Tolerância religiosa de Instagram

Existe uma gentrificação espiritual em curso nas redes sociais?, questiona Gaía Passarelli diante da 'invasão branca' à festa de Iemanjá em Salvador

06.02.2019  |  Por: Gaia Passarelli

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Tolerância religiosa de Instagram

Cheias de música e altamente visuais, as cerimônias de candomblé, umbanda e demais cultos de matriz africana encantam mesmo. Eu sei porque quando cheguei, incentivada pela minha mãe e pela minha irmã, a um terreiro de São Paulo, em fins dos anos 1990, minha primeira sensação não foi de rompante espiritual irresistível. Foi de deslumbre — olha isso, ouve essa música!

É impactante mesmo, e com o tempo tive que superar o desconforto de não estar no meu lugar. Isso significou entender não o que a espiritualidade queria de mim, mas ou o que eu queria dela. A casa que frequento foi essencial para que eu aprendesse a pertencer. Casa não, porque é importante chamar as coisas pelo nome que elas têm: é terreiro.

Meu terreiro, o lugar que escolhi e me abrigou, me mostrou que eu era bem-vinda a participar, e também a aprender sobre os tambores dos ogãs, pontos cantados, entidades, sincretismos e demais idiossincrasias da umbanda. O terreiro me abriu a oportunidade de aprendizado. Eu disse sim.

Então entendo o sim dito por todo mundo que vai debutar na festa do Rio Vermelho de Salvador, no dois de fevereiro, para saudar Iemanjá. A festa, sempre à beira do mar, é uma das maiores celebrações religiosas do Brasil. E em 2019 parece que toda a juventude dourada de Rio e São Paulo que habita meu Instagram baixou por lá.

Senti vontade de saber o que pensa quem é do candomblé baiano e vê sua festa invadida e compartilhada sem entendimento de seus significados. Quem faz disso sua vida acha normal essa glamourização? Existe uma gentrificação religiosa em curso nas redes sociais?

Conversei com Roger Cipó, fotógrafo, youtuber e pesquisador da construção da imagem nas religiões negras do Brasil. A apropriação é sobre racismo, e racismo é sobre como nossas relações estão estruturadas, inclusive como a arte e a cultura, os símbolos e condições de humanidade, são hierarquizadas. Em relação à festa de Iemanjá existe um movimento, como existe com todas as manifestações, de passar por um embranquecimento, para que seja validada na sociedade, seja aceita. Essa aceitação também quer dizer tornar vendável.”

Em terreiro não se nega ninguém. O bonito alio está em receber as pessoas independentemente de origem, credo, orientação, cor e idade. Dada essa abertura toda, não é de estranhar que tanta gente procure as bênçãos de Iemanjá a cada começo de fevereiro.

Roger também lembra que “as manifestações de religiosidade do candomblé são conhecidas pela nossa sociedade. Todo mundo pratica em algum tamanho, da forma mais ínfima que seja, algo da religiosidade afro-brasileira, seja nos banhos, seja no benzimento, seja na relação com a música, porque o candomblé constituiu a nossa sociedade brasileira, enquanto cultura, enquanto arte. As pessoas sabem disso e mesmo assim colaboram para a invisibilização. É uma veia cínica do racismo.”

Como se faz para preservar o genuíno dessa festa? Essa é a questão

As festas de religiões de matriz africana são importantes como espaços de celebração e também como resistência, e são especialmente importantes num momento em que vemos o aumento dos casos de intolerância religiosa explodirem no país. Há duas semanas, perto do Dia de Combate à Intolerância Religiosa (21/01), fiz uma série de postagens no Instagram sobre minha relação com a religião, respondendo (até onde posso) perguntas de seguidores. Tá aqui. Fiquei impressionada com o retorno, porque descobri que muitos seguidores são de terreiro e não falam sobre isso por medo de preconceito no trabalho, na escola ou em outras relações sociais. Por que quem usa guia é “macumbeiro” e na nossa sociedade essa palavra carrega conotação pejorativa.

Para o coletivo de jornalistas com foco em questões da população negra Alma Preta Jornalismo existe, sim, um problema. “É aquela história: no dia dois diz odoyá, mas passa o resto do ano dizendo ‘chuta que é macumba’. Muito dessa imagem embranquecida dos orixás vem, principalmente, do sincretismo religioso resultante da proibição do candomblé durante a escravidão. Se não existe essa compreensão, não adianta postar ‘gratidão’ no dois de fevereiro.”

A empresária Luciana Paulino, da agência de viagens afro Black Bird, lembra que há outros motivos para “camarotização” da festa de Iemanjá — que, aliás, este ano foi divulgada em Salvador como Festa de Dois de Fevereiro. “Este ano também foi muito cheio porque calhou de cair num fim de semana. E tem o fato de Salvador ter saído na lista do New York Times como um dos lugares essenciais para se visitar em 2019, teve a novela também, e um certo modismo dessa coisa de Bahia mística. Resultado: tava uma loucura aquilo lá.”

Luciana também acredita que o aspecto popular e gregário da festa é o mais importante. “Como acontece com o carnaval, essa é uma festa popular e a classe média quer ser parte do seu jeito. Então tem essa camarotização. E é uma festa que abraça todo mundo mesmo. Como se faz para preservar o genuíno dessa festa? Acho que essa é a questão.”

O pessoal do Alma Preta Negra afirma que “a popularização das religiões de matriz africana é bem-vinda, mas é preciso respeitar o sagrado, procurar entender seus significados. Em geral, entender que o orixá é africano, negro. Não existe Iemanjá branca, quem é branca é a Virgem Maria. Tem que ter respeito pelo candomblecista ou umbandista que está de branco com suas guias, assim como se tem com padres e freiras”.

Para Roger, que também é ogã (responsável pela curimba, ou tambor de candomblé), não é inviável a participação de pessoas brancas na religião e em suas celebrações:

As pessoas brancas precisam entender que as tradições pretas são os únicos espaços sociais onde pretos e pretas podem experimentar o protagonismo de suas humanidades. São em espaços como esse que nossa gente é vista e respeitada como importante, como essencial, e não descartada como nos empregos e escolas. O grande equívoco é que as pessoas brancas querem protagonizar tudo, isso é marca do racismo que coloca a branquitude no centro e marginaliza o preto, no sentido de colocar à margem, não dar importância. Pessoas brancas nunca, ou pouco, pensam sobre seus lugares de normalidade. Então, a minha dica para quem quer participar é que veja na sua caixa de privilégios o que você tem para viabilizar essas ações. Não tô falando de ser branco salvador, mas de coisas práticas. Se você tem grana, entenda que essas tradições sobrevivem na resistência e ajude financeiramente, compre dessas pessoas, doe para os blocos. Se você é comunicador(a), conte essas histórias, espalhe essas notícias sem a lente fetichista sobre nossos espaços. E se desloque do centro, se desconforte, porque o racismo proporciona seu conforto em detrimento dos corpos pretos.”

Gaía Passarelli é jornalista e escritora, autora de Mas Você Vai Sozinha? (Globo Livros, 2016). Nascida e criada em São Paulo, mora num prédio velho da Bela Vista com o filho, três gatos e uma crescente coleção de guias de viagem. Você a encontra no twitter @gaiapassarelli e no site gaiapassarelli.com

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