Revolucionárias | Gina Gotthilf, a VP

Vice-presidente de uma plataforma online com 200 milhões de usuários, aos 31 anos está entre as executivas mais poderosas do segmento digital no mundo

13.11.2017  |  Por: Karla Monteiro

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Revolucionárias | Gina Gotthilf, a VP

“O mundo da tecnologia é masculino. Acho importante saber que é, sim, um mundo desigual. E a gente tem que trabalhar mais duro, provar mais, apresentar uma coisa tão boa que não tem como ignorar. Nunca tentei me portar como homem”

Aos 31 anos, Gina Gotthilf chama a atenção num mundo povoado de jovens gênios, o das grandes start-ups de tecnologia dos Estados Unidos. É considerada hoje uma das empresárias mais poderosas do segmento digital no mundo.  Quando assumiu a vice-presidência de Comunicações e Desenvolvimento Internacional do Duolingo, a plataforma digital para aprender idiomas tinha três milhões de usuários. Menos de quatro anos depois, são 200 milhões.

Com formação em Filosofia e Neurociência pela Universidade de Brandeis, em Boston, ela começou a carreira no Tumblr, responsável pela instalação da Duolingo no mercado latino-americano. Dessa experiência, foi contratada pela plataforma. Com a missão de expandir a audiência, conquistou os mercados da China e do Japão e criou parcerias com governos de cinco países.

Em 2015, viu-se no ápice: fez um pitch para Barack Obama. De pernas bambas, ouviu do ex-presidente a promessa de estudar espanhol pelo Duolingo.

 

Ela por ela

“Morei em São Paulo até os 18 anos. Sempre tive o sonho de morar fora, queria fazer faculdade em outro país. Achava que teria mais oportunidades de trabalho. Mas eu teria que conseguir uma bolsa. E isso virou a minha meta número um aos 17 anos. Acabei conseguindo uma bolsa para estudar nos Estados Unidos. Não era a faculdade mais top, mas era muito boa.

Na época, achava que iria trabalhar em ONGs ou ser diretora de cinema. Adorava escrever roteiros e dirigir. Pensei que se estudasse alguma coisa como Filosofia ou Antropologia, teria uma visão mais ampla do mundo e conseguiria escrever melhor. Acabei indo estudar Antropologia em Portland, no Oregon. O Reed College, onde estudou o Steve Jobs, era muito hippie, o slogan, para se ter uma ideia, era ‘Ateísmo, comunismo e amor livre’. Depois de dois anos, larguei tudo e voltei para casa. Estava deprimida, não sabia o que queria da vida, mas não era aquilo.

Acabei indo de novo para os Estados Unidos, para uma faculdade em Boston, onde estudei Filosofia e Neurociência. Quando estava me formando, mandei currículo para quase cem empresas americanas e não consegui nada, 97% delas nem me responderam.

No fim, consegui um estágio numa agência de mídia digital. Tinha 22 anos e a sensação de estar atrasada na vida. Meu interesse neste emprego era receber o meu salário e ter um visto. Não tinha paixão por aquilo. Foi assim que comecei a carreira: trabalhando para ter um visto e para que ninguém percebesse que minha chefe tinha problemas com heroína. Fazia o meu trabalho e o trabalho dela.

A partir daí, trabalhei em outras agências de mídia digital, com grandes marcas de moda, tipo Donna Karan, Louis Vuitton… Até que num dado momento comecei a achar que nada daquilo tinha o menor sentido e voltei de novo para o Brasil. Nova York era um lugar muito competitivo e não era assim que eu queria viver. Resolvi que daria a volta ao mundo, trabalhando em fazendas – olha a ideia… Havia um programa que se chamava World Organization of Organic Farms e eu me inscrevi. Quando estava em São Paulo me preparando para a viagem, o Tumblr entrou em contato comigo. Estavam pensando em entrar no Brasil e precisavam de alguém no país.

Minha missão era descobrir o que, afinal, poderiam fazer pra entrar no mercado brasileiro. Organizei várias coisas para eles, de encontros com a imprensa a grandes meetings com o mercado, e no fim deu tudo certo. Deram-me carta branca para descobrir como fazer o Tumlr crescer na América Latina. Foi aí que iniciei o caminho em que estou hoje.

Depois dessa experiência, abri a minha própria agência para ajudar empresas a crescerem na América Latina. O Duolingo foi um dos meus primeiros clientes. E, de longe, era o que eu mais amava, pela missão deles de trazer educação de idiomas grátis para o mundo. A equipe era o grupo de pessoas mais inteligente que eu encontrara na vida. Fui, então, convidada para entrar no Duolingo full time. Não pensei duas vezes.

Estou na empresa aqui nos Estados Unidos há quatro anos e meio. Lancei o Duolingo na Índia, no Japão, na China, na Coréia, na Turquia, no México, na Espanha, na Inglaterra… Também criei, por exemplo, parcerias com o Ministério da Educação da Colômbia. Meu trabalho hoje se divide em duas áreas. Além de marketing, PR e comunicação, lidero a área de growth, que são estratégias espertinhas para que a plataforma cresça. Tenho uma equipe de 13 pessoas, entre engenheiros, designers e gerentes de produtos. Desde que entrei, o Duolingo foi de três para 200 milhões de usuários.

Quando me perguntam se é difícil ser mulher nesse mundo da tecnologia, digo que sim. É um mundo masculino. Tive sorte e ignorei as dificuldades. Mas vi muita coisa acontecendo ao meu redor. Acho que é importante saber que é, sim, um mundo desigual. E a gente tem que trabalhar mais duro, provar mais, apresentar uma coisa tão boa que não tem como ignorar. Nunca tentei me portar como homem.  Sou mulher e sou eu: engraçada, falo alto, sou expressiva, gesticulo… Tem dado certo.”

 

– Veja a lista com todas as revolucionárias –

 

 

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