entende? E quando você menos espera, eles começam a te reprimir por causa de uma foto ou a tirar satisfação: “Por que você falou assim com seu tio?!” Avá! Grupo da família no zap definitivamente não é lugar pra criança. Fora os apps de relacionamento e a pesquisa no Google que você deixou aberta. Melhor vetar o acesso do que correr o risco de algum pimpolho perguntar: “Mãe, o que é ménage?” (ou cuckold, supremacista, FDP, MDMA e afins).

Hoje em dia, fuçar o celular de alguém é como mexer no seu cérebro, no seu sexo, no seu estômago e, claro, no seu coração. E isso não é coisa para criança. Sei que a tentação de se enganar é grande: “Ele só vai usar o celular na minha frente” ou “Ela é pequena demais pra entender qualquer coisa”. Crianças são ingenuamente sorrateiras e crescem. Muitas vezes nem fuçam na maldade. Mas quem nunca abriu o celular e tinha um punhado de fotos novas feitas pela casa? Ou entrou no zap e, opa, alguém enviou 499 figurinhas pra vovó?

O ideal mesmo é nunca dar a senha para as crianças, mas se você já cometeu esse erro, nunca é tarde para repará-lo. O meu mais velho tinha a senha do meu celular, até que começou a futucar demais e me caiu essa ficha: gente, esse gadget é meu! Quando mudei de aparelho, aproveitei para mudar a senha e disse que esse só funcionava com digital. Ele tinha 7 anos, já sabia ler, mas ainda não era rato de tecnologia, então acreditou. Hoje, aos 12, já sabe a verdade, claro, mas tem idade para entender que em celular de adulto criança não mexe sem autorização. Porque veja, não é que eles não podem encostar no meu celular (bem que eu queria, mas não rola). Mas só mexem se eu autorizar e estiver ciente de que tem alguém cutucando as minhas entranhas.

E tem mais: para quem mal consegue ir ao banheiro sozinha, ter uma coisa privada, pessoal e lacrada aos filhos é maravilhoso. Dá uma certa sensação de individualidade que, muitas vezes, achamos que nunca mais vai voltar.

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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