Suspiros de uma China feminista

Como um país com uma cultura patriarcal milenar sufocou os primeiros respiros das mulheres independentes, em meados do século XX, e como um novo movimento só despontou por volta dos anos 2000, com a disseminação da internet

11.12.2018  |  Por: Fernanda Ramone

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Suspiros de uma China feminista

Uma atividade ou linguagem complicada geralmente destinada a obscurecer e confundir é entendida como mambo jambo, e entre as definições para o termo há sempre complicações, medos, superstições e ritualística envolvida. Há rumores de que a expressão pode ter sido o nome de um ídolo africano. Pois o feminismo chinês é meio mambo jambo. Ganhou espaço no período pós-Imperial, lá em 1911, mas da mesma forma que foi admirado, foi logo contido e estancado.

Ele chegou a Xangai de forma bem natural e orgânica, ao som do jazz, ritmo de matriz africana. A cidade era cosmopolita e portuária, destino e morada de comunidades estrangeiras, em especial a francesa, e tornou-se o palco principal para os espetáculos musicais que deram o pontapé no protagonismo feminino.

A imagem de jovens vedetes chinesas trajadas de autonomia em vestido de gala, maquiadas, cantando e ocupando o espaço central do palco, das rádios, e mais tarde do mercado publicitário e do cinema, contrastava, por exemplo, com a realidade das mulheres que tinham os pés pequenos. Pés amarrados ainda na infância, deformados pelo fetiche masculino e, lembremos, limitador de grandes caminhadas, corridas e eventuais fugas dessas terras patriarcais. As transformações estruturais trazidas por essas musas causaram impacto num território que ainda lidava com concubinas, eunucos e casamentos poligâmicos arranjados.

De início, a pauta das feministas chinesas dialogava com as propostas dos movimentos revolucionários (enquanto não chegam ao poder, essa troca era conveniente). As divas do jazz de Xangai fizeram sua resistência. Zhou Xuan, 周璇 , a voz de ouro e vedete principal do grupo de jazz que ficou conhecido como o Grupo das 7, causou estardalhaços apenas pelo fato de ser quem era. Casou-se várias vezes e teve dois filhos de pais diferentes. Divorciou-se algumas vezes, o que não era nada comum na época. Foi independente, ousou cantar a sedução e se colocava como uma mulher autônoma.

Quiseram pintar de moda passageira o que seria a revolução das mulheres

Esse novo estilo de vida teve um preço. Zhou Xuan sofreu forte pressão de uma sociedade que a via como diva, mas, no fundo, não a compreendia. Foi obrigada a passar algumas temporadas em clínicas psiquiátricas e morreu cedo, não tinha 40 anos. Por muito tempo na China, ousadia feminina, diversidade sexual e de ideias e homossexualidade foram tratadas como doença mental.

As divas do jazz, feministas de vanguarda, estavam neste grupo dos incompreendidos. Se expressar como mulher, interagir com outras culturas e protagonizar a si mesmas era visto como um ataque por uma sociedade milenar até então acostumada à Ópera de Pequim, onde o feminino era interpretado pelo masculino.

Mas elas seguiram ocupando seu espaço até a instauração da República Popular da China, em 1949, quando foram definitivamente caladas. Não interessava mais o diálogo com o movimento das mulheres. As divas viraram tabu e o jazz que cantavam passou a ser considerado música de sedução de uma era decadente. Sim, quiseram pintar de moda passageira o que seria a revolução das mulheres.

Era preciso controlá-las. E assim foi feito. Transformadas em fúteis e decadentes, elas voltaram a ser submetidas a um forte sistema machista e patriarcal, onde apenas no submundo era possível respirar ares feministas. Um novo movimento só submergiu e despontou na superfície por volta dos anos 2000, não por acaso junto com a disseminação da internet. Desde então, mulheres têm atuado no país em parceria com movimentos LGBT para arejar a cultura milenar e mostrar que sua autonomia não pode ser tratada com remédio.

 

Fernanda Ramone morou por nove anos em Pequim, foi correspondente internacional da TV BandNews, trabalhou na Rádio Internacional da China e é idealizadora dos festivais FestYin e e DocBrazil Festival

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