Quer chocar a sociedade? Diga: ‘Meu filho não mora comigo’

O que leva uma mãe a não morar com seus rebentos e por que há tanto preconceito com as mulheres que fazem essa escolha?

28.10.2019  |  Por: Jo Melo

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Quer chocar a sociedade? Diga: ‘Meu filho não mora comigo’

“Seu filho não mora com você?” “Com quem ele fica?” “Nossa, eu não conseguiria”. “Que sorte a sua que o pai ajuda, né?” Essas são algumas frases que mães que não moram com seus filhos ouvem sempre que informam sua condição materna. Por mais que a nossa sociedade esteja, aos poucos, tentando melhorar, ainda há muito preconceito com essas mulheres.

Ainda hoje a mãe é vista como esse ser imaculado que deve levar todos sob suas asas e, se necessário, abdicar de tudo em prol dos filhos. Não é a toa que os grandes símbolos do cristianismo são mães.

Parece que fomos criadas única e exclusivamente para trazer bebês ao mundo, nos incumbiram dessa missão que (verdade seja dita) muitas de nós nem quer. Porque ser biologicamente apta a ser mãe não quer dizer que tenhamos que fazê-lo. Mas isso a sociedade ainda não entendeu.

Você alguma vez perguntou a um homem o motivo de ele não morar com os filhos? Então por que com uma mulher é diferente? Eu respondo: por causa da maternidade compulsória. Como se cuidar de uma criança fosse obrigação apenas da mãe.

É por isso que as mulheres que quebram essa regra são alvo de um cruel preconceito.

O que leva uma mulher a não morar com o filho?

Muitas pessoas querem saber por que essas mulheres não estão seguindo o fluxo social imposto, e uma coisa eu posso dizer: as motivações são totalmente diferentes das de um homem. Estudar, trabalhar e condições financeiras são as principais justificativas das mães. Se você perguntar para os homens por que eles não moram com seus filhos, é muito provável que resposta seja: “Filho tem que ficar com a mãe.”

Meu filho não mora comigo há três anos; minhas motivações foram logística e falta de grana. Eu trabalho muito e ter de pegá-lo à noite na casa do pai, ir para minha casa, passar algumas horas, acordar, pegar ônibus lotado por causa do horário de pico, ir trabalhar e enfrentar mais condução cheia, me fizeram definhar. Fiquei esgotada mentalmente, com um nível de estresse altíssimo, e passei a ter crises de ansiedade, até que chegou o momento em que precisei pedir ajuda. Porque não dá para carregar o mundo nas costas, não somos super-heroínas, e aquele título de guerreira é na verdade um disfarce para: mulher sobrecarregada.

Demorei para tomar coragem de falar “agora você vai morar com o papai”. Ele entendeu. Eles sempre entendem. O julgamento não vem das crianças, mas sim de fora. E acredito que nós, mães que não moram com os filhos, devemos nos apegar a esse amor, que continua haja o que houver.

Abgail Pereira tem 32 anos, nasceu em Natal e mora Rio de Janeiro. A Filha ficou no Nordeste. “Quando tomei essa decisão, estava desempregada, vivendo de uma bolsa de pós-graduação, e surgiu uma oportunidade do outro lado do país. Sentei com o pai dela e nossas famílias e fizemos um acordo informal. Ela ficaria com a família paterna, indo alguns dias para a casa da minha mãe, enquanto eu mandaria o dinheiro. Nunca sofri preconceito no Rio. Porém, os familiares me cobram muito o estereótipo de mater dolorosa e mãe guerreira. Vejo minha filha quatro vezes ao ano, quando vou a Natal em feriados e aniversários. Fiz tudo com bastante consciência do que iria perder, a convivência familiar, o dia a dia, mas era isso ou minha filha não ter escola, plano de saúde e qualidade de vida. Sinto muitas saudades, às vezes dói a distância, mas o meu coração sente o dever cumprido.”

Culpabilização

Culpa é uma palavra que acompanha a mulher, mãe ou não. A sociedade cria padrões e espera que o sigamos – e, no caso da maternidade, se não seguimos no trilho, nos fazem acreditar que não somos “boas” o suficiente. Aí vêm as autocobranças e caímos nesse círculo vicioso de autossabotagem que traz pensamentos como: “não sou uma boa mãe”; “abandonei meu filho”; “não sou mais uma mãe de verdade”.

Depois que minha condição materna mudou, passei a falar mais sobre o assunto, e é incrível como a empatia vem. Comecei a me aproximar de mulheres na mesma condição, gente que tem os mesmos questionamentos e as mesmas dores. É um compilado que machuca, mas que também faz pensar que estamos quebrando um padrão social imposto. E, como sempre acontece na linha de frente, os socos e pontapés vêm primeiro.

E do outro lado, o que vemos? Quando o filho está com o pai, todos ao redor o colocam como o cara injustiçado porque foi abandonado pela mulher ou então como o herói que cria sozinho uma criança.

Num mundo ideal, compartilhar a criação deveria ser algo respeitável e até incentivado, mas como, se temos mais de 5,5 milhões de pessoas sem registro de pai no nascimento? E isso nos leva à seguinte conclusão: homens escolhem ser pais, mulheres, não.

Julgamento

Vamos falar das outras mulheres? Aquelas que observam minha situação e dizem: “Nossa, eu não conseguiria”, como se fosse muito fácil para mim. Existem também aquelas pessoas que acham a “liberdade” de poder sair à noite a grande motivadora. Vou contar um segredo para vocês: estamos bem longe disso.

Muitas vezes, a família é a primeira a falar algo. Nos colocam como as piores mães do mundo, criticam, dando a entender que abandonamos a nossa cria em algum lugar absurdo. Mas o que eles não se dão conta é que estamos deixando com o pai, a pessoa que contribuiu para que aquele pequeno ser chegasse ao mundo.

É complicado termos de justificar nossas ações pra família ou num texto em um canal de comunicação, mas hoje acho que é muito importante. Ouçam essas mulheres, não julguem, abracem e foquemos no que importa: a criação dos nossos filhos, morando com a gente ou não.

 

Jo Melo é mãe e problematizadora nata, especialista em marketing digital, editora e criadora da Revista Mães que Escrevem

 

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