Repita comigo: o zap é meu, não da firma! 

Desligar o celular no fim de semana configura autocuidado ou vitória do capitalismo?

24.08.2021  |  Por: Lia Bock

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Repita comigo: o zap é meu, não da firma! 

Desde que os smartphones entraram nas nossas vidas – no meu caso foi com um Blackberry em 2008 – a gente flerta com o vício em redes sociais, o abuso de chefes e clientes e as fakes news que tiram nosso bom humor. Deve ter sido lá por 2010 (puro chute) que algumas pessoas começaram a falar em detox de tecnologia. E desde que este conceito surgiu, ele empiricamente significa “deixar o celular de lado durante o fim de semana”. Diversos artistas já falaram com orgulho em entrevistas que guardam o celular aos sábados e domingos. Muitos publicitários e funcionários da criatividade corp fazem o mesmo: desligam seus moderníssimos aparelhos nos dias de folga. 

Seria maravilhoso se não fosse deprimente. Digo isso porque estar totalmente off nos fins de semana e totalmente on durante a semana define nossos telefones como uma ferramenta a serviço do capitalismo. O que, no fim da linha, representa uma vitória do mundo corporativo, que neste ato aparentemente benéfico se apropria de algo que deveria ser nosso e estar sob o nosso controle. Porque durante a semana, quando o trabalho bomba por 15 horas ininterruptas, estamos hiper conectados, respondemos demandas profissionais com dedicação e atenção, nos colocando à disposição do trabalho do jeitinho que o capitalismo gosta. Daí, nos fins de semana, quando familiares e amigos sumidos mandam mensagens fofas em seus dias de folga, estamos como? Em off, achando lindo que deixamos os gadgets de lado para curtir a vida. 

Pois que vida é essa que não pode responder ao vizinho que precisa de uma xícara de açúcar? Que vida é essa que ignora a amiga chorosa chamando para um call regado a vinho? Que vida é essa que não responde o sobrinho fofo que mandou um vídeo da praia, mas está sempre alerta quando o chefe rosca? Botemos em porcentagem para calcular o absurdo dessa atitude disfarçada de autocuidado: os cinco dias de trabalho representam 71,43% da semana e (salvo exceções que merecem a análise de um advogado do trabalho) é neste período que entra pelos nossos aparelhos praticamente toda a carga de stress e correria. Daí a gente faz o quê? Pega os 28,57% da semana (representados pelo sábado e domingo) e fica off para desanuviar a cabeça. Segunda-feira a gente volta a se conectar à nossa fonte de estresse e, assim, sepulta qualquer possibilidade de uso saudável dessa tecnologia de bolso.

Não faz o menor sentido. Viramos, nós e nossos aparelhinhos, motores desse sistema que precisa, na verdade, de um basta. Se há vício, estresse e falta de noção no uso da tecnologia é isso que devemos combater. Se as corporações não estão educando seus funcionários a usar mensagens instantâneas de maneira saudável e com bom senso, é por isso que devemos brigar! Desligar o telefone no final de semana é o fracasso completo! É a submissão ao universo abusivo do trabalho sem questionamento ou resistência. 

Já passou da hora de abrirmos uma conversa franca sobre o uso profissional da hiper-conectividade. É preciso estabelecer um código de conduta para o uso das tecnologias de comunicação, regras que servem do topo da cadeia profissional até a base de seus funcionários. Isso se chama educação digital – e não, as pessoas não nascem sabendo. Ao contrário, elas acham que sabem e se enrolam por completo na hora do uso. Sabe quando a gente ensina os filhos que não pode usar o celular na mesa do jantar? É a mesma coisa. 

É preciso pegar de volta os nossos celulares e estabelecer um controle pessoal sobre eles. Se as redes sociais estão nos  viciando, vale desinstalar por um tempo. Se o trabalho está deixando a gente louco com o excesso de grupos e mensagens, é preciso abrir uma conversa sobre isso na firma e criar recursos individuais para frear. Guardar o celular na gaveta aos sábados joga o problema para debaixo do tapete e põe o mudo em demandas que deveriam fazer parte do nosso tempo de descanso. 

Sim, este texto é uma ode à mensagens marotas, áudios descompromissados e uma troca saudável via zap e apps afins. É um apelo para que, principalmente em tempos de distanciamento social, façamos mais do que apenas trabalhar e reclamar do trabalho. 

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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