Sim: vai ser de quatro e descendo até o chão

Faz cerca de 40 anos que o funk brasileiro pede passagem – quem não pegar o bonde vai ser (ou já foi) atropelado por ele. Estar no palco do Grammy é a consagração de uma longa trajetória 

17.03.2021  |  Por: Lia Bock

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Sim: vai ser de quatro e descendo até o chão

O funk carioca, que na gringa podemos chamar de brasileiro mesmo, está entre nós desde a década de 1980. Surgiu da fusão de um estilo musical chamado Miami Bass com o funk que já tínhamos importado do Bronx (NY) na década anterior. Ficou relativamente contido neste ninho musical embrionário (e maravilhoso) que é o Rio de Janeiro, até a década seguinte. Porque em meados de 1990, meu amor, quem era do babado, e das pistas, já estava sacudindo ao “som de preto, de favelado, mas quando toca, ninguém fica parado”. O LP Funk Brasil, lançado pelo DJ Malboro em 1989, amarrou todas as pontas para que os anos 90 fossem o começo da curva de sucesso, que só sobe desde então.  

Tudo isso pra dizer que o funk batalhou muito pra chegar ao palco do Grammy. E fez isso exatamente como ele surgiu: subvertendo e ocupando sem pedir licença. O funk não estava lá pra ganhar um prêmio, estava para dar um tapa na cara mesmo, pra mostrar que não precisa da indicação de nada e nem ninguém pra arrasar naquele palco. 

Gente, eu vibrei! Mas vamos voltar pra história que nos trouxe até aqui. 

No meio da década de 1990 o funk já estava consolidado no Rio, tinha baile em tudo que é canto e espaço para os diversos MCs (como Marcinho, Claudinho & Buchecha e Junior & Leonardo), a maioria criada nas periferias e favelas da cidade – só não tinha muito espaço para as mulheres, mas esse erro foi corrigido um pouco mais adiante. A Xuxa também deu sua forcinha (avassaladora) botando funkeiros pra cantar em seu programa infantil. O intelectual Hermano Vianna também fez sua parte, levando o funk para dentro da academia.

E assim o funk entrou no ano 2000 firmão. Tinha baile famoso no mundo todo, tinha LP circulando (lembrando que mal tinha internet, quanto mais streaming), o DJ Malboro incansável, a Xuxa e as primeiras MCs de sucesso, como Tati Quebra Barraco e Deize Tigrona. 

Nessa época, havia outros estilos musicais concorrendo nas pistas de dança; a cena eletrônica tomava força com grandes estrelas como os DJs Patife e Marky. Tinha drum’n’bass, techno, trance – não necessariamente nessa ordem. E, tinha, claro, toda a atraente cena raver. Mas o funk comeu pelas bordas – por que não dizer pelas periferias? Se encaixou na cena com seu peculiar jogo de quadril e jogou aqueles refrões incansáveis em pistas lotadas, fervidas e fritas. As músicas não variavam muito e até por isso funcionou. “Eu só quero é ser feliz. Andar tranquilamente na favela onde eu nasci. E poder me orgulhar. E ter a consciência que o pobre tem seu lugar. Fé em Deus!” Eu e meus amigos nunca tínhamos morado na favela, não éramos pobres e também não acreditávamos em Deus, mas a gente cantava isso a plenos pulmões. 

Muita gente não gostava. Olhava torto da mesmíssima forma que fizeram com o axé. E o funk ligou? Não. Seguiu ocupando periferias e bordas até atingir facilmente todo território nacional. Preparou direitinho o terreno para a década de 2010, sua explosão mundial.

Não faltaram polêmicas para colocar lenha na fogueira midiática (e por que não dizer elitista?). Vimos todo o rebuliço em torno do “proibidão”, com letras altamente agressivas e que até incitam a violência contra a mulher, vimos uma cena fortemente sexualizada que demorou a acostumar os olhos e também o quiprocó das crianças cantando e dançando músicas com letras nada infantis. Mas tudo foi se encaixando ou saindo de cena sem jamais derrubar a fortaleza que o funk se tornou. Os gringos começaram a abraçar o funk, pra alegria e uns e desespero de outros. Daí, quando Konrad Cunha Dantas vira Kondzilla, e Larissa vira Anitta, o bagulho fica louco, altamente profissionalizado e pop. Pronto: Tava tudo dominado e gostar ou não gostar passou a ser um mero detalhe. Mas que fique registrado: Caetano gosta! Para detalhes e minúcias da história recomendo esta reportagem do Camilo Rocha no Nexo.

E aqui está ele, o funk, 40 anos depois, já bem mais maduro, divorciado algumas vezes e com potentes vozes femininas pra gritar que a gente se sexualiza se a gente quiser. Sob aplauso ou vaia, a realidade é que o funk conseguiu uma proeza, ele une gerações em dancinhas coordenadas e “bate com a bunda no chão” sem que isso seja visto como indecente. Alguns podem até criticar o excesso de bundas femininas e a esfregação, mas usar isso para derrubar o funk seria ingenuidade. Essa expressão popular fala muito sobre o Brasil, fala sobre referências, sobre desigualdade e sobre efervescência cultural periférica, tudo isso lotando pistas, conquistando territórios e espalhando bundas por aí. Não foi à toa que Anitta foi aplaudida em Harvard quando disse que “pra mudar as letras do funk é preciso mudar o contexto da realidade de quem nasce na área onde surge o funk”. Touché! A recusa ao funk é também uma recusa à realidade brasileira, e por isso acaba sendo em vão.

De 2010 em diante, as redes sociais deram a contribuição definitiva para a naturalização dos quadris requebrando. Foi graças a elas que a turma pode desenhar (ou melhor, filmar) que vai ter passo a passo de quadradinho, sim, e vai ter também mãe, filha e talvez até avó mostrando que “a bunda dela bate, bate, bate”. Foi aí que o funk virou patrimônio cultural imaterial do Rio de Janeiro, virou ostentação em carros conversíveis, joias e versos que celebravam que “os humilhados sempre vão vencer”, abrindo caminho para os anos 2020, que começam com Cardi B de quatro, em português, na festa tradicionalmente comportada do Grammy. 

E para aqueles que perguntam, mas e o machismo? Pois é, seguiremos combatendo essa chaga no funk, no punk, na fazenda ou numa casinha de sapê. E claro, pensando sobre limites, bom senso e idade pra adentrar o baile, como fazemos em todas as outras coisas na vida. É controverso? É! Bem vindos ao Brasil! 

 

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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