‘Relaxa, ninguém está feliz’

No Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio, uma rápida análise sobre a importância da instrospecção em tempos de neoliberalismo

10.09.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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‘Relaxa, ninguém está feliz’

Quisera eu que na minha adolescência tivéssemos a quantidade de informação pública sobre doenças mentais que temos hoje. É só dar uma rápida busca em sites caça-clique e perfis de celebridades nas redes sociais para encontrar conteúdos como “Dez coisas que você precisa saber sobre depressão”. Hoje, no Dia Mundial da Prevenção ao Suicídio, eu gostaria de falar menos sobre os aspectos médicos acerca da doença e mais das questões sociais e psíquicas que acredito serem tão importantes quanto, e estão sendo negligenciadas no debate público.

Essa escolha de enfoque não é à toa. Ela favorece uma visão de mundo que coloca a responsabilidade mais no sujeito que na estrutura da sociedade. Você está deprimido porque seu cérebro veio com um defeito de fábrica. É só comprar um remédio na farmácia que isso pode ser resolvido – assim, quase como uma terceirização do processo introspectivo feito na análise. O lobby da indústria farmacêutica faz com que muita gente esteja se tornando viciada em remédios tarja preta porque assim a questão é resolvida de forma mais fácil e rápida. Quando um remédio desses é retirado sem acompanhamento médico, as chances de suicídio aumentam vertiginosamente.

Segundo dados de uma pesquisa recente da Centers for Disease Control and Prevention, 55% dos suicídios não tinham questões previamente conhecidas de doenças mentais. Muitos dos casos envolviam crises de relacionamento, problemas financeiros, saúde física debilitada, ou recentes contratempos que chegaram em suas vidas sem aviso. É evidente que já havia uma boa dose de vulnerabilidade na alma dessas pessoas. Mas também não podemos descartar que o mundo externo influi na nossa subjetividade. Essa conta inclui até mesmo situações macro, como  a retirada de direitos fundamentais e a ascensão do discurso de ódio e intolerância, vide o protagonismo de figuras protofascistas como Donald Trump e Jair Bolsonaro. Afinal, ninguém duvida que a realidade pode ser deprimente.

Mas o ethos neoliberal não se resume a um modelo econômico, e sim também a um modo de vida que privilegia o sucesso individual. Semana passada, a atriz Bruna Marquezine fez um relato no Instagram em que revelava ao público o período em que sofreu de depressão por conta dos comentários depreciativos que os internautas deixavam em seu perfil. Embora num primeiro momento chame a atenção como um dos maiores ícones de beleza do país pode ainda assim ser vítima do machismo, é difícil não pensar como ela própria ajuda a perpetuar esse sistema.

Numa sequencia de Stories, vemos Bruna na Itália, magérrima, com um vestido que custa o que o brasileiro médio ganha durante um ano, com joias que têm o valor de um apartamento. Em seguida, textos sobre a importância de tratar a depressão. E aí voltamos para o glamour da Itália. Bruna Marquezine ganha rios de dinheiro com publicidade em seu perfil justamente esbanjando um estilo de vida que é muito provável que dê um pontapé na depressão de milhares de meninas que não se encaixam nesse padrão de magreza & riqueza. A crueldade desse sistema tão materialista é que não poupa sequer a própria Bruna. Sem querer, ela acaba atuando como vítima e algoz.

Segundo o Ministério da Saúde, os casos de suicídio no Brasil aumentaram 12% entre 2011 e 2017

Meses atrás, o mundo ficou estupefato com os suicídios de Kate Spade e Anthony Bourdain. Ela, que desenhava alguns dos acessórios mais divertidos do mundo da moda. Ele, que literalmente dizia que tinha o “melhor emprego do mundo”.  Como aquelas pessoas tão bem-sucedidas podem ter decidido encerrar a própria vida? A resposta talvez seja encontrada na declaração de outra celebridade com os mesmos privilégios. Num surto de sincericídio, Jim Carrey revelou: “Eu percebi que eu tinha tudo o que todo mundo sempre desejou e que eu conquistei tudo o que eu sonhei para mim. E mesmo assim eu estava infeliz. Aí eu entendi: a vida não é sobre isso.”

O Instagram é a rede social que nos faz pensar que todos estão vivendo uma vida incrível, menos nós. E assim aumenta nossa solidão no mundo.  Talvez até mesmo o aumento dos relatos confessionais envolvendo doenças mentais seja uma tentativa de resposta a isso. Está em todos os para-choques de caminhão que dinheiro e status não trazem felicidade. É um dos clichês mais antigos do mundo. Mas, em algum lugar, ainda acreditamos que sim. Desejamos para nós uma vida de acordo com ditames materiais e nos frustramos quando a realidade se impõe sem viagens a lugares paradisíacos e selfies de casal apaixonado.

Nós ainda estamos aspirando o mesmo modelo de vida margarina que era comum nos anos 50. O que mudou foi apenas a embalagem. Muitos dos diagnósticos de depressão dados a rodo hoje podem ser considerados uma baixa tolerância às frustrações inerentes da existência humana. Talvez fosse benéfico para todo mundo que no lugar de expectativas tão altas a gente fosse mais resiliente em relação aos infortúnios que a vida nos traz. Uma visão mais monástica e menos materialista. Por um lado, é um tanto new age esse papo de “o ter se tornou mais importante que o ser”. Mas talvez a gente ainda não tenha compreendido algumas platitudes – Nelson Rodrigues estava certo quando disse que só os profetas enxergam o óbvio.

Assim começa o primeiro parágrafo do clássico O Mito de Sisifo, de Albert Camus: “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia.” Segundo o Ministério da Saúde, os casos de suicídio no Brasil aumentaram 12% entre 2011 e 2017. Isso quer dizer que as respostas que outrora nos satisfaziam não servem mais. É preciso encontrar caminhos que fujam dos ditames propostos pela publicidade, não apenas em relação ao consumo de objetos, mas em relação ao consumo de experiências, como empregos dos sonhos e relacionamentos de revista. A felicidade nem sempre é encontrada pelas vias mais normativas. Em geral, eu sou contra o moralismo acerca do suicídio, e compreendo quando alguém decide encerrar sua vida. Acho uma escolha válida que não deve ser julgada. Mas, entusiasmada pelo primeiro período de estabilidade emocional na minha vida, pela primeira vez arrisco um palpite no estilo dos manuais de autoajuda que eu sempre critiquei: talvez as pessoas encerrem suas vidas porque estão olhando para o lado errado.

Neste #setembroamarelo, tenho certeza de que não vão faltar relatos de superação das adversidades relacionadas a doenças mentais.  Se, dentro do meu “lugar de fala”, eu pudesse dar meus 20 centavos, seria um apelo para deixarmos um pouco para trás a tendência atual da excessiva patologização, porque remédio é apenas um paliativo, e não vai resolver nada se a raiz da questão não for examinada, via introspecção e psicanálise. É lógico que casos de depressão severa precisam de medicação até para terem a capacidade de produzir algo no divã. Mas é preciso dar espaço para a tristeza também porque ela é tem a função de expandir a nossa alma; ela nos permite ter uma gama de sentimentos mais amplos, e é isso que nos torna humanos. Só assim a gente vai chegar a alguma compreensão a respeito de nós mesmos e do mundo que nos cerca.

É um contrassenso e uma irresponsabilidade dar um último conselho num tema como esse. Mas, quando a coisa aperta, e percebo que estou entrando novamente numa espiral de terror, achando que apenas minha vida é uma merda, sempre lembro do que diz uma grande amiga: “Relaxa, ninguém está feliz.”

 

 

 

 

 

1 Comentários

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Uma resposta para “‘Relaxa, ninguém está feliz’”

  1. Grecia Baffa disse:

    Queria que fosse o medium para eu dar uma salva de palmas!! O texto está demais, Maria Clara <3

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