Sentimos, logo compramos – ou não

No início da década conectada, os novos consumidores são obrigados a refletir sobre o que realmente desejam

30.07.2020  |  Por: Natália Albertoni

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Sentimos, logo compramos – ou não

Natalie Hornos acabou de se mudar para Guaianases, em São Paulo, com a namorada. Na laje da casinha, elas estão organizando os vasos com cenoura, tomate e couve que trouxeram da morada anterior. Experimentar essa vivência que, normalmente, a cidade nos rouba, está entre as prioridades da antropóloga, para quem é muito revolucionário plantar o próprio alimento e fortalecer redes de distribuição. Especialmente num lugar onde as pessoas fazem conta pra comprar comida e cidades vizinhas muitas vezes são mais próximas do que os centros urbanos. “Passar por novos hábitos de consumo implica em mudar o jeito que a gente mora. Ainda assim, claro, estamos dentro da lógica da propriedade privada, então, tenho que guardar dinheiro. Mas esse regate de relações mais comunitárias é um caminho urgente pro combate ao modo de vida capitalista que tá gritando: a terra não aguenta”, diz Natalie.  

Ser ativo, relevante e investir na própria comunidade são traços de um novo perfil de consumidor que deve ganhar cada vez mais adeptos até 2022, segundo a previsão anual da WGSN. A passos largos, os consumidores comunitários investem na economia circular e em iniciativas sustentáveis, como marcas que dão novos usos  a acervos parados, por exemplo. Eles também questionam a lógica imperante que valoriza o trabalho acima de qualquer relação – inclusive para que se possa ganhar mais dinheiro para comprar mais coisas. E constatam que é muito last season a ostentação da agenda cheia de compromissos, sete xícaras de café e falta de sono. Afinal, além dessa soma não significar produtividade, muitas vezes é sinônimo de frustração e estresse.  

Sentimentos de ruptura também acompanham os estabilizadores. Entre eles o culto à produtividade vai sendo substituído pela aceitação. A regra é combater o excesso: do lixo a relações tóxicas. Simplificar processos e otimizar oportunidades, até como uma reação à sensação constante de exaustão. Chega de querer ser bom em tudo e bora jogar energia nas prioridades? Focar no que somos melhores pode ser libertador e estratégico. E estimula negócios, como o mercado de life coaching –cada vez mais consolidado e específico. 

E, então, há os novos otimistas, meus preferidos. Estes têm fome de felicidade e querem mais é festejar. O quê? Dos mais simples acontecimentos da vida social, que hoje podem ser dancinhas pra derramar endorfina, às conquistas da vida profissional. Aqui a máxima é menos ghosting e masturbação intelectual com aquele crush idealizado e mais gozo e troca de verdade mesmo. Caçadores de aventuras, eles já fazem compras usando recursos de live streaming, realidade aumentada e virtual, até porque assim podem seguir com os compromissos com os amigos and experimentar um produto – ambos da própria casa.

No início da década conectada, estamos com sentimentos à flor da pele enquanto somos obrigados a refletir sobre o que desejamos, afinal. E, seja qual for o seu tipinho, com todas as mudanças sociais, políticas e econômicas, a conclusão é que vamos focar no que é verdadeiro.  Sentimos, logo compramos – ou não. 

 

Natalia Albertoni é jornalista, meio camaleão. Cria, desenvolve e executa estratégias de relacionamento com a imprensa e de PR pra marcas, produtos e serviços

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