Quem são vocês e para onde vão?

Não é fácil para a mente quando as palavras que a gente conhece são usadas de outra maneira

26.10.2018  |  Por: Letícia González

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Quem são vocês e para onde vão?

A primeira coisa que anoto no desembarque é: o aeroporto de Guarulhos é imenso. Foram cinco meses sem ouvir o português que soa desavisado pelo corredor, às duas da tarde. Quando a primeira câmera me registra, é uma transmissão ao vivo das esteiras vazias (fomos mais rápidos que as malas). “Me ajuda a encontrar aquela loja?”, ela pergunta para a tela, em círculos. Eu mesma não saberia responder. O freeshop é um só e passagem obrigatória para a saída. Não entendo a pergunta.

Peço um par fechado dos óculos que escolho comprar. Como não há, procuro riscos nos que recém tirei do rosto, mas a informação não me espera: estão perfeitos, chegaram ontem. Se posso ver, por que sou interceptada? Não entendo a explicação. O português se infiltra no meu cérebro devagar.

Conto sete interações até o ônibus para a cidade.

Mais uma hora de silêncio pela frente. Reviso os últimos rostos com a pergunta que carrego desde o avião: vota em quem? Antes da decolagem, T. dividiu comigo uma voz parecida à sua: todo mundo, todas as pessoas de bem, toda a nossa família vai votar nele. Menos tu e o M., essa turma meio revolucionária.

Penso em M., que não vejo há uns dez anos, e o imagino não mais gay, mas revolucionário. Penso nas palavras que usamos de forma prioritária. No ano passado. As coisas que debatíamos enquanto este ano não chegava: o machismo do esquerdomacho, o fim das redações, a intransigência do discurso feminista.

De volta a esta manhã, no aeroporto de Montevidéu, conversamos sobre a responsabilidade de si, um assunto que nos pegou curiosos, sem paixões. Falávamos de outra pessoa. Me ouço de novo: é um aprendizado impossível, a responsabilidade, daí o fascínio do budismo. Os judaico-cristãos só conhecemos culpa e acusação. A feiura da marginal me faz repetir: é difícil, tão difícil. (E, mesmo assim, a vi, em algumas pessoas, algumas vezes. São a prova que carrego.)

Tiro fotos da Praça da República. Chorei quando vi a praça na TV, semanas atrás, numa reportagem sobre as tensões eleitorais. O sentimentalismo olhava por trás das pessoas em primeiro plano. Hoje, repito ao vaivém a pergunta que me acompanha desde o avião, sinto saudade e receio. Responde uma Barbie do celular, uma Barbie iogue: o karma é individual, a dor é alheia. Todos votam nele.

Penso nas palavras que se infiltram debaixo da pele: amor, medo, ódio, tortura, respeito, lei. Nada me prepara para a flexibilidade atual. Identifico ora os usos que mais conheço (o amor pacífico, o medo vitimizante), ora seus opostos (a tortura da incompetência, a lei da maioria).

As palavras de duas caras me desnorteiam – enfim, a clareza de estar confusa por um motivo. Têm uma magnética neutra e ela é culpada de algo, ao menos da minha aflição. Dura pouquíssimo o alívio desse pouso. A responsabilidade se mexe de novo e faz microfissuras de pânico: esta manhã, no aeroporto de Montevidéu, criei a Barbie iogue?

 

Letícia González é jornalista

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