Senhoras de biquíni: porque a liberdade não tem prazo de validade!

A idade é considerada inimiga das mulheres pois o corpo sempre foi mais importante do que o resto. Tremenda crueldade, principalmente com mulheres maduras que querem viver a vida

02.10.2019  |  Por: Maria Clara Drummond

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Senhoras de biquíni: porque a liberdade não tem prazo de validade!

Marílice Carrer, 58 anos, e Aparecida Regina de Miranda, 62 anos, em fotos de Simone Marinho para o projeto Senhoras de Biquíni

Em 2015, a atriz Maggie Gyllenhaal deu uma entrevista dizendo que, aos 37 anos, foi considerada muito velha para fazer o par romântico de um homem de 55. Também é famosa a história de que Anne Bancroft era apenas seis anos mais velha que Dustin Hoffman na época do filme “A primeira noite de um homem”, de 1967 — na história, sua Mrs. Robinson deveria ser da idade dos pais dele. A cruel descriminalização etária de Hollywood gerou até uma esquete cômica feita por Tina Fey, Julia Louis-Dreyfus, Patricia Arquette e Amy Schumer, em que as comediantes comemoram seu “last fuckable day” (que podemos traduzir como: último dia “comível”). Jessica Lange resumiu a situação da seguinte forma: “O que Hollywood faz é apenas um microcosmo do que ocorre com as mulheres em geral. Assim que envelhecem, se tornam invisíveis, indesejáveis e feias.”

Em agosto, a diferença de tratamento entre homens e mulheres mais velhos voltou às rodas de conversa. No meio crise da Amazônia, Jair Bolsonaro achou pertinente endossar um comentário que ridicularizava a diferença de idade entre Emmanuel e Brigitte Macron — enquanto a primeira-dama francesa tem 24 anos a mais que o marido, a situação por aqui é inversa (Michelle Bolsonaro regula com a faixa etária dos filhos do presidente). A naturalização da misoginia é tanta que demorou para que alguém se perguntasse o que essa professora francesa tem de especial para capturar a atenção de um homem jovem, bonito e poderoso como Emmanuel Macron – afinal, se ele poderia estar com qualquer beldade com o colágeno em dia, porque a escolheu como companheira?

Mas os dados mostram que cresce cada vez mais a quantidade de relações como a dos Macron. Segundo o IBGE, em 2013 um em cada quatro casamentos seguiam esse molde. Enquanto isso, os arranjos de Jair e Michelle Bolsonaro e também de Donald e Melania Trump parecem cada vez mais antiquados. Convenhamos, nenhum dos dois governantes pode ser considerados um Richard Gere. A pergunta correta deveria ser: por que uma mulher desejada optaria por esses homens? Ambos têm cabelo equivocado, a expressão idiotizada, o comportamento grosseiro, intelecto deficiente e os gostos duvidosos — Sylvia Plath escreve que “every woman adores a fascist”, mas tenho certeza de que não um fascista com esse biótipo. A única coisa que justificaria seria poder e dinheiro — o que, apesar de a hipótese mais ser provável, e infelizmente muito comum, é existencialmente triste.

A escritora inglesa Bibi Lynch, que recentemente escreveu um artigo sobre seu hábito de sair com homens 30 anos mais jovens, cunhou a sigla WHIP (Woman Hot, Inteligent and in their Prime, que podemos traduzir como mulheres gostosas, inteligentes e em seu ápice). Trata-se de uma atualização da já famosa MILF (Mom I’d Like to Fuck, mães com as quais eu gostaria de transar), uma das categorias mais procuradas do universo pornô e que se refere a mulheres “maduras”, autoconfiantes e sexualmente assertivas. O termo se popularizou quando usado na comédia pastelão American Pie, de 1999, para se referir à mãe do personagem Steve Stifler. Mas vale ressaltar que embora a maternidade seja a principal característica desse “arquétipo”, fazendo alusão à mãe bonitona do amigo de escola, muitas vezes a personagem é interpretada por uma atriz que mal saiu da adolescência — e que estava fazendo papel de “novinha” dez meses antes.

Body Neutrality

Simone Marinho, fotógrafa carioca radicada em São Paulo, questionou a velhice feminina como exclusão social no seu ensaio “Senhoras de Biquini”, que ilustra este texto e apresenta mulheres maduras posando na praia, alegres, no sol, curtindo a vida, sem se preocupar com rugas, gordurinhas, excesso de pele exposta. Ali, o importante não é ser WHIP ou MILF. A preocupação de estar “inteira”, “conservada” e “bem para a idade” é inexistente. Tampouco é relevante se é mais adequado uma senhora estar na praia de biquini, maiô ou burca. São apenas mulheres, de determinada idade, que vivem a vida, como sempre viveram, igual a todos nós. De certo modo, a escolha de enfoque das fotografias dialoga com a proposta de substituição do termo body positivity (positividade do corpo) por body neutrality (neutralidade do corpo). Isso porque o primeiro induz as mulheres a afirmarem o amor pelo seu corpo do jeito que ele é. Mas, quando o “fingir até conseguir” falha, pode vir o efeito oposto, diminuindo ainda mais a autoestima. Se pensarmos a respeito, por que homens não necessitam amar seus corpos? Podem estar calvos, barrigudos, com pelos em excesso e, mesmo assim, a maioria não se sente diminuída por isso. Então por que nós nos desesperamos tanto com a calça que não fecha e com o passar do tempo e o mudar do corpo?

Senhoras de Biquíni: Maria Thereza Azevedo, 76 anos, Osmarina de Almeida Castro, 58 anos, e Arminda Martins, 62 anos. Fotos de Simone Marinho

Em resumo, body neutrality foca no que seu corpo é capaz de fazer, e não como ele aparenta. Se as funções básicas para as quais ele foi desenvolvido funcionam, ok, tudo certo. O termo foi cunhado em 2015 por Anne Poirier, da Universidade Colby-Sawyer, em Vermont. Para ela, amar o corpo do jeito que ele é não é um objetivo realista. Alison Stone, psicóloga radicada em Nova York, concorda: “Quando passamos menos tempo pensando sobre nossos corpos, podemos focar em outras coisas. A obsessão silenciosa em julgar e criticar a nós mesmas gasta muita energia mental. E assim não vivemos o momento presente.” Assim, uma vez que desassociamos nossa personalidade do nosso corpo, nos vemos livres para usar a roupa que queremos, namorar quem desejamos, mergulhar no mar durante o verão — afinal, o sol nasce para todos.

 

Maria Clara Drummond é jornalista e escritora, autora dos romances A Realidade Devia Ser Proibida (editora Companhia das Letas, 2016) e A Festa É Minha e Eu Choro Se Eu Quiser (editora Guarda Chuva, 2013)

1 Comentários

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Uma resposta para “Senhoras de biquíni: porque a liberdade não tem prazo de validade!”

  1. Andrea Palermo Corte Real disse:

    Bárbaro!! Adorei. Parabéns pela belíssima reflexão! Sigamos empoderadas!!!

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