Sobre envelhecer no novo ‘Sex and the City’

Em um momento em que as mulheres 50+ estão com tudo, a série 'And Just Like That...' só enfraquece a revolução

16.02.2022  |  Por: Kika Gama Lobo

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Sobre envelhecer no novo ‘Sex and the City’

Sou da gema. Madura. Cabelos e pentelhos brancos. Ensaio este prefácio ageless para comentar aqui a baboseira que se tornou o seriado Sex and the City versão 50+. A primeira temporada de And Just Like That… na HBO Max já acabou e não melhorou. Fiquei desapontada e com uma certa ira.

Amamos as peripécias daquelas quatro mulheres nos idos de 1998. Curtimos os filmes. Hoje, apenas o trio vingou e a sapeca RP tarada Samantha Jones (Kim Cattrall) escafedeu-se, bem como Mr Big (Chris North) morreu no primeiro episódio, causando uma comoção estranha. Como assim o bonitão falece?

Entre falas infantis, comportamentos bizarros e atitudes débeis, não dá nem para valorizar o incrível figurino (sim, ele permanece afiadíssimo) nem salvar a série. E o roteiro tinha tudo para barbarizar. Estamos em um momento da vida das 50+ hiper revolucionário. Estamos por toda parte. Transando, trabalhando, mandando ver. E no seriado aparecemos enfraquecidas, mesmo envergando rugas, flacidez, cabeleira grisalha, não há perdão. Tô até pensando em oferecer um coach gratuito para as gringas.

Tem gay, lésbica, latinos e negros, mas o tema do envelhecimento feminino tem que ser melhor trabalhado

Entendo que as brasileiras podem sacar melhor de Brazilian wax, mas há uma parcela substancial das tupiniquins maduras que está mandando muito bem no assunto. Tenho um punhado de balzacas famosas ou não que estão dando um show de não-etarismo, musas antiidadismo. De Claudia Raia a Cris Guerra, passando por Miriam Goldberg e Gloria Pires. Somos tantas, diversas, únicas.

Mas confesso que concederei uma nova chance a Sarah Jessica Parker e a sua Carrie Bradshaw numa possível nova temporada. Quem sabe não dá uma melhoradinha? Já acertaram colocando mais diversidade na obra. Tem gay, lésbica, latinos e negros, mas o tema do envelhecimento feminino tem que ser melhor trabalhado. Ficar velho não é uma merda total. Não é demência à vista, artrite e incontinência urinária. Claro que não há garantia de blindagem das mazelas, mas amadurecer virou pop. A população mundial está vivendo mais. Precisamos ressignificar o tempo.

Outra pegada a ser melhor explorada é a viuvez da Carrie e a solidão da mulher que amou muito no passado. Menopausa e melancolia na pauta do dia. Nem tão ao luto nem tão ao descaso sobre a realidade. Impressiona como as rodas de conversas no trabalho, na academia e no Zoom versam sobre a série. Então, em tempos pandêmicos, vamos dar uma atualizada no roteiro e um reset nos delírios. Não dá mais para vivermos numa bolha de um closet achando que a vida é aquela bobajada consumista. Hello, acordem, rainhas descalças. A revolução será maior quando os pés estiverem no chão. Vai por mim. Palavra de carioca.

 

 

Kika Gama Lobo é ativista ageless por meio de suas plataformas online Atitude50 e o Kikando na Maturidade. Palestrante, Youtuber e criadora de conteúdo digital online, valoriza a maturidade, ostentando sua cabeleira toda branca, mesmo não tendo ainda 60 anos. Ousada com as palavras, ácida em seu pensamento, escancara o seu dia a dia mas redes. Carioquíssima, trabalhou anos para o mercado de luxo internacional mas não esquece de apontar regularmente as desigualdades em sua cidade. Formada em História pela PUC-Rio, mas atuando no mercado de comunicação empresarial por mais de 35 anos, escolheu o digital para se comunicar com sua nova audiência

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