Um guia bem-humorado das últimas tendências

Comida, entretenimento, decoração e até mesmo pets: o que subiu e desceu nos últimos tempos

25.06.2018  |  Por: Maria Clara Drummond

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Um guia bem-humorado das últimas tendências

Vamos lá, não é para levar totalmente a sério, e sim dar algumas risadas dos últimos comportamentos do jovem morador das grandes metrópoles brasileiras, aquele que foi viciado em frozen yogurt, migrou para as paletas mexicanas e gastou uma pequena fortuna numa bicicleta elétrica. Se você se identificou com alguma dessas, não fique ofendido: acredite em mim, been there, done that – ou seja, se faço piada é justamente porque já estive nesse lugar.

1) Festa junina é o novo carnaval

Faz alguns anos que o carnaval de rua voltou à moda. Até mesmo São Paulo, conhecido como o túmulo do samba, acordou para os bloquinhos. Com isso, as ruas começaram a ficar cada vez mais cheias e as fantasias cada vez com mais pinta de superprodução. De repente, as pessoas deixaram de criar seus próprios modelitos com apetrechos das lojinhas da região da Saara – ou, no caso paulista, 25 de março – para usarem acessórios de marcas sofisticadas, que fazem coleção-cápsula especialmente para a data. Nos últimos anos, também começou a polêmica dos “blocos secretos”, que não querem multidão, gerando o questionamento: carnaval é ou não é uma festa democrática?

Com isso, talvez seja hora de buscar uma nova festa que ainda não tenha sido contaminada pela multidão e pelo concurso de looks, e esse movimento já começou. A festa junina é uma oportunidade de também se fantasiar e celebrar a cultura do nosso país. De quebra, ainda há a peculiaridade de ser uma festa com comida, o que inevitavelmente gera aquele dilema: dá para comer e beber no mesmo clima carnavalesco nonstop sem passar mal? Há festas juninas para todos os gostos, desde as familiares nas pracinhas de bairro, as feitas em casa para os amigos, e aquelas com clima de balada & pegação. Por ora, a boa e velha camisa xadrez ainda está valendo como fantasia.

Nos últimos anos, a MPB e demais brasilidades voltaram a agitar a pista de dança da turma moderna, às vezes com remixes espertos, e toques de eletrônico. Isso vem bem a calhar, já que parte considerável da playlist carnavalesca pode ser reaproveitada para o contexto junino, desde que, é lógico, você não se esqueça dos clássicos #antygos, como Luiz Gonzaga.

2) Hype vegano versus hype do porco

Eis um exemplo da polarização que chega até nos lugares mais inesperados. De um lado, o veganismo conquistando cada vez mais adeptos. Hoje, é de bom tom que um restaurante, ou até mesmo um simples barzinho, tenha alguma opção vegana. E atenção: não vale mais vegetariano, uma espécie que caiu no ostracismo entre os defensores do meio ambiente e dos direitos dos animais (e não vamos nem falar dos peixetarianos).

Se antes era preciso uma boa procura para restaurantes especializados nesse tipo de dieta, hoje eles são hype, com iluminação indireta e drinques caprichados, como o carioca Teva e o paulista Futuro Refeitório (este último focado em vegetais mas com algumas poucas opções de carne). Se outrora era um estilo de vida mais caro e trabalhoso, hoje o que não falta na internet e em programas de televisão são receitas veganas fáceis, saborosas e baratas.

No entanto, parece que há uma fixação crescente com o bacon (e demais carnes suínas). É um radicalismo carnívoro. Desconfio que seja um modo de resgatar a cultura #HeteroOgro, que ficou fragilizada depois do advento da Pabllo Vittar.

Todo mundo sabe que bacon faz mal à saúde. Mas há outras questões envolvidas. Porcos estão entre as espécies mais inteligentes. Seu desempenho cognitivo é mais desenvolvido que o de um cachorro e até mesmo de uma criança de 3 anos. Isso torna seu abate especialmente cruel, dado que eles têm consciência do que está para acontecer.

Mesmo assim, temos restaurantes inaugurados há pouco tempo que são especializados nesse tipo de carne, como A Casa do Porco, em São Paulo.  Mesmo o bar Comuna, reduto hipster carioca cheio de opções veganas em seu cardápio, tem na sua embalagem para viagem o lema: “Coma bacon.”

3) Glúten free versus pão sourdough

Aqui, imagino que deve ter imperado a dialética. Dois anos atrás todo mundo prezava as benesses de uma alimentação sem glúten. De súbito, o pão se tornou o grande vilão alimentício. Mas eis que  consegue uma reviravolta ao se reinventar como sourdough: um processo de fermentação demorada, que pode chegar a dois dias para ficar pronto, e que até mesmo tem pouco glúten!

O pão de sal/francês é pouco saudável porque o trigo sofreu várias mutações genéticas ao longo do século XX. Diferentes tipos de trigo passaram a ser misturados, para que assim expandisse a produtividade e gerasse um resultado mais econômico. Com a mutação da planta, o glutén aumentou 150%. O mais usado, o trigo-anão, é mais carente em relação ao normal em nutrientes e proteínas, com baixa concentração de zinco, cobre, ferro e magnésio, e aumenta o inchaço e os sintomas de compulsão alimentar.

O hype do sourdough até mesmo diminuiu a moda da clássica baguete, e não é a toa. Baguete não é só o formato do pão, e sim modo de preparo. A original tem pouco glúten, então cuidado com as baguetes compradas na padaria da esquina!

Quando fui pela primeira vez comprar meu exemplar de sourdough, levei um susto com o preço. Desisti e voltei para a minha baguete mainstream. Mas, quando a vida financeira permitiu esse luxo, fui conquistada pela crocância e pelo gosto de pão de verdade. Podendo, faz diferença!

4) Pets

Na década passada, havia uma grande quantidade de buldogues franceses com nomes como Esther, Valentina, Mafalda, Bento, Joaquim. Agora, esses nomes migraram para os bebês dos pais antenados, assim como demais nomes que eram populares na época dos nossos avós. Por outro lado, raças bonitinhas porém frágeis estão em baixa, e a sustentabilidade chegou ao universo pet: por que gastar tanto dinheiro com um filhote se você pode adotar um vira-lata já existente, e que precisa de carinho?

Comprar um cachorro se tornou quase um ato antiético, principalmente em petshops em que eles moram em gaiolas, ou de matrizes desconhecidas, que muitas vezes recebem tratamento análogo à tortura, forçadas a parir mais vezes do que seria o natural, durante toda a sua existência. É possível que isso tenha influenciado a nova leva de nomes de pets, com uma pegada tradicional anos 90, sem nenhuma afetação, como Rex, Totó, Bolinha. Atenção especial para os que têm nome de comida: Filé, Ricota, Farofa, Pepino, Pipoca, Palito.

Adendo: nos últimos anos, os dogs conseguiram até mesmo a façanha de desbancar a supremacia dos gatos em fotos de Instagram. Slavoj Zizek pode comemorar, dado que ele já disse em entrevistas que, caso estivesse no governo, criaria um imposto alto para gatos.”São preguiçosos, traiçoeiros e exploram os demais”, disse o famoso filósofo esloveno acerca da luta de classes dentro do mundo animal.

5) Decoração

Antes da crise, a moradia do jovem antenado era composta de parede interna com tijolo, piso de cimento queimado, obra de neon na parede com alguma frase, nos moldes da arte com esse tipo de material, muito em voga nos anos 70. Em casos extremos, haveria até encanamento e fiação à mostra, algo entre o estacionamento no subsolo seu prédio e a arquitetura do Museu Pompidou, em Paris. Hoje em dia, toda loja e restaurante que se pretende moderno tem esses itens, tornando a coisa toda um tanto pasteurizada.

Agora, como o jovem designer ou produtor de conteúdo está com menos frilas, a graça atualmente é morar num ambiente mais aconchegante, menos pretensioso e mais personalizado: pense em inúmeros quadrinhos na parede, sofá velho e confortável, e aparador e cadeira por uma pechincha comprado em feirinhas de antiguidade, como a da Praça XV, no Rio de Janeiro – não confundir com bem menos econômica Rua do Lavrario. Convenhamos, está muito melhor. Porém, atente para o único luxo inegociável, o piso de taco de madeira.

1 Comentários

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Uma resposta para “Um guia bem-humorado das últimas tendências”

  1. Manuela disse:

    Texto engracadissimo e super gostoso de ler! Uma observacao dos fatos feita de uma forma inteligentissima! Amei! E.. quero piso de taco de madeira ja!

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