Tudo sobre o boom do CBD, a molécula da maconha que não dá barato e chega em breve às farmácias brasileiras

Comprovados os benefícios do canabidiol para o alívio de males que vão de insônia a problemas neurológicos, produtos se multiplicam numa alucinante variedade de formas: tintura, chocolate, linguiça, sorvete, shampoo, suco, água

11.03.2020  |  Por: Karla Monteiro

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Tudo sobre o boom do CBD, a molécula da maconha que não dá barato e chega em breve às farmácias brasileiras

Difícil precisar o momento em que o CDB – ou canabidiol – saiu do gueto dos tratamentos alternativos para os holofotes do mainstream. Para quem ainda não foi apresentado, CDB é uma das 113 moléculas da maconha, e que, ao contrário do THC, não é psicoativa, ou seja, não dá barato. Talvez tenha sido em 2013, quando a CNN exibiu um documentário intitulado Weed, capitaneado por Sanjay Gupta, o Drauzio Varella dos Estados Unidos. Entre pesquisas científicas e casos impressionantes, ele acompanhou a saga de Charlotte Figis, uma garotinha do Colorado que, aos 5 anos, sofria cerca de 300 convulsões por semana, ou 1.200 por mês. Àquela altura, os boatos sobre a eficácia do CBD para o controle da epilepsia e outros males neurológicos corriam tímidos. Sem alternativa, esgotadas as possibilidades da medicina convencional, os pais da menina que se debatia em frente às câmeras decidiram tentar. Pouco tempo após iniciado o tratamento, a severa epilepsia havia sido reduzida a duas ou três crises por mês.

Passados sete anos, o CDB está nas esquinas dos Estados Unidos, de Nova York a Los Angeles, e não só nos chamados dispensários, lojas especializadas em produtos ligados a maconha. Pelas leis americanas que vieram depois, o canabidiol entrou para a lista dos suplementos alimentares, e não demorou para estar disponível no mercado numa alucinante variedade de formas: tintura, chocolate, marshmallow, chiclete, pirulito, cookie, hambúrguer, linguiça, sorvete, suco, água, café, os mais variados produtos de beleza e até supositório vaginal. A lista de milagres prometidos não é menor: a cura ou pelo menos o alívio para inflamações, acne, dores crônicas, ansiedade, insônia, depressão, estresse pós-traumático e, inclusive, câncer. Para se mensurar o boom, os Stanley Brothers, fornecedores de Charlotte Figis à época das vacas magras, quando faziam experimentos embrionários para se chegar a plantas ricas em canabidiol e pobres em THC, são hoje donos de um império da maconha, nomeado Charlotte’s Web, estimado em dois bilhões de dólares. Segundo o jornal New York Times, numa reportagem intitulada Why is CBD Everywhere? (Por que o CDB está em todo lugar?), não poderia haver melhor salvador de uma pátria à beira do precipício.

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Mas funciona? Os produtos disponíveis no mercado são vagos sobre as propriedades clínicas do CBD, já que o FDA, a Anvisa dos EUA, proíbe a indicação para fins medicinais. Qualquer um que vá ao Google digitar as três mágicas letras, porém, encontra uma infinidade de artigos e testemunhos sobre o canabidiol. A comunidade científica parece excitada. O CDB foi descoberto em 1960, pelo cientista israelense Raphael Mochoulam, que procurava responder a uma pergunta básica: por que a maconha deixa as pessoas chapadas? Mapeando a estrutura da planta, ele chegou tanto ao THC quanto ao CDB. Duas décadas depois, nos anos 80, outro cientista, o americano Allyn Howlett, considerado o pai da medicina canábica, descobriu que o ser humano, assim como a planta, possui um sistema endocanabinóide. Ou seja: produzimos naturalmente o CBD. Os endocanabinóides e receptores são encontrados em todo o corpo: no cérebro, órgãos, tecidos conjuntivos, glândulas e células do sistema imunológico. Sendo assim, o potencial dos tratamentos com canabidiol é grande. Hoje existem pelo menos 150 estudos em andamento nas principais universidades americanas na busca de respostas definitivas.

O lado bom da erva

“O CDB é o novo Bitcoin”, concluiu o New York Times ao explicar o alvoroço do mercado. Segundo o jornal, um em cada sete americanos já experimentou canabidiol em alguma forma e cerca de 60% usam a substância para aplacar a ansiedade, seguida de dores crônicas, insônia e depressão. A indústria floresce, com novos produtos pipocando nas prateleiras diariamente. Ao gosto do freguês. Se uma criança em tratamento não aceita a cápsula ou a tintura, pode comer um cookie de CBD ou chupar um pirulito, por exemplo. Para quem quer ingerir na forma líquida, existem águas, milk-shakes, sucos enriquecidos com canabidiol. Caso queira, também há a opção de loções, sprays, supositórios. Porém, nem tudo o que reluz é ouro. O respeitado JAMA – The Journal of the American Medical Association lançou o alerta: um grupo de pesquisadores analisou 84 desses produtos e descobriu que 69% deles não continham CDB algum. E outros apresentavam excesso de THC. O máximo permitido pelo FDA é 0,3%.

Curiosamente, foi dos Estados Unidos que partiu, nos anos 30, a cruzada contra a maconha. Até então, o milenar uso medicinal da cannabis atravessava gerações – tanto nas Américas quanto na Europa e Ásia. Reza a lenda que George Washington, inclusive, plantava a sua própria marijuana. Em 1930, todavia, a coisa começou a mudar, quando Harry Anslinger, um agente do Bureau of Narcotics, decidiu transformar a planta, associada à comunidade mexicana, na inimiga número um da juventude americana. Um filme marcou a época: Reefer Madness, também conhecido como Tell Your Children, de 1936. A histeria funcionou. Em 1937, a maconha foi proibida nos EUA, causando um efeito dominó no mundo. Oito décadas depois, apenas três dos 50 estados norte-americanos ainda não regularam o uso da cannabis para fins médicos e/ou recreativos. Se Reefer Madness demonizou a maconha, Weeds mostrou o lado bom da erva, 87 anos depois.

Enquanto isso, no Brasil

Num consultório elegante de Higienópolis, bairro nobre de São Paulo, a médica Carolina Nocetti pratica exclusivamente a medicina canábica. Sua agenda encontra-se lotada até o fim do ano. Apesar do obscurantismo que tomou conta do país, ela está contente com o trote das leis por aqui. Tendo se especializado e trabalhado nos Estados Unidos, inclusive dando consultoria para a Charlotte’s Web, admite que não estamos nem perto da linha de chegada, mas o Brasil, na sua opinião, resolveu começar pelo lado certo, regulando primeiramente o uso medicinal da maconha.

Em 2015, saiu a primeira RDC (Resolução da Diretoria Colegiada) da Anvisa. De acordo com essa portaria, o paciente precisava de três documentos para conseguir importar medicamentos à base de CDB: termo de responsabilidade, laudo e prescrição médica. O prazo para a obtenção da licença girava em torno de 75 dias, com validade de um ano. No fim de 2019, a Anvisa soltou nova RDC, descomplicando o processo. Agora basta a prescrição médica. E o prazo de validade da licença de importação subiu para dois anos. A regulamentação entrou em vigor no último dia 10 de março – e, com isso, os primeiros remédios devem chegar às farmácias a partir de junho, podendo conter até 0,2% de THC.

“Quando retornei dos Estados Unidos, há quatro anos, havia cinco ou seis médicos prescrevendo CBD no Brasil. Hoje somos mais de 1.300”, comenta Carolina. No Brasil, porém, nem tão cedo estaremos chupando pirulitos de CDB: a substância só estará disponível na forma de tintura – e com tarja preta. “São só formas de consumo, que se adequam ao paciente. Talvez uma pessoa que tenha dificuldade de engolir uma cápsula ou não gosta do gosto da tintura não encontre problema em comer um bombom.” Para Carolina, que descobriu a medicina canábica tratando a própria insônia, o CDB é seguro. Não por acaso, o FDA classificou-o como suplemento alimentar. Fora o câncer, que exige alta dosagem não disponível num cookie, quase todas as outras patologias demandam  formas e doses personalizadas. “Nos Estados Unidos fica na mão do paciente e da equipe multidisciplinar dos dispensários. Cada pessoa, se bem instruída, pode ir encontrando a melhor forma  para si de consumir e a sua dosagem.”

O mercado brasileiro também anda ouriçado. Em 2015, logo após a primeira RDC da Anvisa, a paulista Camila Teixeira fundou a Indeov, empresa pioneira no Brasil, que conecta pacientes, médicos e fornecedores nos Estados Unidos. A experiência ela trouxe de Los Angeles, onde chegara muito antes de o CBD alcançar a crista da onda. Lá, seu desafio consistia em ajudar as nascentes empresas a conquistar o público conservador: “Tudo ainda era muito pejorativo. A maconha estava associada à fantasia. Precisávamos de toda uma nova estratégia de comunicação.” De certa forma, ao retornar para São Paulo, Camila voltou para o ponto de partida: “O desafio é sempre de comunicação. Como fazer o fazendeiro lá do Colorado entender como deve tropicalizar o seu produto? Nosso primeiro passo aqui foi justamente ajudar as empresas americanas a se prepararem para operar no Brasil.” Na sua opinião, “a tendência é a chegada no país de muito business relacionado à medicina canábica, de firmas de advogados especializados a escritórios de contabilidade”.

À frente da Dr. Cannabis, a paulistana Viviane Sedola apareceu na lista da High Times, a bíblia da maconha, entre as 50 mulheres mais influentes do mundo no ramo da medicina canábica. Assim como a Indeov, a Dr. Cannabis é uma plataforma de tecnologia e informação, que facilita o acesso do paciente aos médicos e fornecedores. “Lá atrás puseram a maconha na caixinha negativa. Agora temos que reverter este processo, desmistificando a planta. Começamos exatamente com um site de conteúdo, enquanto desenhávamos o nosso modelo de negócio”, comentou ela, que hoje tem dez mil clientes. Para Viviane, a conta é simples: “As pessoas precisam entender que o THC é só uma das centenas de moléculas da planta. Proibir uma planta porque o THC faz mal é como proibir a cana de açúcar porque cachaça vicia”, diz ela, que está certa de uma coisa: “É um caminho sem volta.”

 

Karla Monteiro é jornalista. Já passou por grande parte dos veículos da imprensa escrita nacional e lança em breve a biografia de Samuel Wainer, O Homem que Estava Lá, pela Cia. das Letras

 

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