Um mamilo teu não foge à luta

Escultura pelada no museu pode. Fumar no palco do teatro em cena também. A arte é muito melhor do que vida

25.02.2019  |  Por: Cristina Flores

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Um mamilo teu não foge à luta

É um assunto ultrapassado. Às vezes os assuntos ficam ultrapassados mesmo antes de a realidade ultrapassá-los. Aconteceu com os peitos femininos, você continua não encontrando eles nas ruas (só nas bancas), as mulheres que os possuem continuam não podendo usá-los como melhor lhes convier, mas esse papo já deu, é como se a gente já tivesse levado, é como se nos dissessem “ei, a gente já entendeu, tem, mas acabou!”

Na minha carreira de atriz, já perdi a conta das vezes em que atuei sem blusa, mas sei exatamente em quantas sexualizei o fato: duas.  Apenas duas cenas foram relacionadas a sexo, no total, em mais de 20 anos de carreira. Todas as outras vezes em que tirei a blusa em cena havia uma conotação diferente do uso que se possa imaginar para um seio feminino. Já dancei, já respirei sem blusa, conversei sem blusa, coisas realmente inéditas.

Então chega de mamilo, vamos falar de cigarro? Palco do Teatro Nelson Rodrigues. Passado. Minha personagem fuma. É de época. No ensaio, o diretor dá um intervalo e eu não quero ir lá fora. “Ah, quero fumar aqui. Acabei de fumar aqui.” Mas só é possível fumar no estacionamento quando você é pessoa física. Então acendo, meio que escondida, mas literalmente no meio do palco e, imediatamente, vejo acionado o instinto animal de um bombeiro encaixado na mobília daquele teatro público. Pô, acabar sentado num teatro talvez seja a antítese do que constitui um bombeiro. Ser reduzido a espectador de chamas imaginárias – a maioria das peças nunca nem pega fogo. Logo, a mola que salta da cadeira do bombeiro quando uma atriz /um ator fuma num teatro, numa coxia, atinge alguma espécie de delícia, tudo que o bombeiro quer é aproveitar/ pra te apagar/ o velho sonho de sacar um extintor, te domar com uma mangueira, molhar você todinha, te fazer engolir a guimba, enfim, imagine um bombeiro que corre palco adentro na minha direção, e eu não tenho opção, nem penso, só me defendo com o que dava, deito-lhe um olhar atônito, “o que você tá fazendo aqui?”, sussurro projetando, “você não pode vir aqui, eu tô em cena”, e ele PLUFT, se transforma num Michael Jackson, realiza passos lunares de costas, se alça ÁGIL pra fora do palco feito um trapezista de si, feito um jacaré que abandona um rio sem deixar uma ruga.

A arte foi o único espaço que a gente abriu feito Moisés, nesse mar vermelho mortal, para as nossas humanidades

Foi aí o momento em que eu me dei realmente conta do poder do teatro, da diferença abissal que separa a cena da realidade. No “ao vivo”. Disso, da cena ser um lugar suspenso no mundo. Foi o momento em que pensei: “Por que diabos quebrar a quarta parede?!”

Vamos fazer o contrário! Todo mundo sobe pro quadro, tá?! Atravessem a quarta parede,  tomem seu lugar de fala! A arte foi o único espaço mesmo que a gente abriu feito Moisés, nesse mar vermelho mortal, para as nossas humanidades. Eu estar em cena era o suficiente pra ELE ser o criminoso. No mundo invisível que protege o que existe sob a égide de arte, era ELE quem tinha infringido as regras.

Como aquele segurança do Centro Cultural da Justiça Federal onde apresentei a performance Mamilo Broche de Mamilo (que é basicamente usar os próprios mamilos feito broches), que em 2018 virou Camisa Educação da Gentil Carioca e hoje é parte do figurino da nossa peça Rio 2065. Então no palco 1 do CCBB, na parte em que minha personagem Jacira surra os 500 anos do machismo brasileiro, você pode perceber os dois pequenos buracos na minha camiseta reveladores dos meus mamilos feito broches, a minha moda da nova mulher bolada pra “furar duas vezes o sistema” tá lá, garantindo algum ventinho pros meus bicos.

Mas volta pro segurança da Justiça Federal, volta pra mim antes de entrar em cena, enquanto perambulo pelo centro cultural recebo voz de prisão. Paraliso. Até uma Mephista escondida no meu sótão argumentar: “Sou só uma atriz.”

Salva. Enquanto personagem eu era inatacável, livre daquele mundo de regras ordinárias, para além dos interditos, eu bufona, desde os primórdios, artista no tempo. Se fosse vida real tava fudida. Era multa. Grade. Era climão entre os adultos porque não pode.

Amada, se você virar uma escultura você vai poder ficar nua até no Louvre, que é sabidamente um dos lugares mais caretas do universo.

 

P.S. 1: poesia

Se eu fosse de pedra/ há tantos séculos retalhada por mãos hábeis/

Se eu fosse fria/ Se eu fosse 1 estrutura vendável/ inanimada/imaginada/

Se eu guardasse na cabeça/

no lugar dos pensamentos, mármore/

no peito, substituindo o coração, 1 bela peça de pedra sabão/

se eu nunca dissesse coisa alguma/ e

se eu nunca tivesse querido me mover/

como quem sobe num púlpito e acha a vista de tudo suficiente/

se eu não quisesse tocar em nada/

se tivesse essa calma férrea, pétrea/

se tivesse a paz de quem serve de pista pra pássaros/ e suportasse todo cocô voador do mundo/

se tivesse presa num corpo sem sangue nem desejo, nem possibilidades/

a mulher está perfeita?/

a ilusão de uma necessidade grega?/

Meus pés nus parecem dizer/ já caminhamos tanto, acabou?/

a lua não tem porque estar triste?/

se eu não sentisse mais nada/

vc não ia ligar pros meus peitos,

vc ia até se distrair enquanto passa/

assim como sou, vá para o inferno sem mim/ ou deixe-me ir sozinha pro inferno/

porque diabos haveríamos de ir juntos.

P.S. 2: prosa

Se as roupas são expressão, a nudez seria a mudez do corpo. Minha gente, todo corpo precisa de um ponto zero. Um jeito de existir como quem não quer nada. Quando um homem tira blusa ele não quer necessariamente nada com isso. Homem não precisa de motivo.

Um corpo não pode ser resumido ao serviço que presta. Mamilos não são só de chupar. O corpo da mulher não é só pra servir. Deveria poder existir em silêncio, fora dos desejos. Se depender de mim vai. Brasileiras do mundo todo, a demonização dos nossos corpos tem nos custado muito caro. A saída é pelo mamilo.

1 mamilo teu não foge à luta

Nem teme quem te adora a própria morte

Teu torso, amada

Dos filhos desse solo és mãe gentil

Mamilos livres, Brasil

 

Cristina Flores está em cartaz no CCBB, com a peça Rio 2065, em que atua com seus mamilos numa índia fake e em mais duas outras personagens feministas escritas por Pedro Brício em homenagem aos 20 anos da companhia Os Dezequilibrados, fundada por Cristina, Ivan Sugahara, Angela Câmara, Letícia Isnard, José Karini e Saulo Rodrigues, no século passado

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