Superando o complexo de vira-lata

Fazer faculdade mudou a minha história da garota da periferia. Mas ser bolsista do ProUni me deu um banho de realidade brasileira

02.04.2018  |  Por: Larissa Vitoriano

image
Superando o complexo de vira-lata

Escolher uma profissão aos 17 anos não é uma tarefa fácil. Pensar num ofício pra vida toda, no sustento financeiro e juntar tudo isso com afinidades, é barra pesada. Ainda mais quando o ciclo escolar está acabando e todas as referências dos últimos 11 anos parecem estar com a validade vencida.

Porque nada do que eu tinha feito durante a adolescência se parecia com o futuro que eu queria pra mim. Tinha sido vendedora de sorvete em shopping, balconista, atendente de telemarketing e por aí vai. Ah, sim, porque da onde eu venho adolescente trabalha. E eu queria ir mais longe:  o caminho dos estudos. Porque foi isso que sempre escutei: “Se você quer ser alguém na vida, tem que ir pra faculdade.” Então vamos.

Pra quem vem de escola pública as principais alternativas são: prestar o Enem e conseguir uma bolsa ou deixar o salário todo numa mensalidade (barata) nas ditas faculdades populares. Universidade pública, pra quem precisa delas, está fora de cogitação. Ralei, estudei sozinha nos horários alternativos ao trabalho e tirei uma boa nota no Enem.

Consegui minha primeira opção e fiquei radiante. Quando vi meu nome escrito no site quase não acreditei. Era uma grande realização. Eu era bolsista integral pelo ProUni e meu sonho de ser a segunda pessoa da família numa universidade havia se realizado. A primeira foi minha irmã mais velha, no mesmo cenário.

Fiquei deslumbrada com a ideia. Após o processo burocrático e da papelada para a comprovação de renda, fiz a matrícula e a garota da Vila Nova Cachoeirinha – região do extremo norte paulistano – estudaria na Vila Mariana. Não sabia como chegar lá e nem conhecia o bairro, mas estava disposta a enfrentar o que estava por vir.

Tudo era muito diferente do que havia experimentado e do que eu tinha como referência de ambiente escolar. O mais louco foi descobrir que não sabia estudar. Bater a média cinco e fazer as apostilas coloridas do governo era mole. Na universidade o buraco era mais embaixo. A minha base era inferior à dos meus colegas e percebi que precisava estudar o dobro. Como bolsista nem cogitava ir mal nas provas, afinal, eu não tinha grana para bancar a mensalidade.

A principal dificuldade era trabalhar durante o dia e não poder me dedicar totalmente ao curso, como muitos dos colegas. Tudo era sempre muito longe da minha casa e o horário de estudo passou a ser o do trem e o do ônibus. Às vezes batia frustração. Sempre faltava algo. A sensação de estar perdendo uma grande oportunidade por estar cansada era terrível.

Contudo, de todas as frustrações, a maior era a sensação de se sentir um E.T. Eu era a cachorra vira-lata. A exclusão social era pesada demais.  Em casa, já não me identificava com as garotas do bairro, que cresceram comigo. Elas viviam em um universo que eu considerava pequeno demais. Nenhuma delas estavam na faculdade e eu só sabia falar sobre isso. Além do mais, eu passava o dia todo fora e a cidade tinha dobrado de tamanho. Na Zona Sul tudo era diferente: as pessoas, os cheiros, o metrô.

Em compensação, na faculdade ninguém sabia onde a Vila Nova Cachoeirinha estava no mapa. Eu era a única bolsista integral numa sala de quase 60 pessoas. Comecei a achar até o meu jeito de falar estranho. Minhas gírias, típicas da periferia, não faziam parte daquele cenário acadêmico, recheado de pessoas com vários carimbos no passaporte.

Mas aqui é preciso reconhecer meus privilégios também. Sou a garota branca da periferia. Não tenho dúvida que se fosse negra as coisas seriam muito mais difíceis. Havia apenas dois alunos negros na sala e era nítido que até mesmo os professores não sabiam como tratar essa questão.

Mas eu não queria me isolar. Eu queria pertencer. Já estava na metade do semestre e não tinha amigos. A maneira que encontrei foi estudar. Busquei por teóricos que de alguma forma entendessem o que eu estava sentindo.

Nelson Rodrigues e o seu complexo de vira-lata foram meus companheiros. Sei que não é tão simples assim, mas encarei de frente que eu mesma acabava me colocando naquela situação na relação que criava com meus colegas. Eu precisava ter outra postura naquele outro mundo. Foi o que eu fiz.

Não foi do dia pra noite, mas aos poucos fui me adaptando. Trazia minhas experiências e parei de pensar que elas eram menos instigantes que as dos demais. Mas a verdade é que, mesmo depois de formada, ainda tenho resquícios dessa inferioridade que a sociedade me impõe. Ainda hoje quando entro na faculdade não me sinto parte daquele mundo. Consigo crescer por dentro quando penso que ocupei um lugar que não estava reservado pra mim e, claro, tenho uma profissão. Isso, complexo nenhum me tira. Mas vivo me perguntando: até quando vou me sentir a vira-lata se já “sou alguém na vida”?

Larissa Vitoriano é jornalista e a segunda pessoa de sua família a fazer faculdade. Atualmente trabalha como freelancer

6 Comentários

Comentar

6 respostas para “Superando o complexo de vira-lata”

  1. Alessandra Braz Dos Santos disse:

    Todo dia me sinto assim, tb vim de família humilde e até hoje não sei transitar no mundo vou ali na Grécia /como filé mignon diariamente/ não me preocupa os boletos, qualquer coisa papai paga. Quando? Até quando?

Deixe uma resposta