Reflexões de quarentena: por que é tão difícil se apropriar da nossa liberdade?

A liberdade feminina é uma conquista diária – árdua, não-óbvia e intensa. E o isolamento social potencializa nosso caleidoscópio e insegurança afetiva. De tudo, apenas desejo que tenhamos direito à plenitude

26.06.2020  |  Por: Luciana Adão

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Reflexões de quarentena: por que é tão difícil se apropriar da nossa liberdade?

Há algumas semanas essa pergunta me ronda: “Por que é tão difícil se apropriar da nossa liberdade?” – culpa da analista que me revirou do avesso. Em teoria não haveria motivo para essa pergunta. Sou solteira (me recuso a absorver e acho um absurdo o estado civil pós-casamento ser “divorciada”, mesmo após uma relação que durou 24 anos no total), 43 anos, trabalho com o que amo, tenho independência financeira e sou absolutamente dona de mim – SQN.

O peso de carregar um rótulo de estado civil não-desejado quando na verdade zeramos o jogo e queremos recomeçar é cruel. O poeta espanhol Antonio Machado (1875-1939), em seu poema Caminante, No Hay Camiño, incluído em Proverbios y Cantares, diz que “Caminante no hay camino, se hace camino al andar”. O caminho caminhado é intenso, doloroso, não-óbvio e um mergulho no abismo sem saber onde vai dar. E ao longo do percurso em construção se ouve de um tudo – do clássico “o que você fez ?” ao “ amiga, foi um livramento”. O equilíbrio e o processo de reconstrução passam por muita coisa, principalmente se descobrir dona da sua vida stricto sensu.

A solteirice tem menos de um ano – não, não sou das danadonas, infelizmente. Sou capricorniana, embora tenha ascendente e Lua em leão, e a Vênus em peixes me torna uma adolescente de 19 anos novamente. Toda a decisão e desinibição profissional são inversamente proporcionais ao campo afetivo. Esse prólogo todo é pra dizer que no abismo, em qualquer momento, existirão mulheres muito incríveis que te darão as mãos e te apontarão um mundo de possibilidades.

Meu renascimento começou no ano novo – Cumuruxatiba, na Bahia, com um grupo de amigas geniais – e mais um monte de novos amigos feitos na viagem. Voltei cheia de sol, luz, amor e caipirinha de pitanga. Pra celebrar, um aniversário com as duas amigas queridas juntando todos os nossos amores possíveis. Verão, música, riso, aglomeração e leveza. Passada a primeira semana do ano, começa o pré-carnaval: moro no Rio de Janeiro e isso é um fato delicioso! Tive as melhores companhias e também a assessoria carnavalesca mais luxuosa e afetiva que possam imaginar, que me ensinaram tudo sobre avenida, blocos e bailes: “Carnaval é sacrifício”; “ Tem que exaltar o pavilhão”; “ Fantasia é figurino e tem que montar o kit carnaval”; “ Folia é coisa séria”. Bruna, Mariana, Pedro e Roberto foram muito mais importantes do que podem imaginar no caminho da plenitude.

Forçosamente como todos tive que reinventar rotina e me obrigar a olhar pra dentro

Plenitude, substantivo feminino: estado do que é inteiro, completo; totalidade, integridade. Tradução = carnaval. O carnaval trouxe percursos, recantos, escolas, ensaios, quadras, becos, ruas e cantos inimagináveis e renovadores. Falei com pessoas completamente desconhecidas que viravam melhores amigas; saía de casa de maiô, tênis, esplendor e glitter, não me importando com nada que ninguém pensasse; me perdi várias vezes nos blocos e exatamente nesses momentos me encontrei – sozinha e em estado de epifania profundo. O livre ir-e-vir, a ocupação total da cidade, as cores, o suor, o cheiro, o glitter e a vida em forma de poesia. O carnaval me deu a mim de presente.

Em seguida veio a pandemia, o isolamento social e a ruptura de um processo em construção. No meu caso, sozinha. Irritadíssima com as mensagens de “aproveite para se autoconhecer” – esse mergulho não é capricorniano, isso é uma tortura. Forçosamente como todos tive que reinventar rotina e me obrigar a olhar pra dentro. Me peguei pensando em “pedir permissão” para mexer em tudo na minha casa e na minha vida, mas sem racionalizar isso. Até o dia em que a analista perguntou: “Por que é tão difícil se apropriar se apropriar da nossa liberdade”?

A partir dali entendi o motivo de repetir muitas vezes a diversas pessoas: “Saudade da minha plenitude de carnaval.” O carnaval me deu a mim mesma. E a partir da pergunta comecei a me apropriar dessa liberdade com todas as minhas luzes e sombras: comprar um quadro que falasse do feminino, pintar as paredes, comprar minhas frescurinhas tipo macarron e água San Pellegrino, tomar meu espumante no meio da semana, ficar acordada de madrugada, me emocionar ao descobrir que ao contrário do que sempre disseram eu sou capaz de cuidar de um pequeno jardim, admitir uma paixão platônica que não sei se um dia terei coragem de falar, descobrir que sou um ser romântico, quase personagem do século XIX, o que é completamente oposto à minha personalidade profissional, dedicar tempo e entender os meus amigos tão preciosos, entender a felicidade que é ter uma família que sempre me encorajou a ser gauche na vida e entender que, ao fim e ao cabo, serei sempre imperfeita.

A liberdade feminina é uma conquista diária – árdua, não-óbvia e intensa. E o isolamento social potencializa nosso caleidoscópio e insegurança afetiva. De tudo, apenas desejo que tenhamos direito à plenitude. O carnaval que habita em mim saúda o carnaval que habita em você.

 

Luciana Adão é carioca de alma, produtora cultural e foliã plena

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