Sobre o que os homens conversam?

Se já é difícil para um homem abrir o seu coração, imagine encontrar um amigo bem resolvido emocionalmente para pedir conselhos

21.09.2021  |  Por: Lia Bock

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Sobre o que os homens conversam?

A gente tem falado muito sobre masculinidade tóxica, que diferente do que muita gente pensa não é só o boy abusivo ou o protótipo do hétero escroto, e sim, todo o conjunto de formas de educar e existir que podem culminar em rapazes violentos, mas antes disso deixa um monte de sujeitos emocionalmente capengas na face da terra. Homens sentimentalmente analfabetos que não sabem ler a si, aos outros e tudo que se passa ali no meio. Sim, é grave!

Uma das coisas que mais me chamou a atenção na entrevista que fiz recentemente com o jornalista Ismael dos Anjos, coordenador do projeto que resultou no documentário ‘O Silêncio dos Homens’, foi justamente sobre a parte da conversa. Não é que os homens não conversem, eles tomam cerveja e trocam figurinhas, mas o teor desse teretetê é que intriga. Pouco se fala sobre sentimentos profundos, pouco se fala sobre medos e inseguranças, pouco se fala sobre dificuldades sexuais e desejos obscuros. Isso porque, explica Ismael recorrendo aos dados do documentário, os homens nunca foram estimulados a se cuidarem, existe até uma certa romantização em ser largado, em não ligar para os sentimentos e nem para veias entupidas.

Pois essa negligência mata. Não só de doenças coronarianas não diagnosticadas a tempo, mas também às mulheres, vítimas desse analfabetismo que não consegue passar do uga-uga simplista: “se não vai ser minha, não vai ser de ninguém”. A vontade é dizer um simples: “melhorem”, mas o didatismo precisa ir além. Afinal, precisamos salvar as nossas vidas.

Pois cá estou para deixar um alerta pra quem tá querendo ser uma pessoa melhor: lide com suas emoções, fale de si, fale de seus sentimentos, mas pelo amor de deus, não fala com qualquer um! Em casos mais graves procure um psicólogo, me procure, mas não peça a opinião de…. outro analfabeto emocional! Pronto, falei.

Parece piada, mas veja: você não vai ao posto de gasolina por causa de uma dor dente, então por que raios vai abrir seu coração partido pra fulaninho que nunca tomou um pé na bunda na vida? Os manos falam tão pouco que dá muita dó quando recorrem a um confidente, digamos, deturpado. É preciso lembrar que se historicamente os homens têm dificuldade de lidar com as emoções e se cuidar, a chance de se aconselhar com alguém do sexo masculino que não sabe juntar lé-com-cré no quesito sentimentos é enorme.

“Ah, Lia, mas papo de bar todo mundo consegue ter”. E esse é o problema. Imagina a pessoa que mal olha para os seus próprios sentimentos servindo de confidente pra falar de algo que ele mesmo nunca enfrentou? A conversa vai acontecer? Vai. Agora, se vai ser proveitosa, já não dá pra dizer.

Essa pré-seleção de pessoas para abrir o coração é importante. Se não vai ser alguém especializado, que seja ao menos uma alma vivida, que já quebrou a cara aqui e ali, que sentou no divã do terapeuta um par de vezes ou se abre a discussões encrespadas sobre desconstrução. Esquece os esquerdomachos que vestem a carapuça do homem sensível, mas colecionam ex raivosas e cheias de histórias feias. Esquece também aquele amigão que adora fazer piadinha sobre as mulheres ou o tipo que prega a monogamia enquanto coleciona amantes? Obrigada. De nada.

E, vejam, de forma alguma estou desestimulando os rapazes de abrirem seus corações. Ao contrário, eu, por mim, receitava papos semanais sobre tudo que se passa entre o púbis e o cérebro para todos os seres humanos. Mas pelo amor das deusas, não desperdice esse momento de troca com moços que ainda estão no jardim de infância das emoções.

Lia Bock é jornalista e mãe de quatro. É comentarista na CNN Brasil e autora dos livros Manual do Mimimi, do Casinho ao Casamento e Vice-versa e Meu Primeiro Livro, ambos pela Cia. das Letras

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